Opinião: O paraíso é logo ali
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Opinião: O paraíso é logo ali

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Duas situações vêm ganhando destaque no debate em torno dos efeitos nefastos do fundamentalismo religioso, mais especificamente cristão. Uma envolvendo um caso de intolerância religiosa, em Araçatuba, município do interior de São Paulo, e a outra através da incitação criminosa para que uma criança violentada tivesse o filho de seu estuprador, em São Mateus, Espírito Santo.

O que “une” esses dois casos? Além de serem crianças e do sexo feminino, ambas ficaram à mercê de um discurso odioso e proselitista. No dia 28/07, Kate Belintani perdeu a guarda de sua filha, em função da mesma ter passado por um ritual de iniciação no Candomblé. A denúncia teria sido feita por familiares que não aceitavam a religião, relatando que ela estaria sofrendo abuso sexual.

A menina foi retirada do barracão, e constatado através do exame de corpo de delito que não havia nenhum sinal de violência. Entretanto, o fato de ter os seus cabelos raspados, serviu como subterfúgio para que a guarda fosse transferida para a sua avó materna, que é evangélica, e teria feito uma das denúncias. O próprio Ministério Público concordou com a revogação da guarda provisória concedida à avó, além do fato da adolescente participar da religião por livre e espontânea vontade, o que foi levado em conta pelo juiz para devolver a guarda para a família.

Não é preciso dizer que toda essa patuscada legal nem deveria ter passado por uma instituição do estado, para início de conversa, porém, já que começou, era para ter acabado dentro do limite da lei. Um Conselho Tutelar não pode agir de acordo com suas convicções religiosas e morais, mas garantir o direito da criança e do adolescente, algo que não ocorreu.

Além de ignorar o que dispõe o inciso III, artigo 16 da lei 8.069, referente à liberdade que a adolescente possui para ter a sua crença, o respectivo servidor também cometeu o crime de  racismo e intolerância religiosa, previsto na lei 7.716. O conselheiro do município, por ser conhecido por ter um pensamento mais “conservador”, respondeu muito bem para o grupo a que serve, só que era o interesse público que deveria prevalecer, não o particular.

Refém de uma situação análoga estava uma criança de 10 anos grávida, em São Mateus, Espírito Santo. Vítima de abuso sexual desde os 6 anos, ela  tem o direito de realizar o aborto de forma legal, de acordo com o código penal de 1940. O que deveria trazer uma empatia social para essa menina que já está com o emocional destruído, acabou sendo usado por grupos religiosos para fazer uma defesa ignóbil e criminosa da vida.

Uma de suas porta vozes principais foi a ativista de extrema-direita, Sara Fernanda Giromini (Sara Winter), conhecida como defensora dos valores tradicionais, ex-feminista radical, e membro do grupo paramilitar 300 do Brasil. O papel de Sara foi de grande relevância para trazer coesão para os desocupados que compartilham dos mesmos valores fascistoides.

Mesmo com a autorização da justiça do Espírito Santo, a criança teve negado esse direito pelo Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes, que se recusou a fazer o procedimento, usando como justificativa que a idade gestacional não está amparada pela legislação, algo questionável na lei, principalmente porque o tempo de gestação é indiferente para autorização legal em casos de estupro.

Com essa situação, a família se viu obrigada a ir a outro estado para que a criança pudesse realizar o aborto seguro. Através de meios informais e ilícitos, a senhorita Winter divulgou o endereço do local em que o aborto seria realizado, o nome da criança, além de atacar o médico capacitado para realizar o procedimento, a quem chamou de “aborteiro”. Transgredindo o Eca (Art 17) a CF (Art 227) e CP (Art 286), a militante expôs a criança a uma situação vexatória e degradante.

Sendo chamada de assassina por fundamentalistas cristãos, entre estes estavam os deputados estaduais, Joel da Harpa (PP) e Clarissa Tércio (PSC). O médico que realizou o procedimento, Olímpio Moraes, que só conseguiu entrar na maternidade depois do apoio policial, demonstrou perplexidade com o que estava acontecendo na porta do hospital.

Eu mesmo fui impedido de entrar na maternidade. Quando cheguei, a deputada Clarissa Tércio, que eu nem conhecia, queria falar comigo. Ela estava até calma, tranquila, mas o problema são as pessoas em torno. Fizeram um cordão de isolamento na entrada da maternidade e quando acabei de explicar o que estava acontecendo não me deixaram entrar. Com palavra de ordem, de assassino, e outras palavras mais. Eu não consegui entrar, só quando chegou a viatura policial.

Olímpio Moraes.

Nós trabalhamos atendendo a população pernambucana e nordestina há mais de 20 anos e nunca presenciei isso. Eu acho que o ódio, a intolerância estão sendo impulsionados nesse momento que estamos vivendo de negacionismo, de fundamentalismo religioso.

Olímpio Moraes.

Mesmo com todos esses impropérios, o aborto foi feito de forma legal e segura. Nada mais justo em uma sociedade democrática do que ser tratado com dignidade. Consegui entender, Matheus, mas qual a relação entre os dois casos? Toda, duas crianças que tiveram seus direitos atacados por grupos fundamentalistas religiosos, adeptos de uma teocracia facínora, e que tiveram sua formação prejudicada por cidadãos de “bem”. Separar mãe e filha por intolerância religiosa, e chamar uma criança que foi violentada de assassina é o mundo dos sonhos para os nossos teocratas tropicais.

paraíso infernal
O paraíso pode parecer o inferno. | Foto: Reprodução.

É, meus caros, o paraíso é logo ali. Tem sabor de inferno, cheiro de inferno e parece o inferno, mas quem vai dizer que os cristãos estão errados?

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Por Matheus Alves – Fala! Colégio Pedro II – Graduação


Para esta matéria foi requerido um DIREITO DE RESPOSTA, publicado no dia 07/10/2020 no link a seguir: http://falauniversidades.com.br/direito-de-resposta/

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