"Os Miseráveis": Lições éticas e políticas na obra
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“Os Miseráveis”: Lições éticas e políticas na obra

“Os Miseráveis”: Lições éticas e políticas na obra

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Por Leonardo Delatorre Leite – Reaviva MACK
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A leitura da obra clássica “Os miseráveis” do renomado escritor francês Victor Hugo se faz extremamente necessária para uma reflexão abrangente acerca de diversos temas, tais como: ética, política, sociologia e Direito.

os miseráveis
Os Miseráveis – Victor Hugo.

O enredo da obra se passa no século XIX quando a França se encontrava em uma situação instável marcada por revoluções e motins. Jean Valjean, um condenado que serviu durante muito tempo nas galés, conquista a liberdade, contudo é marginalizado por todos até que finalmente é acolhido amigavelmente pelo Bispo Myriel (Monsenhor Benvindo), cujas atitudes de benevolência para com Valjean o mudaram drasticamente.

Após o encontro com o sacerdote, o ex-condenado passa a agir em conformidade com os ideais e virtudes de misericórdia, piedade, perseverança e fortaleza; enfrentando diversas adversidades e até mesmo as perseguições e investidas de um agente policial implacável.

Lições de “Os Miseráveis”

“Os miseráveis” nos traz inúmeras lições, dentre elas: a importância da ética deontológica nas relações humanas através do exercício das virtudes imprescindíveis para uma vida piedosa e digna; a necessidade da fortaleza para que possamos enfrentar as adversidades da vida sem nos esquecermos  dos princípios morais legítimos, a eminência do empreendedorismo e da livre iniciativa no bem estar da sociedade (Jean Valjean tornou-se um empresário anônimo e possibilitou o aumento do fluxo de riqueza e empregos em sua cidade), o papel da caridade voluntária demonstrada explicitamente por Valjean ao cuidar de Cosette, os efeitos nocivos do intervencionismo do poder público e da arbitrariedade estatal representada pelo inspetor Javert; além de ressaltar que o bem comum é resultado da cooperação entre os indivíduos e do voluntarismo. 

Conforme ressalta Victor Hugo, a obra não deve ser interpretada sob o viés da luta de classes nem tampouco sob a óptica uma perspectiva do materialismo histórico-dialético. O escritor até mesmo estabelece em seus escritos as limitações da Comuna de Paris, um movimento pautado fundamentalmente nos ideais socialistas e que se propôs a implantar uma justiça material pautada no igualitarismo.

Filosofia política

Os Miseráveis, portanto, traz claramente a filosofia política de Victor Hugo. É um mundo onde há cooperação – e não luta – entre as classes; onde o empreendedor desempenha uma função essencialmente benéfica para todos; onde o trabalho é a via principal de aprimoramento pessoal e social; onde a intervenção estatal por motivos moralistas – seja do policial ou do revolucionário obcecado pela justiça terrena – é um dos principais riscos para o bem de todos que será gerado espontaneamente pelos indivíduos privados.

http://cafelivroearte.blogspot.com/2012/03/o-poeta-dos-desejos-victor-hugo-1802.html

Sobre o socialismo e sobre a Coluna de Paris, Victor Hugo escreve: 

O comunismo e o agrarianismo acreditam que resolveram este segundo problema [da distribuição de renda], mas estão enganados: a distribuição destrói a produtividade. A repartição em partes iguais mata a ambição e, por consequência, o trabalho. É uma distribuição de açougueiros, que mata aquilo que reparte. Portanto, é impossível tomar essas pretensas soluções como princípio. Destruir riqueza não é distribuí-la.

O significado da Comuna é imenso, ela poderia fazer grandes coisas, mas na verdade faz somente pequenas coisas. E pequenas coisas que são odiosas, é lamentável. Compreendam-me: sou um homem de revolução. Aceito, assim, as grandes necessidades, mas somente sob uma condição: que sejam a confirmação dos princípios e não o seu desrespeito. Todo o meu pensamento oscila entre dois polos: civilização-revolução. A construção de uma sociedade igualitária só será possível se for consequência de uma recomposição da sociedade liberal.

Lições morais

Mais do que os ensinamentos políticos da obra, devemos frisar suas lições morais mais elementares acerca das virtudes e da caridade voluntária. O livro mostra os impactos do amor ao próximo; ressalta como pequenos gestos de caridade influenciam enormemente a sociedade.

Jean Valjean era um personagem rancoroso, marcado pelo remorso e angústia, mas que pela ação piedosa de Monsenhor Benvindo tem seu caráter transformado. Tornou-se prefeito de uma cidade, perseverou na misericórdia e no bem, estimulou o trabalho e o empreendedorismo, adotou a criança de uma mulher à beira da morte para criar como filha e nunca se cansava de promover doações. Conforme ressalta Walcyr Carrasco: 

Fico especialmente emocionado com a personagem principal, Jean Valjean. No início um homem rancoroso, ele é transformado por um gesto de amor ao próximo. A generosidade ilumina seu coração. Redescobre os valores éticos e cria uma nova consciência. Sua vida passa, então, a ser reflexo dessa consciência. A capacidade de alguém mudar através do amor é tocante. Fica a mensagem. Todo mundo pode tornar o mundo melhor. Basta querer. Amar o próximo, eis a questão. 

Creio que a lição moral da obra de Victor Hugo dialoga intrinsecamente com os ensinamentos contidos no livro O Hobbit do grande escritor J.R.R Tolkien, especialmente numa fala do icônico personagem Gandalf, quando este dialoga com Galadriel; trata-se da seguinte passagem: 

“Saruman acredita que apenas um grande poder pode manter o mal sobre controle, mas não é o que descobri. Descobri que são as pequenas coisas, as tarefas diárias de pessoas comuns que mantém o mal afastado, simples ações de bondade e amor.” 

Obra completa

Enfim, trata-se de uma obra complexa, com um enredo que nos promete ótimos questionamentos e reflexões, bem como personagens com um denso teor psicológico e conflitos morais internos.

Pode-se até mesmo vislumbrar ao longo da história uma crítica ao cumprimento cego da lei positiva, pois a observância integral das determinações legais sem um teor moral pode levar o indivíduo a uma atitude de ignorância para com a dignidade da pessoa humana; tal observação pode ser constatada na figura do inspetor Javert, que pelo seu desejo constante de se apegar às ordens e imperativos governamentais, acaba por dificultar a prática das virtudes por parte dos cidadãos e da justiça enquanto um preceito moral.

Portanto, pode-se chegar a diversas reflexões com a leitura de “Os Miseráveis” e por este motivo trata-se de um clássico que deve ser relido e estudado constantemente. 

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