Opinião: como o modelo digital de educação afetou as crianças?
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Opinião: como o modelo digital de educação afetou as crianças?

Opinião: como o modelo digital de educação afetou as crianças?

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No dia 28 de abril, foi comemorado o Dia Internacional da Educação e, após mais de um ano de pandemia de Covid-19, fica o questionamento: como temos avançado em termos de educação?

Segundo a lei 9394/96, “A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais”. Ou seja, educar não é simplesmente inserir uma criança, um jovem ou adulto na escola e delegar o papel de ensinar e aprender a terceiros. Educação é um processo contínuo de formação pessoal e profissional. 

Educação e pandemia da Covid-19

É inegável que o mundo digital veio para ficar. Não há mais volta. O modelo digital está presente em todos os aspectos da vida humana, incluindo a educação, que está imersa em plataformas, aplicativos, vídeos, apostilas em PDF. As crianças estão imersas em tecnologia desde os primeiros momentos de vida e continuarão até o final de sua existência na fase adulta. 

A pandemia de Covid-19, no final de 2019 e início de 2020, apenas acelerou alguns processos para o digital e acentuou o debate sobre diversas temáticas, entre eles a educação.

A Covid-19 levou o mundo inteiro a adotar medidas de restrição, circulação e convivência. Entre as medidas estão: lockdown (ou fechamento), impulsão do EAD, restrição da prestação de serviços físicos e adoção de serviços digitais para compras, entregas e vendas. 

Neste artigo, vamos destacar a impulsão do EAD, em especial para o público infantil.

educação
Educação on-line infantil. | Foto: Reprodução.

Educação digital para crianças

Antes de começarmos a falar sobre o tema, precisamos definir a palavra “criança”. Vamos utilizar como base a lei 8069/90, mais conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que define criança como sendo “a pessoa até doze anos de idade incompletos”. Outras definições abordam que criança é um ser humano em desenvolvimento e que ainda não atingiu a fase adulta. Eu gosto ainda desta definição que afirma que criança é o ser humano que não atingiu a maioridade civil, que possui restrições de direitos e que seja dependente financeira, econômica e emocionalmente de adultos, sejam eles pais ou tutores responsáveis. Todas estas definições serão usadas como base para este artigo.

A ideia do artigo é falar sobre o modelo de educação digital e como ele afeta as crianças. Será que este modelo está afetando apenas as crianças? Ou seriam os pais  igualmente afetados? E quem sabe se os pais não seriam os maiores afetados? 

Ao conversar com alguns pais e analisando pesquisas, conclui-se que os os principais afetados pelo modelo digital de educação são os pais e professores. As crianças, por sua vez, foram “penalizadas” com a necessidade do estudo em casa através de plataformas digitais, que é diferente do modelo Homeschooling, que tem sido de amplo debate no Brasil.

Minha esposa tem um primo de 10 anos que, como as demais crianças, teve de ser inserido no modelo digital de educação devido à pandemia. Certa vez, ela foi ajudar o primo com uma de suas aulas e o que ela percebeu foi:

  • Aula desinteressante – problema de metodologia
  • Plataforma de difícil acesso
  • Falta de atenção e concentração dos alunos
  • Dificuldades com a internet
  • Dificuldades em acompanhar o conteúdo e a aula ministrada
  • Necessidade constante de acompanhamento e monitoramento dos pais

Em 1 ano neste modelo, infelizmente, o primo dela acabou (de certo modo) regredindo em seus aprendizados. Conversei com muitos alunos e pais que relataram os mesmos problemas. 

O ano perdido

2020 foi um ano perdido para muitas crianças em termo de ensino. Poucas eram as famílias preparadas para encarar de frente uma pandemia. Uma das mães com quem eu conversei chegou a relatar que teve de tirar a filha da escola uma vez que, além de pagar o valor normal da escola, percebeu que a filha não conseguia reter o conteúdo. Uma das causas: a facilidade de trocar de tela. Sim, no digital, você troca de tela tão rápido quanto o piscar de olhos. Eu dei aula a um grupo de adolescentes e uma das mães veio conversar comigo que o filho dela não estava retendo o assunto. Ela chegou a me mostrar o caderno dele todo em branco. Ele participava das aulas, mas a tela principal não era a minha tela.

Outro grave problema da educação digital foi a necessidade de acompanhamento dos pais. Os pais que não acompanharam de perto seus filhos relataram muita frustração e decepção. Já os pais que acompanharam de perto os filhos, relataram maior cansaço e problemas relacionados à dor de cabeça e enxaqueca, vista cansada e dificuldades em organizar uma rotina capaz de conciliar os estudos, trabalhos domésticos e outras atividades.

