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Resenha: Os 3 Mundos

Resenha: Os 3 Mundos

Por Giulia Fantinato – Fala!MACK

O pós-guerra em tempos de crítica

Peça em cartaz na Fiesp critica a relação com as escolhas

Com muitas referências, principalmente ao filme Kill Bill, do diretor Quentin Tarantino, e com inspirações claras até nas roupas, o espetáculo Os 3 Mundos foi idealizado por Paula Picarelli – que também interpreta Lachesis, a líder do Grupo da Serpente. Em 2014, por intermédio de um amigo em comum, a também atriz se conectou com Daniel Gaggini, o produtor da peça, e o apresentou a quatro telas de um arquivo em pdf e uma ideia inovadora para os palcos: a junção da arte de teatro com a arte da HQ, histórias em quadrinhos.

Foto: Ligia Jardim/Divulgação

Na apresentação, pode-se notar claramente a junção de várias das belas artes – como a música na direção original de Marcelo Pellegrini e na edição de som e produção musical de Surdina; a literatura na roteirização e transformação da história original dos quadrinhos de Fábio Moon e Gabriel Bá; a dança na coreografia e preparação de movimento de Luis Pelegrini e até mesmo o cinema nas diversas projeções e animações de Bijari. O teatro não só merece uma posição nas belas artes como engloba muitas delas e essa em particular é uma de suas evidências.

Gostei do espetáculo pela forma como retrata a ideia de 3 Mundos, um sistema capitalista e a sua destruição e consequente criação dos outros dois mundos representados pelo grupo da Serpente e o Mundo das Máscaras. A apresentação de um sistema no qual o seguidor não tem muita opção de escolha e até mesmo chega a matar para mantê-lo e que fala um pouco sobre a sociedade e suas concepções.

Foto: Ligia Jardim/Divulgação

Os 3 Mundos se passa em um cenário distópico pós-guerra. Lachesis (Paula Picarelli) comanda o grupo da Serpente, um grupo de lutadores de Kung Fu que vive no que restou de uma antiga estação de metrô. Autoritária, a personagem acaba eliminando cada integrante que questiona a verdade da serpente e a cada vez que isso ocorre, ela o substitui e busca por outro para “dar vida a um novo broto”. Em uma dessas situações ela se depara com o Mundo das Máscaras, onde, de sua torre, Acônito (Thiago Amaral) gere o seu grupo baseado na esperança dos seguidores de mudança, fazendo o que acredita ser necessário para a sobrevivência, mesmo que isso inclua alimentar a sua torre com estes. O embate entre os dois personagens e também a luta entre o questionamento da verdade e a confiança brutal nela é o que a peça explora de forma a criar as intrincadas relações entre os personagens.

Por fim, a peça é diferente de todo o teatro tradicional que já presenciei. A criação do que Fábio Moon e Gabriel Bá se referem como uma “quarta parede imaginária” que isola os atores e ao mesmo tempo os aproxima do público com a utilização de muitos recursos audiovisuais (luzes, vídeos e animações) altera qualquer percepção que se pode ter sobre esta peça e é definitivamente o que eu chamaria de “fora da caixinha”.

Foto: Ligia Jardim/Divulgação

O espetáculo relembrou-me de uma frase de José María Paz Gago, no livro Moda e Sedução: “seguindo o rastro deixado por Riciotto Canudo em seu Manifesto das sete artes. Por volta de 1911 ele proclamava a concepção do cinema como a fusão total das artes, um nascente cinematógrafo que, imediatamente, conseguiria seu maior título de glória, o de Sétima Arte”. Uso este espaço para ressaltar que o teatro por si só mostra a inclusão de diversas das belas artes e essa nomeação de peso deveria bastar para provar a sua viabilidade no mundo das artes.

Os 3 Mundos está em cartaz no Centro Cultural Fiesp até o dia 16 de dezembro de quinta a sábado às 20 horas e aos domingos às 19. O espetáculo de 80 minutos tem classificação a partir dos 14 anos de idade e é grátis. Recomendo a reserva do ingresso pela internet no site do Sesi-SP pois a peça está sujeita a lotação, o que definitivamente ocorre.

Foto: Ligia Jardim/Divulgação

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