Opinião: Ruptura democrática e mídia na desestabilização Institucional
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Opinião: Ruptura democrática e mídia na desestabilização Institucional

Opinião: Ruptura democrática e mídia na desestabilização Institucional

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A mídia tem evidenciado os ataques bolsonaristas contra a democracia, mas houve momentos que rupturas foram amparadas, de acordo com a agenda econômica em andamento

O Jornalismo livre – no contexto de um sistema de comunicação democrático, isto é, não concentrado – é uma premissa fundamental para a manutenção da democracia, pois os profissionais da comunicação, procuram cotidianamente trabalhar em busca de informações de interesse público. Boa parte da imprensa, hoje, tem trazido os ataques que o chefe do Poder Executivo tem feito contra as instituições que garantem o funcionamento do Estado Democrático de Direito.

Contudo, no Brasil, a proteção a interesses privados, em detrimento dos anseios de uma República democrática, também está presente na imprensa, pois, como participantes da elite política e econômica, os donos das empresas de comunicação corroboram a agenda neoliberal (que se opõe aos direitos sociais e trabalhistas), fortemente presente no governo Bolsonaro, e obliteram suas consequências para a população mais vulnerável. Além de divulgar este projeto como a única solução para os problemas do país.

democracia
Entenda como a democracia pode ser afetada por determinados atos. | Foto: Reprodução.

A grande mídia e a democracia

Esta análise foi feita pelo professor de Ciência Política da PUC-SP e FGV-Eaesp, e autor do livro O consenso forjado – a grande imprensa e a formação da agenda ultraliberal no Brasil (publicado pela editora Hucitec), Francisco Fonseca, que afirma que a grande mídia brasileira só atua em defesa da democracia quando os interesses que representam (das elites) são contrariados.

Segundo o professor, existem acontecimentos históricos e contemporâneos para exemplificar esta afirmação. Os golpes de 1964 e de 2016 foram dois dos mais significativos.

Fonseca afirma que a grande mídia foi favorável à Ditadura Civil-Militar durante largo período, devido à agenda econômica vigente. Somente após a promulgação do Ato Institucional n.º 5, em 1968, quando foram instalados censores nas redações, e outras medidas inconcebíveis do ponto de vista dos Direitos Humanos, que atingiam os próprios veículos de comunicação, é que passaram a se opor.

Antes disso, o governo militar ilegítimo, que ascendeu pela via de um golpe de Estado, foi reconhecido pela grande imprensa, que ajudou a derrubar o presidente eleito legitimamente, João Goulart.

Após a redemocratização, em 1988, uma nova Constituição foi escrita e, nela, estão presentes as normas do processo democrático. Mas os interesses das elites continuaram a ser buscados e, em 2016, houve apoio à deposição da presidente Dilma Rousseff, mesmo diante da inexistência de crime de responsabilidade.

Também houve apoio acrítico à Operação Lava Jato, que, além do mais, lesou a pátria brasileira ao ser vinculada ao governo dos EUA, como revelado pelo jornal The Intercept, paralelamente a perseguição política a determinados adversários, preservando outros.

Jair Bolsonaro, por sua vez, soma diversos crimes desta natureza, claramente descritos na Carta Magna, mas a posição da grande mídia tem sido de dubiedade perante os pedidos de impeachment protocolados no Congresso Nacional.

De acordo com Fonseca, tendo em vista a escalada autoritária de Bolsonaro, parte da grande mídia passou a se manifestar abertamente contra as investidas inconstitucionais do presidente, de seus familiares e de apoiadores, como também tem noticiado suas participações em manifestações favoráveis a um possível golpe de Estado e mesmo a um novo AI-5. Porém, essa parte da imprensa passou a se opor devido ao corte das verbas destinadas a todas empresas midiáticas que o criticassem.

Houve privilegiamento à Rede Record e ao SBT, além das emissoras de rádio e televisão evangélica, em detrimento dos outros meios de comunicação, caso da Rede Globo, da Folha de S. Paulo, do Estadão e outros, que, paradoxalmente, o ajudaram a se eleger.

Afirma o professor.

