Opinião: Que papo é esse de cidadão de bem?
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Opinião: Que papo é esse de cidadão de bem?

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O termo “cidadão de bem” se popularizou nos últimos anos, mas o que quer dizer realmente?

Desde 2017, um grupo barulhento parece estar bastante em voga nas relações sociais do Brasil. Com um número expressivo de integrantes que se encontravam adormecidos e ofuscados, de acordo com os próprios, por conta de governos anteriores que pouco os agradavam, os “agentes do bem”, como alguns se denominam, representam uma organização informal de pessoas que busca manter, acima de tudo, os ideais conservadores, presentes nas sociedades mais rudimentares e assumidamente contrárias à evolução ou, não tão distante assim, em décadas passadas.

O grupo é baseado em alguns alicerces já estabelecidos, mas que, segundo eles, estão perdendo espaço e prestígio com as mudanças repentinas e nocivas à sociedade de um modo geral. Pode-se estabelecer, em uma pequena e rápida análise, que os “cidadãos de bem” brasileiros brigam, com unhas afiadas e dentes de predadores, por uma sociedade que ponha em um pedestal banhado a ouro a relação mútua religião, família tradicional, bons costumes, patriotismo e armamento – mas outros tópicos e conceitos dessas mesmas linhas tortas podem ser defendidos por esses conspiratórios.

cidadão de bem
Manifestação de brasileiros pró-Bolsonaro. | Foto: Rodrigo Lobo.

Cidadão de bem e valores do grupo

Antes de tudo, vale uma breve explicação acerca dessa relação que pode parecer ilógica e absurda pra quem cai de paraquedas próximo a uma ramificação do rebanho. A religião, que não pode ser outra além da cristã, uma vez que todas as demais existentes na face da terra fazem parte de uma seita pagã contra cristo, talvez interprete o papel de maior destaque nessa relação quíntupla. O cristianismo, protagonista nato, prega o amor entre todos na terra sob o argumento de que todos os seres vivos são, antes das diferenças, filhos de um mesmo pai que, por sua vez, ama todas as suas criaturas igualmente.

O primeiro indício de hipocrisia já começa a dar as caras e chamar a atenção. Como um grupo que faz parte de um dogma pregador do amor e da paixão pode ser o mesmo a idolatrar armas e patrocinar a violência? Pergunta que costuma martelar a cabeça pensante dos que não conseguem entender as diretrizes amarradas nos quase inexistentes neurônios da massa do “bem”. A hipocrisia parece duplicar de tamanho quando, implicitamente e em nome de Jesus, o grupo pratica, como hobby, a queima de templos de outras religiões, discriminação contra LGBTs e a extorsão contra integrantes da própria doutrina quando vendem, a preços exacerbados, curas divinas, sementes mágicas que matam o novo coronavírus ou até mesmo a vassoura do bem que varre o mal e o pecado da sua casa.

Pulando para o segundo, não necessariamente nessa ordem de importância, pilar do grupo dos ‘cidadãos de bem’, chega-se ao vasto reino do patriarcado estrutural. A família tradicional, para os membros, constitui a base da civilização que, sem ela, estaria fadada à extinção em pouquíssimos anos. É formada pelo homem alfa e viril (o pai), que deve desempenhar o papel de proteção e, nas horas vagas, xingar e ameaçar bater nos filhos e esposa, porém, no dia seguinte, colocar a culpa na bebida do fim de semana com amigos do barzinho da esquina que agem exatamente igual, pela mulher, frágil e delicada (a mãe), que recebe a função de cuidar dos filhos, cozinhar, lavar as cuecas do marido que fica livre das atividades domésticas e, sem pestanejar (caso contrário pode ser morta por ele), aceitar as traições que ele “sem querer” acaba cometendo.

Os filhos fazem o papel de propagadores desse sistema. São moldados para terem certos comportamentos a partir do que têm entre as pernas. No caso dos meninos, são criados para se comportarem como líderes de uma alcateia, esbanjarem força e coragem para serem uns verdadeiros ogros pouco educados e as meninas, por outro lado, para serem submissas aos homens e viverem financeiramente dependentes do seu futuro marido (que será escolhido pelo pai e abençoado em um casamento arranjado), uma vez que são impossibilitadas pelo sistema tradicional de trabalharem fora e terem uma renda própria.

