Opinião: Respeita as 'mina'! Mas não mexe no meu pornô…
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Opinião: Respeita as ‘mina’! Mas não mexe no meu pornô…

Opinião: Respeita as ‘mina’! Mas não mexe no meu pornô…

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Reflexões sobre os malefícios da pornografia para os dois lados da tela

Antes de tudo, quero deixar claro o intuito deste texto. Não venho escrever em tom de cobrança e muito menos na tentativa de me colocar como mártir da causa. Quero apenas conversar e refletir com você, homem, que ainda financia essa indústria misógina e doentia. Provar por A+B que apoiar a pornografia é financiar abuso, tráfico humano, racismo, pedofilia e tantos outros crimes. E que isso, além de prejudicar quem trabalha nessa indústria, também prejudica você, que assiste. Vamos lá.

pornografia
Conheça os malefícios da pornografia. | Foto: Shutterstock.

Você certamente já teve, alguma vez na vida, contato com a pornografia. Provavelmente na pré-adolescência, através de algum amigo de infância ou colega de escola. E ela, decerto, foi apresentada a você como algo natural, inevitável nessa fase da vida e, às vezes, até como um rito de passagem para deixar de ser criança. Quase como a reafirmação da sua masculinidade.

Então já vamos esclarecer, aqui, a primeira falácia: a pornografia não é normal, não é natural e muito menos arte, como alguns dizem. É uma indústria multibilionária que faz sua fortuna através da venda de abuso, e não de sexo. Naturaliza e lucra com o estupro, o racismo, a pedofilia e o tráfico sexual. Simples assim.

Os crimes da indústria pornográfica

O mercado da pornografia movimenta, ao redor do mundo, cerca de 100 bilhões de dólares anualmente, segundo pesquisa da socióloga Kassia Wosick, professora da Universidade Estadual do Novo México (EUA). O site PornHub, um dos maiores na área, obteve mais de 42 bilhões de acessos em 2019 — ou seja, uma média de 115 milhões de visitas por dia.

Apesar de os donos do site afirmarem a existência de “moderadores humanos dedicados a revisar cada upload“, uma investigação publicada pelo The Sunday Times, em 2019, revelou dezenas de vídeos com conteúdo ilegal presentes no site. Alguns deles, com mais de 350 mil visualizações e postados há mais de 3 anos.

Além disso, de acordo com uma pesquisa publicada pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, 88% das cenas pornográficas contêm agressão, sendo 94% delas contra as mulheres. A consequência direta disso é, evidentemente, a perpetuação de uma cultura misógina que reduz a mulher a um simples objeto de prazer do homem.

O Dr. Robert Jensen, professor formado pela Universidade de Minnesota, expôs em seu artigo Pornografia e Violência Sexual os preceitos básicos da pornografia. São eles:

  1. Todas as mulheres querem sempre sexo de todos os homens;
  2. As mulheres desfrutam de qualquer ato sexual que um homem executa ou demanda;
  3. Embora a força na pornografia seja raramente necessária, visto que a maioria das mulheres são as “ninfomaníacas”, que muitos homens fantasiam, qualquer mulher que não quiser realizar o ato sexual cederá se o homem insistir ou forçar.

Dessa maneira, a pornografia apresenta sempre um cenário de subordinação, onde a mulher é a dominada. Isso cria uma dissociação entre o real e o fantasioso, naturalizando o abuso e a violência no mundo concreto.

Outro crime que está diretamente ligado à pornografia é o tráfico sexual. Segundo dados da ONU, 59% das vítimas do tráfico humano são exploradas sexualmente, das quais 94% são do sexo feminino. Um estudo realizado pela Northeastern University (EUA) também revelou que os consumidores de conteúdos pornográficos tendem a desconsiderar o combate ao tráfico humano como uma prioridade dos governos.

Shelley Lubben, ex-atriz pornô e fundadora da Pink Cross Foundation, instituição que oferece apoio emocional e financeiro à trabalhadores da indústria, revelou em um de seus testemunhos públicos que “Mulheres são atraídas, coagidas e forçadas a realizar atos sexuais que nunca concordaram em fazer[…] (dão) drogas e álcool para ajudá-las a passar por cenas hardcore“.

Vídeo da iniciativa Rescue Freedom sobre a ligação entre a pornografia e o tráfico humano.

Outro crime que tem relação direta com a indústria pornográfica é a pedofilia. Segundo dados do National Center for Missing and Exploited Children, 20% de toda a pornografia disponível na internet possui abuso sexual de menores. Além disso, é visível a constante infantilização das atrizes como forma de fetichização do corpo. O termo teen (adolescente em inglês), inclusive, é o mais pesquisados nos principais sites pornôs ao redor do mundo.

Além da violência, do tráfico e da pedofilia, o racismo é mais um crime que se faz presente no mercado pornográfico. Não demoraria muito para encontrar, em qualquer um dos principais sites pornôs, títulos que promovem estereótipos raciais ofensivos. O print abaixo, por exemplo, foi retirado do PornHub e sugere ao usuário termos de pesquisa como “adolescentes negras exploradas”, “mulheres negras” e “escravas negras”.

pornhub e a pornografia
Termos de pesquisa no PornHub. | Foto: PornHub.

Trata-se, portanto, da simples humilhação e degradação de pessoas negras em troca do lucro. Os prints a seguir denotam, mais uma vez, o racismo descarado da mesma plataforma, erotizando até a violência policial.

(Gatilho: Linguagem explícita)

“Patrulha negra — Policiais brancos perseguem e estupram um pai negro vagabundo”. | Foto: Print retirado da página Recuse a Clicar.

