Opinião: Além da pele e dos padrões
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Opinião: Além da pele e dos padrões

Opinião: Além da pele e dos padrões

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Em uma sociedade que por muito tempo foi submersa em um único tipo de padrão de beleza, nascem as mulheres livres, com coragem de fazer a diferença e desmistificar todos esses padrões.

A liberdade de sermos quem nós somos ainda acarreta muitas dificuldades, mas a representatividade vem ganhando muito mais espaço, seja em televisão, na Internet, em cartazes nas ruas, grandes líderes, empreendedores e empreendedoras. As pessoas reais estão aparecendo e mudando a história de muitas crianças, que estão criando sua autoimagem com alguém como elas.

Além da pele e dos padrões

Sendo assim, conhecemos a Barbarhat Sueyassu, modelo e psicóloga, de 25 anos, que nasceu na cidade de Apucarana, no Paraná. Ela tem vitiligo e hoje faz campanhas para diversas marcas e defende sua causa nas redes sociais. 

O vitiligo é uma doença de pele que está relacionada com a produção de melanina do corpo, além disso, ele possui vários tipos que se manifestam de intensidade e maneiras diferentes. Há um tempo, não se tinha tanta informação quanto temos hoje. Não era visto em nenhum lugar, modelos e figuras públicas com vitiligo, ou qualquer outra condição de pele.

Barbarhat descobriu com quatro anos de idade, sua mãe a levou em um dermatologista de sua cidade, mesmo não realizando o exame de biópsia, ela foi diagnosticada com vitiligo. 

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Barbarhat Sueyassu. | Foto: Reprodução Instagram (@barbarhat).

Para o tratamento, o uso de pomadas e banho de sol eram frequentes, já que o sol ajudava na volta de melanina, porém, como dito antes, há 21 anos não existia tanta  informação e, depois de um tempo, ela foi entender que o tipo do seu vitiligo era o universal, o qual se manifesta em mais de 50% do corpo.

Sua infância foi muito feliz e com muitas pessoas ao seu lado. Aos quinze anos de idade, nossa personagem teve uma revelação. Ela fez uma viagem para visitar seus parentes no Rio Grande do Sul, chegando lá, descobriu que seu tio avô tinha vitiligo, ninguém nunca tinha tocado no assunto, e assim como ela nos contou, muita coisa teria sido diferente, mas não no sentido de ela se aceitar. Um ponto muito importante da história de Barbarhat é que ela sempre agiu com muita naturalidade em relação a sua pele, ela não achava que era feio ou algo que a prejudicava.                

Lidando com o bullying

Contudo, Barbarhat sofreu bullying de alguns meninos de sua escola. Por conta de suas manchinhas, eles a chamavam por vários nomes de animais: “Dálmata”, “Onça”, “Zebra”. A menina voltava para casa chorando e vários questionamentos vinham em sua mente: “Por que eu sou desse jeito?”, “Será que um dia eu serei ‘normal’”? Mas o que a decepcionava era a forma como eles se referiam a ela. Tudo isso reflete como a empatia deve ser trabalhada desde a infância, a forma como as crianças devem lidar com as diferenças e seu olhar perante o outro. 

Um fator que contribui para o seu desenvolvimento e o como ela lidava com o bullying foi que, aos seis anos de idade, sua mãe a levou para fazer terapia. Além disso, o apoio de sua família foi essencial nessa trajetória. Com o tempo, ela passou a não ligar mais para a forma que as crianças olhavam para ela. Assim, Barbarhat recebeu alta da terapia e os encontros passaram a ser mais espaçados e sua relação com o vitiligo estava ainda mais natural.

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Modelo inspira outras mulheres a serem quem realmente são. | Foto: Reprodução Instagram (@barbarhat).

Representatividade

Desde 2018, Barbarhat é formada em Psicologia, uma das ciências que estuda o papel da representatividade na vida das pessoas e das crianças. Assim como dito antes, nessa trajetória, a representatividade é responsável pelo desenvolvimento da nossa identidade, com ela entendemos que existem pessoas como nós no mundo, com as suas diferenças e peculiaridades.

Sua entrada no mundo da moda tem uma força única, a nossa entrevistada, como pessoa com vitiligo, nunca teve uma figura pública que a representasse. Ela começou com produções em sua cidade, o seu primeiro trabalho foi para uma loja de joias de madeira e, assim, mais pessoas ficaram sabendo do seu trabalho, inclusive a marca de beleza e cuidados pessoais, Natura. 

Uma agência fez contato com a modelo, Barbarhat enviou o material para aprovação, o perfil era condizente com o que eles queriam e ela entrou para o squad da Natura. O trabalho foi responsável por abrir várias portas para ela, e também mais pessoas começaram a se inspirar e entrar no mundo da moda também.

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Barbarhat expõe vitiligo e inspira mulheres. | Foto: Reprodução Instagram (@manuellatomaz).

Não basta só se aceitar no dia a dia, a gente tem que estar na mídia, estar nos olhos das pessoas, porque só sendo enxergado a gente consegue conscientizar cada vez mais.

Com mais de 68 mil seguidores no Instagram, Barbarhat faz diversos posts relacionados à quebra de padrões e conscientização do vitiligo. Além disso, ela é ativista no movimento Skin Positivity, o qual incentiva a aceitação das características naturais da pele, como, por exemplo: vitiligo, manchas, pintas, estrias, dermatites, linhas de expressão e entre outras. Esse movimento é recente, porém, possui uma grande importância no processo de autoaceitação das pessoas. De mesma forma, é algo que precisa ter visibilidade. 

A modelo realizou um vídeo com meninas com diferentes condições de pele, ele teve mais de 12 milhões de visualizações no Facebook. Como ela mesma comentou, cada vez mais, as pessoas precisam entender que elas são pessoas saudáveis, que são felizes do jeito que são, que não precisam ter vergonha de irem à praia. Tal movimento veio justamente para isso, para acabar com todos esses estigmas. 

A Internet possui vários lados, ao mesmo tempo que ela veio para impactar positivamente, com pessoas se aceitando e percebendo que não têm problema nenhum elas postarem fotos do jeito que elas são, as redes também possuem um lado negativo, na forma de comparação, com números de seguidores e likes. As pessoas que estão no padrão de beleza imposto, possuem muito mais reconhecimento e visibilidade do que uma pessoa que não está. Esse tipo de comparação acaba sendo muito cruel, pois os usuários acreditam que só são válidos e ganham mais likes se eles forem de um determinado jeito.

A Barbarhat possui vários projetos relacionados a sua causa, e também deseja conhecer vários países, com diferentes povos e culturas. A história dela é inspiração para muitas pessoas. Com toda sua história e personalidade, ela faz um trabalho essencial e, acima de tudo, sempre deixou claro quem ela é. O processo de autoaceitação, às vezes, é demorado, envolve muitas questões, mas figuras como ela demonstram a importância de lutarmos por isso. 

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Por Fernando Sid e Manuela Miranda – Fala! Mack

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