Opinião: Poison e a Transexualidade em 'Street Fighter'
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Opinião: Poison e a Transexualidade em ‘Street Fighter’

Opinião: Poison e a Transexualidade em ‘Street Fighter’

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Poison, originalmente do jogo eletrônico Final Fight (um jogo que se passa no mesmo universo de Street Fighter, com conteúdo extenso demais para ser considerado um spin-off) também conta com uma jogabilidade de plataforma, diferenciando-se de Street Fighter – que se trata de um jogo do gênero luta – foi introduzida como uma inimiga, aqueles típicos personagens que você precisa derrotar para passar de fase (estilo de jogo conhecido como beat-em-up) em Final Fight (1989). Porém, a ideia de agredir uma mulher cisgênero nessa época poderia ser mal vista pelo público e poderia acarretar em uma mancha na imagem da empresa desenvolvedora do jogo, a Capcom.

Poison
Personagem Poison. | Foto: Reprodução.

Poison e a Transexualidade

A solução foi simples, mas de péssimo gosto. Na descrição do jogo, a identidade de gênero de Poison foi definida como uma mulher transexual, o que gera uma questão: a partir do momento que uma mulher não é cisgênero, a violência é liberada? A apresentação de uma personagem dessa forma apenas ajuda a estigmatizar um problema social que, nos anos 90, era muito mais recorrente e marginalizado, além de desconsiderar a validade da transexualidade e fomentar a ideia de que “está tudo bem” agredir uma mulher se seu sexo biológico não corresponder à sua identidade de gênero.

O fato é ainda mais agravante quando se é pensando na sociedade brasileira, que lidera no ranking de homicídio de mulheres trans e travestis. Só em 2020, 175 pessoas foram assassinadas por crime de transfobia, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). 

E essa polêmica se perdura por mais de 30 anos, e a cada aparição da personagem em um novo jogo da série Street Fighter (a personagem migrou para Street Fighter x Tekken, em 2013 e, posteriormente, teve sua aparição em Street Fighter IV e V, respectivamente em 2015 e 2016, porém nesse último, Poison foi lançada como conteúdo adicional em 2019).

Nesse último jogo da série, Poison ainda é tratada com a identidade de gênero desconhecida. Em um estágio de combate conhecido como “Base da Shadaloo”, é possível interagir com o cenário arremessando o lutador contra um computador. Após realizar essa ação, o monitor mostrará as informações da personagem. Na imagem a seguir, há as informações quando Poison é arremessada:

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Onde deveria estar escrito o gênero de Poison, está escrito “unknown” (desconhecido). | Foto: Reprodução/Street Fighter V.

A importância do reconhecimento da identidade de gênero

A luta pelo reconhecimento da identidade gênero é muito antiga. Não podemos cair na falácia em que seu gênero é definido por uma simples genitália, os papéis desempenhados socialmente, tanto masculinos e femininos quanto não-binários, são uma descoberta pessoal e íntima. O reconhecimento de Poison como uma mulher, é também uma forma de representar a identidade de muitas mulheres trans que jogam Street Fighter ou que estão na comunidade gamer. A representatividade em jogos trata-se de colocar em foco um público crescente, além de ser uma maneira inteligente de alcançar pessoas que não se interessavam por esse estilo de jogo.

Outro ponto positivo que o reconhecimento de Poison como uma mulher pode trazer é a desconstrução da “cultura da trap”. Por muito tempo, “mulheres que na verdade eram homens” foram sexualizadas por mexer com o imaginário masculino, elas funcionam como uma espécie de “trollagem”, onde os garotos criam expectativas ou as desejam, mas depois descobrem que, na verdade, tratava-se de um homem. Esse tipo de citação é muito comum em todos os tipos de jogos e coloca a existência trans como um acessório da cultura cisgênero, onde, nessas narrativas, pessoas com identidade de gênero divergentes apenas existem para enganar alguém.

No mais, apesar do passado conturbado de Poison, a personagem é extremamente intrigante e carismática. A Capcom teria um grande acerto em reconhecer sua identidade e trazer em pauta sua história, gênero e imagem. E como diria Poison: “I’ll give you the show of a lifetime!”.

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Por Matheus Wilczek – Fala! Universidade Federal de Santa Maria

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