O sentido de cultura nas reflexões de Bauman, Lévi-Strauss e Morin
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O sentido de cultura nas reflexões de Bauman, Lévi-Strauss e Morin

O sentido de cultura nas reflexões de Bauman, Lévi-Strauss e Morin

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Cultura nada mais é do um conceito-armadilha. Diversos teóricos tentaram definir a palavra cultura e os seus derivados. Vejamos o que pensam alguns deles e de que forma as suas definições acabam correlacionando-se nos tempos atuais.

O sentido de cultura

Zygmunt Bauman

Segundo Zygmunt Bauman, vivemos em uma modernidade líquida, onde, como o próprio nome já diz, está em constante mudança e não se prende a uma única forma. Mas, assim como o líquido, ela mantém seus componentes químicos, ou seja, conserva algumas de suas características, mesmo passando por transformações.

Em A Cultura no Mundo Líquido Moderno (2013), o sociólogo retoma alguns conceitos a respeito da modernidade líquida, para discutir as transformações sociais que ocorreram no campo da cultura até os dias de hoje. Os pensamentos de Bauman sobre a forma como vivemos hoje, em uma sociedade moderna, giram em torno da “Vida para o Consumo”, que define o nosso estilo de vida capitalista, onde, cada vez mais, está voltado ao consumo.

Com isso, criou-se uma mudança na significação da cultura, que antes era considerada um instrumento de formação de uma “condição humana universal”, tornando-se um mecanismo de distinção social e formação de consumidores. 

Bauman defende a ideia de que o consumismo é um arranjo social e que não está ligado a uma característica individual, mas que engloba as vontades, desejos e anseios das pessoas, tornado a relação interpessoal da sociedade mais líquida. Assim, conclui que o consumo exacerbado se tornou parte da cultura no mundo atual, transformando o consumidor em mercadoria, sendo a vida social representada como uma troca de compra e venda.

Um exemplo disso são as fotos e publicações nas redes sociais, onde cada like representa uma “venda” bem-sucedida para o seu dono. Sua lógica a respeito da mercadoria se expande para a formação da identidade e da personalidade, definindo o conceito de identidade quando as pessoas consomem e são consumidas por outras. Outro exemplo atual desses conceitos está representado no filme Clube da Luta, em que o protagonista exagera no consumo de objetos inúteis para preencher um vazio existencial.

Na sociedade de consumidores, ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria.

(BAUMAN, 2008, Vida para o Consumo, p. 20)

Em seu livro Vida para Consumo (2007), Zygmunt Bauman explica que “as pessoas são aliciadas, estimuladas ou forçadas a promover uma mercadoria atraente e desejável. […] E os produtos que são encorajados a colocar no mercado, promover e vender são elas mesmas” (p.13). Sendo assim, ao adquirir certo produto, o valor de mercadoria da sua própria imagem, representada pelo olhar dos outros – nas redes sociais, por exemplo -, aumenta, provocando a busca incessante da ostentação.

Sociedade do consumo
Sociedade do consumo. | Foto: Reprodução.

Edgar Morin

Seguindo uma linha de raciocínio similar, o sociólogo francês Edgar Morin define a cultura como “um corpo complexo de normas, símbolos, mitos e imagens que penetram o indivíduo em sua intimidade, estruturam os instintos, orientam as emoções” (MORIN, 2011, p.05). Ou seja, esse universo simbólico orienta a relação do sujeito com o mundo – suas atitudes e emoções. A cultura atua permanentemente na construção do sujeito. 

De acordo com Morin, a indústria cultural se aproveita da necessidade do homem de se projetar em mitos, e transforma isso em mercadoria: é a “estrela-mercadoria”. É claro que a estrela só interessa para a indústria cultural enquanto estiver dando lucro. Uma estrela que não faz mais sucesso, é uma estrela morta. No entanto, em alguns casos, depois da morte a estrela faz mais sucesso do que viva. É o caso de Michael Jackson, que vendeu mais discos após a sua morte, em 2009, do que antes disso, afirma Zach Greenburg, em seu livro Michael Jackson Inc. Para a indústria cultural, o cantor está mais vivo do que nunca. 

Uma cultura fornece pontos de apoio imaginários à vida prática, pontos de apoio práticos à vida imaginária.

(MORIN, 1997, p. 15) 

Morin denomina este fenômeno da indústria cultural de Terceira Cultura (sendo a Cultura Clássica e a Cultura Nacional suas antecessoras). Entende-se por cultura um conjunto de hábitos e costumes que regem uma sociedade. Assim, a cultura é mutável, ganhando novos significados de acordo com as mudanças sociais promovidas pelo tempo. 

Passemos, então, para a cultura de massa, que, por definição, é tudo aquilo que se usa para atingir a maior parte da população, com objetivo comercial. Esse derivado de cultura busca padronizar e homogeneizar os produtos, para serem consumidos rapidamente.