Em seu livro You Can’t Keep a Good Woman Down, a escritora e ativista americana Alice Walker aponta que “enquanto as mulheres brancas são retratadas como ‘objetos’ na pornografia, as mulheres negras são retratadas como animais”.

Essa frase se confirma ao observar o artigo Racismo na Pornografia, de Alice Mayall e Diana E.H. Russell. Após a análise de dezenas de revistas, vídeos, filmes, livros e outros documentos da indústria pornográfica, concluiu-se que os negros “são retratados através de uma variedade de estereótipos depreciativos — como animais, incapazes de autocontrole, sexualmente depravados, impulsivos, sujos e assim por diante.”.

“Ah, mas a atriz pornô só está lá porque quis!”

Esse é, provavelmente, o maior mito que envolve a pornografia. Considerar que todo indivíduo que trabalha na indústria teve a livre decisão de estar lá ou não, contribui para uma análise superficial dos reais motivos e dinâmicas complexas que levam uma pessoa ao mercado sexual.

Rachel Moran, uma sobrevivente da prostituição e do tráfico sexual, define bem essa pseudo-escolha: “Quando penso nas minhas escolhas, elas eram simplesmente estas: ter homens em cima e dentro de você, ou continuar sofrendo com a falta de moradia e a fome. […] Faça sua ‘escolha’.”.

Portanto, percebe-se que a “escolha” que leva alguém à pornografia é, na verdade, uma “falta de escolha”. A grande maioria das mulheres que entram nesse meio tem um passado de abusos sexuais na infância ou na adolescência, além de dificuldades financeiras, falta de estudo, trabalho, moradia e até do que comer.

Shelley Lubben, fundadora da Pink Cross Foundation, é um exemplo de um desses casos: “Eu era uma mãe solteira, então achei que poderia fazer sexo em frente às câmeras, que seria fácil. Mas foi completamente pior do que eu havia imaginado, foi a coisa mais sombria com a qual eu já me envolvi”.

Segundo uma pesquisa realizada em 9 países diferentes, 89% das pessoas envolvidas na prostituição querem desesperadamente sair do ramo. Na pornografia, evidentemente, o cenário não muda. Relatos, como o da ex-atriz Emily Eve, corroboram o horror e o desespero de quem se vê obrigada a trabalhar com a pornografia.

    (Gatilho: Linguagem explícita)

Eu consegui um trabalho com a produtora ‘Facial Abuse’. O diretor me disse que seria tudo tranquilo, que seria como sexo selvagem. Talvez me pedissem pra vomitar um pouco, mas que seria dinheiro fácil. Quando terminei de gravar, minha garganta estava sangrando, eu tinha hematomas por todo o corpo, minha vagina estava rasgada, e eu peguei conjuntivite (consequência comum de quando se ejacula nos olhos de alguém). Eu me sentia muito fraca, honestamente senti que havia sido estuprada de novo.

Relato Coletado pela página QG Feminista.

O outro lado da tela: os danos para quem consome a pornografia

Espero que, até aqui, com tantos dados e relatos, você já esteja incomodado com a pornografia e não precise descobrir que ela diminui o seu desempenho no sexo para parar de consumi-la. De qualquer maneira, aí vai: é cientificamente provado que assistir a pornô reduz o seu desempenho sexual.

Além de provocar disfunção erétil, o consumo de pornografia aumenta o risco de ejaculação precoce, diminui a concentração, a motivação e pode ser o estopim de doenças psicológicas, como a depressão e a ansiedade.

Como se não fosse o suficiente, uma pesquisa de neurocientistas na Université Laval, no Canadá, descobriu outra consequência para quem assiste à pornografia em excesso: a corrosão do córtex pré-frontal (disfunção conhecida como hipofrontalidade). Segundo a PhD em neurociência Rachel Anne Barr, essa região do cérebro contribui para a capacidade de aprendizado e a memória, por exemplo.

Visto que, após ser corroída, essa área volta a um estado semelhante ao que esteve no período da adolescência, a personalidade do indivíduo pode se “infantilizar”. Ou seja, haverá incapacidade de realizar decisões e lidar com suas emoções de maneira madura.

Todos esses aspectos, aliados ao fato de que a pornografia tem efeitos no cérebro semelhantes aos provocados pelas drogas — comprovado através de pesquisas do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Cambrige (Reino Unido) — , denotam a urgência dessa discussão e a iminente necessidade de boicotar e denunciar essa indústria.

Segundo a definição da jurista Catharine McKinnon, a pornografia é, em suma, exatamente o que ela faz: a subordinação de mulheres. Contribui, portanto, com a fomentação e o crescimento de um discurso opressivo, misógino e patriarcal.

Em um discurso proferido em 1987, o revolucionário Thomas Sankara fez a seguinte afirmação: “A prostituição é a quintessência de uma sociedade em que a exploração é a norma. Simboliza o desprezo do homem pela mulher. […] É, em suma, o desprezo inconsciente por nós mesmos. Só existem prostitutas onde existem ‘prostitutos’ e cafetões.”.

A lógica utilizada por Sankara é a mesma que deve ser aplicada na pornografia. Só existe pornografia onde existe a indústria e, acima de tudo, indivíduos que consomem esse conteúdo doentio.

Dessa maneira, esse é um daqueles casos em que a ação de apenas uma pessoa certamente não bastará para chegarmos a uma solução. Contudo, sem a ação individual de abandono da pornografia e do combate ao abuso e tráfico sexual, essa solução fica cada vez mais longe. Comece por você mesmo.

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Por Leonardo Suzuki – Fala! PUC

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