Opinião - Eleições 2020: Abismo entre homens e mulheres na política
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Opinião – Eleições 2020: Abismo entre homens e mulheres na política

Opinião – Eleições 2020: Abismo entre homens e mulheres na política

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O maior ato democrático que um cidadão, seja ele de qualquer lugar do país, pode executar e fazer ecoar sua voz na luta por uma sociedade mais equânime e civilmente respeitosa é ir às urnas e, ciente das propostas e intenções dos seus candidatos, despejar um voto precioso e fundamental naqueles que podem representar o povo por quatro anos ou mais.

Em 2020, os brasileiros tiveram que encarar uma crise sanitária para votar, uma vez que a pandemia do novo coronavírus ainda perturba a população e os órgãos de saúde. Entretanto, se engana quem acha que o vírus era o único problema a ser enfrentado nessas eleições.

A discrepância nas representações políticas ainda é bastante preocupante considerando que a imensa maioria dos vencedores, sejam eleitos para iniciar um trabalho ou reeleitos para prosseguir por mais quatro anos, são homens.

Para dar um pontapé na discussão trazendo dados e estatísticas que reafirmam essa desigualdade, é importante frisar que, das 25 capitais do país (retirando Brasília, que não possui eleição municipal, e Macapá, ainda sofrendo consequências do estrondoso apagão iniciado em 3 de novembro), apenas uma acabou elegendo uma mulher para o cargo de chefe do executivo do município. Em muitas delas, não foi possível, nem mesmo, observar uma representante feminina no segundo turno.

Segundo o site oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), órgão que coordena, administra e monitora as eleições em nível nacional, cerca de 84,2% dos candidatos eleitos para os cargos de vereador e prefeito são homens e apenas 15,8% são mulheres. Embora seja inegável a pequena, porém importante, diminuição dessa diferença de gênero em comparação com as eleições municipais anteriores (2016), onde o quantitativo de homens eleitos chegou a quase 87%, é perceptível que, em um país onde a maioria da população é feminina, o caminho a percorrer para estabelecer um equilíbrio entre políticos masculinos e femininos ainda é muito longo e tomado por barreiras.

Confira, abaixo, alguns exemplos de capitais onde mulheres chegaram perto de conquistar a maioria dos votos e se tornarem representantes por quatro anos:

eleições
Mulheres lutam por mais espaço na política. | Foto: Reprodução.

Eleições 2020: representatividade feminina na política

Porto Alegre, Rio Grande do Sul

As eleições municipais na capital gaúcha contaram com as candidaturas de 3 mulheres à prefeitura. No primeiro turno, Fernanda Melchionna, do PSOL, obteve apenas 27.994 votos, o equivalente a 4,3% dos válidos, e Juliana Brizola, do PDT, conseguiu 41.407, ou 6,4%. Elas ficaram consideravelmente longe de qualquer possibilidade de segundo turno, ficando atrás do atual prefeito, Nelson Marchezan Júnior, que também saiu da disputa mais cedo e eliminou qualquer chance de reeleição.

Porto Alegre foi uma das poucas capitais brasileiras que tiveram mulheres no segundo turno. Manuela d’Ávila, do PC do B, gaúcha da capital, estabeleceu, como objetivo inicial da campanha, a chegada ao segundo turno e a difícil virada de votos contra Sebastião Melo, então favorito à vitória. Manuela atingiu a sua primeira meta e foi ao segundo turno, mas não conseguiu ultrapassar Sebastião, ficando com cerca de 63 mil votos a menos que o vencedor do MDB.

Assumidamente de esquerda, Manu, como é carinhosamente chamada pelos seus eleitores, sofreu ao longo de toda a sua campanha com diversas notícias falsas (fake news) contra ela, disparadas pelos seus adversários. Em algumas dessas informações precipitadas, foi disseminado que Manu, caso eleita, fecharia totalmente o comércio da capital devido à pandemia, pararia obras importantes da área de lazer e cultura, legalizaria todas as drogas e tantas outras atrocidades associadas à sua imagem. A candidata teve que, por diversas vezes, vir a público para negar as acusações e alertar a população eleitoral sobre a veracidade das informações que circulavam na corrida pela prefeitura.