Em resumo, podemos considerar 2020 (e agora 2021) como ano perdido para educação de crianças.

Outros estudos apontaram índices de evasão escolar elevados. De acordo com o site Rede Brasil Atual, o número de alunos, entre 6 e 34 anos, que evadiram a escola em 2020 chega a casa dos 4 milhões. É um número extremamente alto. Sem dúvidas, a necessidade de estudar de forma on-line foi um dos grandes impulsionadores.

Ontem estava assistindo ao jornal, que relatou que destes 4 milhões, quase todos tiveram de evadir devido às dificuldades de acesso à internet e às dificuldades de atenção dos alunos. 

O modelo EAD

O modelo de Educação a Distância (EAD) é um modelo teoricamente “universal” de educação. Digo “teoricamente”, uma vez que não é possível afirmar que exista um modelo universal de educação que possa alcançar todos os públicos. Como disse no parágrafo anterior, boa parte dos alunos que evadiram a escola o fizeram devido às dificuldades com a internet.

Antigamente, o EAD era por meio das fitas cassetes gravadas e enviadas via Correios a quem as adquiria, o famoso telecurso, entre outros, funcionava dessa forma. Hoje, a expansão da internet e a facilidade do acesso a aparelhos celulares, têm revolucionado e impulsionado este modelo. Ele está presente em todos os níveis de escolaridade e em vários cursos de graduação e pós-graduação. Há ainda um amplo debate sobre o tema em relação a alguns cursos, mas o fato é: o EAD veio para ficar.

Ademais, ele ajuda a cumprir com as diretrizes da Constituição Federal, facilitando e permitindo o acesso à educação. Sabe-se que é uma jornada que ainda está sendo trilhada, mas o modelo, com toda certeza, tem sido fundamental.

Vantagens e desvantagens

Como todo modelo imerso em tecnologia, o EAD apresenta suas vantagens e desvantagens. Vamos começar falando sobre as desvantagens do modelo:

  • Aula desinteressante – problema de metodologia que é diferente do modelo tradicional;
  • Dificuldade de acesso às plataformas de cada instituição de ensino;
  • Falta de atenção e concentração dos alunos;
  • Dificuldades de acesso à internet, sobretudo nos municípios mais interioranos;
  • Necessidade constante de acompanhamento e monitoramento dos pais (tratando dos pais de crianças e adolescentes).

Agora vamos apresentar algumas vantagens:

  • Possibilidade de acesso às aulas no momento em que for mais conveniente ao aluno;
  • Economia de tempo em termos logísticas;
  • Menores custos para o aluno;
  • Certificados de igual valor ao presencial.

Agora, compete a você escolher se o EAD é ou não o melhor modelo para você.

Perspectivas para o futuro

Diante desse cenário precisamos fazer as seguintes perguntas: como será a educação do futuro? Quais as perspectivas do futuro?

Você já ouviu falar da DNA Class? Ou da Finclass? Ou ainda da LearningFlix? Eu, particularmente, creio que o futuro da educação digital estará cada fundamentada nesses modelos de educação remota, digital e baixo custo. Talvez não na formação básica, mas na formação avançada.

Outro pilar que eu acredito é que as corporações de ensino precisam aprender com o YouTube. O modelo de aulas disponibilizado na plataforma é bastante atrativo. Lógico, não podemos generalizar, mas ao assistir aos “tops” você consegue perceber padrões que os tornaram grandes.

Por fim, quem aprender sobre marketing digital, SEO, edição de vídeos e copywriting terá vantagem nesse novo cenário. 

E as crianças? O que podemos esperar?

Em minha concepção, as crianças continuarão a ser as mais afetadas por este modelo de educação. Os resultados (ainda) não temos como medir. O que podemos afirmar até aqui?

  • Enquanto não houver uma universalização de acesso à internet, a educação continuará perdida;
  • Enquanto não houver uma universalização de acesso à internet, continuaremos a ter disparidades social, econômica e financeira.

E o que podemos fazer para melhorar?

  • Universalizar o acesso à internet;
  • Capacitar professores e pais para uso das plataformas;
  • Criar mecanismos de controle.

Em resumo, esse modelo não tem sido bem aceito pelos pais, pela sociedade e pelos alunos. 

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Por Paulo Machado – Fala! Universidade Federal do Amazonas

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