A cultura de massa é dividida por Morin em três estruturas: primeiro, a produção; segundo, a difusão; e, terceiro, o público. Logo, a cultura de massa é feita em larga escala, sendo veiculada amplamente pelos meios de comunicação de massa; e o público-alvo, é variado e segmentado. Para o teórico, cultura de massa é cultura.

A cultura de massa é uma cultura: ela constitui um corpo de símbolos, mitos e imagens concernentes à vida prática e à vida imaginária, um sistema de projeções e identificações específicas. Ela se acrescenta à cultura nacional, à cultura humanista, à cultura religiosa, e entra em concorrência com estas culturas.

(MORIN, 1997, p. 16)

A cultura de massa é vista, assim, como uma estrutura completa, composta por partes interdependentes, e que está diretamente ligada ao consumo. O pensamento complexo de Edgar Morin afirma também que, estamos inscritos numa longa ordem biológica e somos produtores de cultura. Logo, “somos 100% natureza e 100% cultura” (Morin, 2003). 

culturas
Troca de culturas e conhecimentos. | Foto: Reprodução.

Claude Lévi-Strauss

O antropólogo Claude Lévi-Strauss, em seu texto Raça e História (1952), apresenta uma crítica à diversidade cultural. Para ele, ao estudarmos sobre as vastas culturas no mundo, utilizamos de um método etnocêntrico a respeito das culturas que não somos familiarizadas, chamada de evolucionismo social, ou seja, a ideia de que uma cultura é mais evoluída que outras, tornando-a superior.

Segundo Lévi-Strauss, para nos desprendermos dessa visão de etnocentrismo cultural, precisamos fazer uma análise de relativismo e relativização cultural com outras nações, entendendo que certa cultura é natural e relativa ao povo que ela pertence, não diminuindo ou superiorizando nenhuma, pois todas elas são um conceito-chave do entendimento das formas de vida.

Nesse contexto, é possível associar as ideias de Lévi-Strauss a dois conceitos, o primeiro, de história estacionária, caracterizada como uma cultura que permaneceu estática, por exemplo, as culturas tribais e indígenas. Já a segunda, chamada de história cumulativa, trata de um processo de acumulação de novas culturas e tendências que enriquecem a cultura, tornando-a mais “civilizada”, do ponto de vista etnocêntrico.

Um dos maiores exemplos de etnocentrismo cultural que ocorreu ao longo dos anos foi a colonização europeia nas Américas, onde os europeus julgaram a cultura indígena inferior a deles e impuseram seus costumes e religiões, justificando a violência e repressão nos índios e negros. No Brasil, por exemplo, os reflexos dessa dominação estão presentes na sociedade até os dias de hoje.

A oposição entre culturas progressivas e culturas inertes parece, assim, resultar, inicialmente, de uma diferença de focalização.

(LÉVI-STRAUSS, 1958, Antropologia Estrutural, p. 345)
Cultura
Cultura. | Foto: Reprodução.

Um dos maiores problemas para compreender a humanidade, apontado por Edgar Morin, é entender a relação entre unidade e a diversidade. Segundo ele, todos os seres humanos têm algo de idêntico genética, fisiológica, psicológica e afetivamente, mesmo assim, cada cultura é singular. O que diferencia a humanidade do mundo animal é a cultura, ou seja, os seus conhecimentos, a sua linguagem e o que é aprendido, a técnica.

Mas nunca vimos a cultura. Só conhecemos a cultura através das diferentes culturas.

(Morin, em palestra ao Fronteiras do Pensamento, 2008)

Para Morin, diversidade é a manifestação da unidade. Cultura é um conceito universal, porém, não existe nenhuma cultura igual à outra. A linguagem tem, em todos os lugares, a mesma estrutura, mas todas as línguas são diferentes umas das outras. Ao compreendermos esta relação, diz o pensador, deixamos de querer homogeneizar as formas, deixamos de querer que todos sejam parecidos, e ficamos abertos a novas relações.

Esse conceito anti-homogeneização também está presente nas ideias de Lévi-Strauss. Para o filósofo, a diversidade é um aspecto dinâmico que necessita existir e sempre estará presente para desenrolar e impulsionar a história humana; ao contrário da homogeneização, que propõe igualar as culturas existentes e reduzir a dinâmica cultural, produzindo uma estagnação, por excluir a diversidade em todos os seus aspectos.

Embora os filósofos citados transitem em diferentes definições e derivações da palavra cultura, seus pensamentos acabam dialogando. Assim, fica claro a importância dos conceitos de Zygmunt Bauman, Claude Lévi-Strauss e Edgar Morin para a sociedade contemporânea, ainda que alguns tenham sido desenvolvidos no século passado. Ela sempre foi e sempre será alvo de diversos debates, dada a sua complexidade e pelas frequentes mudanças nas tradições e nos costumes. 

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Por Niara Viana de Brito – Fala! PUC

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