Diversos debates, então, foram iniciados, tanto no Rio Grande do Sul quanto na mídia nacional, para entender por quais motivos os adversários escolheram espalhar falsidades nas eleições para tentar derrotar a crescente Manuela d’Ávila. Algumas conclusões tomadas indicaram que o medo da rejeição e da derrota foram predominantes.

Após o resultado das urnas e a evidente derrota, Manuela se pronunciou, em suas redes sociais oficiais, agradecendo a todos que depositaram nela o seu voto. “Foi uma linda caminhada, ouvimos pessoas de todos os cantos da cidade, nos reunimos com diversas entidades, associações, sindicatos, empresários, pessoas do povo, das comunidades, e construímos um projeto consistente para mudar Porto Alegre”, publicou.

Ao fim, a importante e expressiva capital gaúcha será, novamente, comandada por uma figura masculina.

Recife, Pernambuco

Assim como Porto Alegre, a capital pernambucana também teve 3 candidatas à prefeitura. Cláudia Ribeiro, do PSTU, foi a que menos recebeu votos (menos de 2 mil, ou 0,1% dos votos válidos), e a Delegada Patrícia, do PODEMOS, mergulhada em uma polêmica no meio de sua campanha, que se deu após a revelação de algumas postagens da postulante, em 2011, onde ela se direciona à cidade do Recife como “Recífilis” e chama a população de “feia”, obteve 14,06% dos votos e não foi ao segundo turno.

A terceira candidata, Marília Arraes, do polêmico PT, neta do ex-prefeito do Recife e ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, se consolidou como a principal adversária do forte candidato João Campos, do PSB, filho do ex-governador Eduardo Campos, morto em 2014, após a queda da aeronave na qual ele se dirigia a São Paulo e durante a campanha presidencial daquele ano.

Marília e João, que são primos, foram ao segundo turno e protagonizaram uma disputa acirradíssima. A candidata do PT acabou saindo derrotada das eleições, conquistando 43,73% dos votos válidos da capital.

“Agradeço aos 148.126 recifenses”, publicou em suas redes sociais durante uma entrevista, logo após o resultado oficial, fazendo alusão à quantidade de recifenses que votaram nela. “Esse é o início de uma longa caminhada! Fizemos uma campanha limpa e linda. Agora começa um novo projeto de oposição em Pernambuco e no Brasil!”, encerrou.

Em um dos principais pontos da campanha, estão as diversas denúncias feitas contra o vencedor, João Campos. O candidato do PSB esteve diretamente envolvido em esquemas de compra de votos, principalmente na periferia e nos dias que antecederam as eleições, direcionou inúmeras fake news contra a candidata do PT, alegando que esta estaria ligada a grandiosos casos de corrupção e manipulação e publicou áudios nos quais o Deputado Federal Túlio Gadêlha revela que Marília sugere um esquema de “rachadinha” na sua campanha para a prefeitura. O Deputado, por sua vez, negou as acusações feitas em seu nome.

A similaridade das eleições do Recife com as de Porto Alegre, citadas aqui, apenas expõe a problemática em divulgar notícias sem comprovação ou de forma precipitada a fim enfraquecer e prejudicar a campanha de mulheres que poderiam assumir prefeituras e quebrar longos períodos de poder de um determinado partido, como o caso do PSB, no Recife, que atingirá 12 anos ininterruptos, com o mandato do prefeito eleito João Campos, e 16 caso ele tente e consiga se reeleger daqui a 4 anos.