Pronto, acabou de ser mostrada a face dos bons costumes, que nada mais são do que maldosos, retrógrados e maléficos transvestidos de belos e extremamente romantizados. Além disso, é de extrema importância que qualquer característica que fuja dessa constituição inicial de família seja rapidamente julgada e esfacelada (tudo, claro, em nome de Jesus).

Patriotismo e bolsonarismo

Subindo um pouco contra a correnteza do “cidadão de bem”, é possível observar o patriotismo e o bolsonarismo pulando, juntos e de mãos dadas, em um lago de desesperança e ignorância. A candidatura, em 2018, do agora presidente Jair Bolsonaro, que venceu as eleições pelo PSL, despertou o lado patriótico desse grupo de conservadores. Os integrantes são unânimes em seguir rituais que parecem passar frequentemente por uma “avaliação de patriotismo”, que decidirá se, de fato, o indivíduo está apto a seguir como um soldado nessa batalha pelo “bem da nação”.

Alguns desses rituais são considerados simples, outros nem tanto. Envolvem desde a exposição, perene ou temporária, de uma bandeira do Brasil no perfil das redes sociais dos guerrilheiros, como Instagram, Facebook e WhatsApp, e o compartilhamento em massa de notícias falsas e de cunho duvidoso a fim de encobrir as façanhas dos apadrinhados políticos, até a organização de protestos antidemocráticos e anticonstitucionais, com cada manifestante envolto em uma bandeira do Brasil e com uma camisa da seleção brasileira, no meio de uma pandemia mortal e na contramão de uma das principais medidas no combate ao vírus – o distanciamento social. Porém, essas batalhas as quais esses “batalhadores” são submetidos podem ser facilmente explicadas, visto que lutar contra uma ameaça comunista inexistente e incabível é extremamente doloroso e merecedor de algum título de honraria.

Amantes de um armamento pesado e amedrontador, o “cidadão de bem” adora se sentir em um cenário daqueles de faroeste. Quem curte e joga Red Dead Redemption, por exemplo, sabe bem como é viver uma aventura “bang-bang” (e talvez muitos desses apaixonados por gatilhos estejam alucinados com o mundo virtual que essa obra-prima da Rockstar proporciona). Sob o argumento uníssono de proteção e combate à insegurança diária, eles defendem, com sangue nos olhos, medidas de afrouxamento à política de desarmamento de 2003, que dificultou acesso, porte e posse de armas no território nacional.

Entretanto, em se tratando de “cidadão de bem”, é sempre bom estar atento às segundas intenções bastante implícitas. Em uma discussão no bar, batalha de revólveres; em um desentendimento no trânsito, intimidação com uma pistola; em uma discussão de relacionamento comum, arminha na direção da esposa. Enfim, as segundas intenções são as mais variadas possíveis, mas, sem dúvida, a queridinha é a de se sentir superior aos demais apenas por portar uma bela .38 na cintura (de preferência, à mostra, para que todos tenham ciência da sua periculosidade).

Esses foram os conceitos principais do conservadorismo do cidadão de bem, mas, como já ressaltado aqui, outras linhas ideológicas podem vir à tona. Na economia, o rebanho segue, à risca, os ideais do neoliberalismo, mesmo que isto se restrinja a compartilhar falas de influencers de direita adeptos à privatização em massa, estado mínimo e outras medidas que beiram o anarcocapitalismo. O que muito impressiona alguns sociólogos e estudiosos é o fato paradoxal de, apesar de elitistas e classistas, essas teorias ligadas ao liberalismo serem defendidas e difundidas pela maior parcela dos “cidadãos de bem”: pobres de classe média baixa.

A tal da consciência de classe, meio cabisbaixa e constrangida, passou no fundo da sala. Indivíduos dessa classe social, a esmagadora maioria da sociedade brasileira, que apoiam essas práticas econômicas fazem parte, analogicamente, do grupo de árvores que defendem o lenhador, das baratas e moscas que prezam pelo dedetizador ou do peixe que venera o pescador. Enfim, o cidadão de bem!

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Por Raul Holanda – Fala! UFPE

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