Opinião: sociedade capitalista transformou a velhice em algo ruim
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Opinião: sociedade capitalista transformou a velhice em algo ruim

Opinião: sociedade capitalista transformou a velhice em algo ruim

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“Que nasceu ou apareceu recentemente”. É assim que se designa algo novo. Desde o surgimento das espécies, a humanidade busca incessantemente por algo ainda não existente, mesmo de uma maneira não proposital: o atrito entre duas pedras fez surgir algo novo, o fogo. E com o passar dos anos, o fogo deixou de ser uma novidade e passou a ser algo crucial, logo, comercializado, um produto. 

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Surgimento do fogo. | Ilustração: Reprodução.

A possibilidade de consumo trouxe o fogo como uma novidade novamente. Não é preciso trazer o atrito entre duas pedras para fazê-lo surgir. Agora existe o fósforo, o isqueiro e, até mesmo ao acionar um botão em um fogão automático, é possível fazer a chama se acender. 

Assim como o fogo se tornou um novo produto em diversas etapas da evolução humana, o capitalismo utiliza das necessidades de cada era para produzir artigos ditos como necessários para existência e sobrevivência.

E assim se criou novas formas de se locomover, outros jeitos de se comunicar, um sistema moderno de finanças, uma atualização das maneiras de se divertir, cantar, consumir, ser, ouvir e existir. É falado, até mesmo, de um “novo normal” em um cenário completamente anormal.

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Representação da evolução do homem. | Foto: Reprodução.

Sociedade capitalista e transformação de conceitos

O capitalismo utiliza de pontos cruciais para inventar novos produtos, nesse cenário, o novo acaba se configurando como o velho reformado, recolocado e rearranjado, com um novo acabamento e um slogan impactante, capazes de mover multidões sedentas por algo não tão novo assim.   

Nessa corrida por inovação, o capitalismo conseguiu inventar tudo: fez o homem pisar na Lua, satélites habitarem o espaço, robôs descobrirem a existência de vida em Marte. Entretanto, ainda não conseguiu resolver uma questão que não é de outro planeta: o tempo. 

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Homem na Lua. | Foto: Reprodução.

Tempo x capitalismo

Como diz um ditado popular, o tempo é amigo das horas, e nessa ótica, é mais ainda do capitalismo. Quanto mais o tempo passa, mais produtos são reinventados e mais necessidades são criadas. 

Assim, esse modelo torna cada dia mais a humanidade em um produto. Logo, as pessoas são tratadas como números e descartadas assim como as próprias coisas que o modelo inventou. 

A medicina busca novas estratégias de cirurgias plásticas, a indústria de cosméticos surge com uma fórmula rejuvenescedora, e até o mesmo o cinema diz que “Os 50 são os novos 30”.

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A velhice não é bem vista pela sociedade capitalista. | Foto: Reprodução.

Velhice x capitalismo

O envelhecimento envelheceu tão mal quanto os celulares que são trocados a cada 2 anos por serem considerados obsoletos. Ou por aquele carro que é mais tecnológico. Por uma televisão que tem acesso a mais novidades, entre outras tantas contemporaneidades. E assim como estes, as pessoas são substituídas por outras mais novas em cargos de empresas, na música, no cinema e na televisão. 

Elas deixam de existir porque esse modelo construiu a ideia de substituição, atualização e modernização, e as pessoas não são exceção, aqui o velho também precisa dar lugar ao novo. 

Envelhecer se torna cada dia menos uma possibilidade no capitalismo, e o que em gerações passadas era considerado um sinônimo de sabedoria, hoje é visto como o temido “ultrapassado”. 

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O envelhecimento surge como algo ruim na comunidade capitalista. | Foto: Reprodução.

Aliás, o envelhecimento é bem visto pelo capitalismo apenas quando surge a possibilidade de criar novos produtos como os da temática “vintage”. 

A sociedade capitalista que anseia pela novidade não percebe que vive presa numa velhice de comportamento estrutural. O novo só será uma novidade quando o sistema não inverter valores e tratar pessoas como produtos. Só assim seremos jovens o suficiente para estarmos livres do medo de envelhecer.

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Por Gabriel Soares de Souza – Fala! UFMG

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