Aracaju, Sergipe

Ainda no Nordeste brasileiro, a capital sergipana apresentou, assim como os dois exemplos citados, 3 candidatas à prefeitura. Dessas, apenas uma, a Delegada Danielle, do Cidadania, conseguiu ir ao segundo turno contra o atual prefeito tentando a reeleição, Edvaldo Nogueira, do PDT.

No primeiro turno, a delegada computou 55.973 votos (21,31% dos votos) e o atual prefeito, 119.681 (45,57%, por menos de 5% Edvaldo não sacramentava a vitória ainda no primeiro turno). Dois domingos depois, Edvaldo conquistou a reeleição com uma ampla vantagem, recebendo mais de 150 mil votos, quase 41 mil de diferença para a adversária que tentava chegar à prefeitura de Aracaju pela primeira vez.

“Gratidão, Aracaju! Que caminhada linda que fizemos! Foram mais de 100 mil votos!”, publicou, nas redes sociais, para todos os aracajuanos que deram um voto de confiança a ela.

Seguindo os exemplos de Porto Alegre, Recife e Aracaju, Rio Branco, no Acre, e Porto Velho, em Rondônia, foram mais algumas capitais que tiveram mulheres no segundo turno, mas acabaram derrotadas. Fortaleza, no Ceará, com Luizianne Lins, e Rio de Janeiro, com Benedita da Silva, não receberam a quantidade de votos que desejavam e saíram no primeiro turno.

A única das capitais brasileiras que elegeu uma mulher para o maior cargo municipal foi Palmas, em Tocantins. Cinthia Ribeiro, do PSDB, venceu com cerca de 36% dos votos em uma eleição única, uma vez que a capital tocantinense não possui a quantidade mínima de eleitores para um possível segundo turno.

Difamação e desrespeito nas eleições

 As barreiras enfrentadas por mulheres no campo político não se resumem a derrotas nas urnas e ataques diretos dos adversários durante a campanha. Não bastando, diversas candidatas tiveram que driblar frequentes ameaças, xingamentos e estereótipos nas redes sociais.

Segundo o instituto AzMina, especializado na luta contra o machismo e por uma melhor qualidade de vida feminina, assim como conquistas de espaços nos mais variados campos sociais e políticos, Manuela d’Ávila foi a candidata que mais sofreu ataques e teve comentários ofensivos destinados à sua pessoa nessas eleições municipais. Do total, cerca de 50,82% dos comentários envolvendo a candidata foram ofensivos e difamatórios.

A lista prossegue com Paula Mascarenhas, em Pelotas (RS), Loreny, em Taubaté (SP), Danielle Garcia, já citada anteriormente, Luiza Erundina, vice-prefeita do candidato Guilherme Boulos, em São Paulo, e Marília Arraes, também já mencionada. Das pífias palavras disparadas contra essas candidatas, “comunistinha”, “ladra”, “abortista”, “hipócrita” e “mentirosa” foram as campeãs e acabaram escancarando uma política pautada na emoção e na polarização, cada vez mais forte desde a eleição presidencial de 2018.

O Brasil ainda tem muito o que percorrer para se tornar um país desenvolvido e fortemente democrático. E uma das formas de fortalecer os laços políticos é abrir mais espaços para mulheres em cargos considerados grandes e de alta responsabilidade, debater sobre o tema, sem tabus, e analisar novas propostas centradas nas demandas femininas, isto é, ouvir e dar prioridade a quem, de fato, passou ou passa por situações de desigualdade de gênero.

As tristes eleições de 2020, em se tratando de representações de mulheres nas câmaras e prefeituras do país, apenas corroboram com uma realidade desequilibrada e desestruturada por séculos para apoiar e somente considerar protagonistas masculinos. A tendência é de melhora, como, quem sabe, uma vitória majoritariamente feminina nas eleições de 2022, para presidente, senador(a), governador(a), deputado(a) federal e estadual, ou em 2024, nas próximas eleições municipais.

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Por Raul Holanda – Fala! UFPE

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