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Opinião: A visão universitária por trás do arrependimento de Holiday

Opinião: A visão universitária por trás do arrependimento de Holiday

Por Glaucia Galmacci – Fala! Cásper

O vereador do município de São Paulo Fernando Hoiday, adepto do movimento “Escola Sem Partido”, assume que a licenciatura o fez mudar de ideia a respeito do projeto.

Negro, homossexual e uma nova figura do conservadorismo brasileiro, o coordenador do Movimento Brasil Livre (MBL) e político (DEM-SP), Fernando Holiday, já se viu envolvido em diversas polêmicas. Ainda que, ao se auto avaliar, afirma que numa escala de 0 a 10 da direita, se vê no 6,5, é um defensor das ideias conservadoras. Uma das principais controvérsias ligadas ao seu nome foi a declaração de apoio ao movimento Escola Sem Partido.

O vereador, por diversas vezes, foi a público manifestar seu apoio ao movimento: “Estamos discutindo sobre aqueles que se aproveitam da atenção cativa dos seus alunos, independentemente da idade, para tentar enfiar goela abaixo dos alunos e das famílias as suas ideias degeneradas”, apontou Holiday em um debate sobre o grupo em 2017. No mesmo ano, também foi responsável por promover uma blitz em escolas públicas, alegando estar verificando casos de ‘doutrinação ideológica’.

Em um vídeo publicado na sua página oficial do Facebook, o vereador chegou a destacar: “Estamos indo fiscalizar a estrutura das escolas para ver se está tudo em ordem, mas também o conteúdo que é dado em sala de aula, se está havendo algum tipo de doutrinação ideológica, se os professores estão dando aquilo que realmente deveriam dar ou se têm professores entrando lá com camiseta do PT (Partido dos Trabalhadores), do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Por enquanto nas escolas que fui isso não está acontecendo”. O caso gerou reação na Câmara e dentro do sindicato dos professores.

Fernando Holiday em ato do MBL.
Foto: Danilo Verpa/Folhapress

O que é o movimento Escola Sem Partido?

O movimento “Escola Sem Partido” foi fundado em 2004 pelo advogado Miguel Nagib com o objetivo de promover o apartidarismo e a neutralidade política dos professores nas salas de aula brasileiras. Mas foi apenas em 2015 que começou a levantar polêmicas, desde que câmaras municipais, assembleias legislativas e o Congresso Nacional começaram a debater projetos de lei inspirados no objetivo do movimento.

Este surge a partir de um site no qual o grupo responsável alega defender os pais e alunos. Diz também se preocupar “com o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras”, e afirma que “um exército organizado de militantes travestidos de professores prevalece-se da liberdade de cátedra e da cortina de segredo das salas de aula para impingir-lhes a sua própria visão de mundo”. A partir desse movimento, surgem projetos de lei inspirados nas ideias defendidas pelo grupo.

Os apoiadores do Escola Sem Partido alegam que pretendem acabar com uma suposta doutrinação dos professores dentro das escolas. Mas muitos se opõem e dizem que o movimento quer censurar e intimidar os professores. O projeto determina que em todas as salas de ensino fundamental e médio, além da sala dos professores, tenham um cartaz que definam os deveres do professor. Além de estabelecer que este não pode contrariar as percepções morais e religiosas dos pais dos alunos.

              O novo posicionamento de Fernando Holiday

Em abril de 2019, em entrevista para o jornal Folha de S. Paulo, Holiday afirmou que amadureceu. Ele assume que sua imagem foi marcada pelo apoio ao programa e as polêmicas recorrentes. Contudo, o vereador paulistano declarou que a forma como defendia o projeto estava absolutamente errada.

Fernando Holiday chegou a ingressar na faculdade de Direito, mas desistiu e, atualmente, cursa licenciatura em História. “Sempre admirei a profissão do professor (…) esse desejo me fez desistir do direito e ir para a licenciatura. Inclusive penso em me especializar em pedagogia”, declarou ele.

É a partir do ingresso na licenciatura que podemos analisar a visão universitária por trás da mudança de ideia de Holiday. Ao ser perguntado sobre a transformação de sua perspectiva a respeito do programa Escola Sem Partido e se isto estava atrelado à licenciatura, a resposta é sim. “Ficou estigmatizado como um projeto que vê o professor como inimigo”, ele relata.

Ao afirmar que ponderou a respeito de seu posicionamento, Fernando Holiday aponta que não se deve transformar o professor em um problema da educação. Agora baseado em uma visão de aluno e futuro docente. Além disso, afirmou a existência de uma “comunicação errada” produzida pela direita.

A doutrinação na visão da direita conservadora

Holiday afirma que, apesar de ter vivido uma experiência no passado relacionada a opressão dentro de sala de aula, não é dessa forma que ele enxerga a profissão dos pedagogos. Quando perguntado sobre quem é essa direita que vê a maioria como doutrinadora, ele aponta como exemplo a deputada Bia Kicis (PSL-DF), responsável pela implantação do projeto Escola Sem Partido na câmara, no qual prevê a gravação dos professores dentro de sala de aula para fiscalização dos mesmos. Além do próprio idealizador do projeto, Miguel Nagib e a “direita bolsonarista”.

Ele assume que dentro do próprio Movimento Brasil Livre existem divergências de opiniões. “Muitos dizem que a filmagem seria uma forma de se proteger. Eu discordo”. Cita também a relação de alguns de seus companheiros dentro do movimento com o atual governo, como por exemplo o do deputado Kim Kataguiri com o ministro da Economia, Paulo Guedes. Mas que, em geral, todo o resto não possui uma relação estreita com a presente administração.

Por diversas vezes, já declarou sua oposição ao governo Bolsonaro. Ele assume que, desde a homenagem de Jair Bolsonaro ao Coronel Brilhante Ustra durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 2016, o MBL vem tentando se distanciar desse governo.

O futuro do projeto: “Contra o Escola Sem Partido tomar partido da escola!”

Manifestantes contrários à aprovação do projeto da Escola sem Partido protestam no plenário da comissão da Câmara que analisa o tema.

Desde o surgimento da visibilidade do programa e das polêmicas em torno dele, diversos pedagogos e militantes se posicionaram contra a chamada “Lei da Mordaça”. Alegando opressão ao professor dentro de sala de aula, especialistas alegam que o movimento quer reescrever a história da ditadura.

Recentemente, nesta segunda-feira (22), entidades de educadores do Paraná foram até o STF protestar contra a lei do Escola Sem Partido alegando violação da liberdade de expressão que impede a autonomia do professor para poder lecionar os conteúdos definidos nas normas nacionais e locais.

Segundo o coordenador Geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, não se pode existir “tribunais pedagógicos, ideológicos e morais” dentro das escolas, como prevê o projeto. “O professor tem que ter a liberdade de poder ensinar aquilo que ele tem de melhor, aquilo que vai garantir que os alunos sejam pessoas plenas’’.

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