Mídia financiada pelo governo

A parte que tem sido financiada pelo governo se abstém em criticá-lo, mesmo com todas as arbitrariedades feitas em termos políticos (ataques à democracia), econômicos (destruição do Estado desenvolvimentista), social (retirada de direitos dos trabalhadores) e sanitários (não combater a pandemia do coronavírus), funcionamento como “imprensa chapa branca”, pois tem recebido amplamente verbas publicitárias para promoção dos projetos de Bolsonaro, como foi o caso da Reforma da Previdência e a recente privatização do saneamento, entre outros.

Em seu livro, Fonseca afirma que existem muitas contradições na grande mídia, que, por atender a uma democracia elitista, persegue governos quando estes deixam de atender a suas conveniências político/econômicas.

Deste modo, desmascarar as ações do governo Bolsonaro, que tem tensionado cotidianamente os processos institucionais democráticos, é fundamental à democracia.

Contudo, como a História tem mostrado, o compromisso da imprensa tem sido atender aos interesses de uma parcela diminuta e privilegiada da população. “A grande mídia representa o grande capital e os interesses das elites. Então, na verdade, ela nunca age sozinha. Ela age como porta-voz dessas elites”, afirma Fonseca.

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A grande mídia pode influenciar a democracia. | Foto: Reprodução.

Interesses privados e a mídia

Jornalistas brasileiros trabalham dentro do sistema capitalista, logo, a vontade dos donos das empresas de mídia, por vezes, é antecedida, impedindo o livre exercício do jornalismo independente em suas redações e colocando-se à frente dos interesses públicos.

Para que isso não ocorra é preciso que aquilo que foi aprendido na universidade, e que também está presente no Código de Ética da profissão de jornalista, seja priorizado. Pois, como dito no início do texto, o trabalho jornalístico em ambiente plural e democrático, em que  diversos pontos de vista possam se expressar, é crucial para o funcionamento da democracia. Além de prestar outras inúmeras colaborações para a população como um todo.

Defender as instituições democráticas, a liberdade de organização social e de imprensa é essencial para a democracia. De acordo o doutor e pós-doutor em comunicação pela ECA-USP, professor Rovilson Britto: “o papel da imprensa é central, dando voz aos atores que fazem essa defesa, além de os próprios veículos assumirem abertamente a defesa da democracia.”.

Para os especialistas, há ambiente para uma ruptura democrática no governo Bolsonaro?

O bolsonarismo representa o projeto de extrema-direita, e seus objetivos, além de atender somente aos interesses elitistas da agenda econômica (também chamada de plutocracia), também é derrubar ou desestabilisar a ordem democrática.

Mas, de acordo com os especialistas entrevistados, o presidente Jair Bolsonaro, hoje, não tem apoio suficiente para aplicar um golpe de Estado e impossibilitar a governança dos outros poderes. 

No entanto, é preciso estar sempre vigilante aos atos inconstitucionais, pois, segundo Britto, o processo democrático brasileiro mostra que é possível fragilizar a soberania popular por meio de ações contínuas, como ocorreu na ruptura de outras democracias.

Além disso, o mundo geopolítico vive a somatória de várias crises:

Estamos vivendo a confluência de crises. Crise econômica desde 2008, geopolítica, de acirramento da disputa entre Estados Unidos e China, principalmente. Crise do mundo do trabalho, que vai acelerando o desemprego estrutural e a informalização. A elas se soma a crise da pandemia. Tudo isso gera muita instabilidade e aparecem forças que defendem governos mais autoritários, como é o caso de Bolsonaro. 

Afirma Britto.

Na visão do professor Francisco Fonseca, embora o presidente Jair Bolsonaro possua clara intenção de ser um autocrata, ele não tem apoio da maioria da população e nem dos militares.

Além disso, o governo tem sofrido derrotas pelo poder Judiciário, que está investigando seus apoiadores que agiram ilegalmente em sistemas de disparos de mensagens em massa em redes sociais (desinformação e pós-verdade via fake news, que possibilitou sua eleição), além da prisão de extremistas, como a Sara Winter.

O Bolsonaro é um pouco da imagem do besouro na luz. Ele parece um monstro, mas é só um besouro. Ou seja, aparenta ter muito mais poder do que tem. Mas ainda assim ele é um perigo, em vários sentidos. Porque ele quer destruir completamente os direitos dos trabalhadores. Quer destruir, se puder, a democracia, para criar um projeto autoritário que é para os 10% mais ricos do país. 

Afirma Fonseca.

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Por Bianca Rafaela da Silva – Fala! Anhembi

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