Orelhões em extinção: veja por que há menos telefones públicos hoje
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Orelhões em extinção: veja por que há menos telefones públicos hoje

Orelhões em extinção: veja por que há menos telefones públicos hoje

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Orquidéa Oliveira, hoje aposentada, relembra que diariamente ligava para a casa da sogra, para falar com sua filha. Os intervalos no trabalho eram dedicados a ir para a fila dos orelhões — hábito que seus colegas também compartilhavam— para conseguir entrar em contato com quem quisesse.

Em meio a filas e conversas não muito demoradas (para que todos conseguissem usar o telefone público naquela rápida pausa), todos carregavam suas fichas em mãos. E foi nesse cenário que, certa vez, Orquidéa fez o que era de praxe: a ligação matinal para a filha, ainda pequena. Mas algo não estava normal, a menina chorava, pois acordou e não viu a avó em casa.

A mãe acalmou a filha, informando que ficaria na linha até a menina não estar mais sozinha. Mas isso parecia impossível: “O pessoal na fila gritava que tinha mais gente querendo usar o orelhão”. A sorte foi que, imediatamente, surgiu uma voz ao fundo: a menina tinha companhia.

Esse episódio descreve um pouco a rotina de quem dependia dos telefones públicos para se comunicar. Por muitos anos, a única mudança nesse hábito foi a substituição, na década de 1990, das fichas — que deram lugar aos cartões telefônicos. Mas, atualmente, o cenário é bem diferente: os orelhões foram perdendo sua importância e estão desaparecendo das ruas brasileiras.

orelhões
Número de orelhões no Brasil. | Foto: Reprodução.

Orelhões estão desaparecendo das ruas

Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o Brasil atingiu o ápice de orelhões em suas ruas no ano de 2001 (1,38 milhões de unidades). Hoje, quase duas décadas depois, são apenas 188,465 mil — uma queda de 86% no número de telefones públicos.

Para a professora titular da Escola de Comunicação da UFRJ, Marialva Barbosa, referência em História da Comunicação, a popularização dos smartphones contribuiu para esse cenário, mas o projeto do orelhão “já estava em franca decadência”, pois “passou a não fazer mais parte do projeto político”.

Barbosa elenca três fatores que contribuíram para a perda de espaço desse serviço:

A telefonia é privatizada no governo Fernando Henrique Cardoso, em 1998, e não interessa mais ao projeto neoliberal [a expansão dos orelhões]. Também houve uma maior facilidade em se ter uma linha de telefone fixo, nos anos 2000, por uma questão de facilidade tecnológica, como a fibra ótica. Depois, com a popularização do celular, foi definitivamente sepultado o orelhão.

Explica.
telefone público
Orquidéa. | Foto: João Vitor Costa.

A carioca Orquidéa Oliveira, 63, conta que, para adquirir o primeiro telefone fixo, precisou trabalhar muito. Comprava-se através dos classificados dos jornais, ou alugava-se o aparelho. Como o telefone não era algo acessível, era contando com o de vizinhos que, na maioria das vezes, os recados eram dados: “Era algo normal, a gente só ficava sem graça de incomodar a pessoa”, relata.

A rotina de quem estava no trabalho e precisava entrar em contato com quem estava em casa era solucionada, por um lado, pelos orelhões. Portando fichas, que davam direito a um tempo específico na linha, a ligação começava e, assim que a ficha caísse — começasse a ser descontada —, o recado era passado rapidamente. Déa, como gosta de ser chamada, hoje aposentada, relembra que, nessa época, chegar com muitas fichas na fila do orelhão atraía muita “cara feia” de quem estava atrás de você. “Já vi muita briga em orelhão, tinha gente que ia desligar o telefone de quem estava abusando no tempo”, conta dando risadas.

Importância do telefone público

Se hoje é mais acessível ter um smartphone ou algum aparelho de comunicação, nem sempre o cenário foi esse. A pesquisadora Marialva Barbosa, que já trabalhou como assessora de imprensa da extinta Telerj, explica que ter um telefone fixo não era algo barato: “Além de ser caro [o aparelho], a conta também era alta. Pagava-se por impulso e cada minuto correspondia a vários impulsos telefônicos — o que era um absurdo de caro”.

E foi durante a Ditadura Militar que se expandiu o uso dos telefones públicos. “Os governos militares fizeram dessa questão das telefonias uma questão de integração nacional, uma coisa estratégica no sentido de construir uma ideia de nação, uma ideia de país integrado nacionalmente” e, assim, “há a encampação das empresas de telecomunicações, criando-se a Telebras (uma holding do sistema) e, em cada estado, uma ‘Tele’ específica: no Rio, era a Telerj”.

Se para quem trabalhava e morava na cidade do Rio os orelhões tinham importância, para o militar Antonio Duarte esse serviço “era crucial”, como relata. Nascido em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, veio para o Rio de Janeiro servir embarcado — o que o fazia navegar para vários estados brasileiros. E quando o navio ancorava em algum porto, a corrida era para o orelhão mais próximo para falar com a família.

A partir dos anos 1990, as fichas telefônicas foram substituídas pelos cartões que, ao contrário delas — que eram “engolidas” pelos telefones –, ficavam com o usuário mesmo após o fim dos créditos. Por conta das estampas e das edições colecionáveis, Duarte passou a guardá-los: “Aquele papelzinho bonito, com os dizeres sobre as paisagens, a história, e eu comprava e fazia coleção”.

Além de ter cartões de diversos estados e estampas, por conta das viagens pela Marinha, morador do bairro de Quintino, na Zona Norte do Rio, o militar andava pelas ruas do Rio de Janeiro para completar suas coleções. “Às vezes, ia em Niterói ou na Rua da Carioca, no Centro, para comprar cartões e completar a coleção”.

É em uma sala repleta de fotos de suas viagens de ouro — que ele compara a “uma convocação para a seleção brasileira” — que Duarte, 60, mostra orgulhoso suas centenas de cartões das operadoras brasileiras, além de alguns que guardou das viagens internacionais. Também exibe, sorridente, sua foto com o Papa João Paulo II, em Roma.

E é através da memória — com relatos e com os cartões telefônicos, por exemplo — que as gerações que foram dependentes dos orelhões poderão se recordar dessa maneira de telefonar. Isso porque, como vimos, os aparelhos estão desaparecendo das ruas.

Segundo a Anatel, isso é resultado de um decreto de 2018, em que “dentre as alterações realizadas, consta o fim da obrigação da concessionária em manter orelhão a cada 300 metros nas localidades atendidas com acesso individual, e da obrigação de garantir a densidade de 4 orelhões para cada 1.000 habitantes por município”.

Mas, segundo a agência reguladora, isso não significa o fim do serviço: os orelhões ainda são usados em emergências e “apresentam importância nas pequenas localidades, nas cidades mais distantes dos grandes centros, e também nas que não apresentam os demais serviços (serviço móvel e Internet)”.

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Por João Vitor Costa – Fala! UFRJ

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