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O Rap é Formador de Opinião, Rapaz!

O Rap é Formador de Opinião, Rapaz!

A contraposição existente entre o rap cantado a partir de sua essência e o rap moldado para a indústria musical.

“Tem aquela coisa de passar o sentimento, né? No rap ainda tem muito disso, passar um sentimento, uma história na própria música. E esse sentimento e essa história só podem ser contados por quem viu, sentiu e viveu aquilo, entende?”, afirma convicto Kaue Noslen, ou MC Noslen, morador da periferia da Penha, zona leste de São Paulo. O gênero musical do RAP vai muito além de um simples produto audível. É uma manifestação vocal para a emancipação do gueto, da periferia, dando visibilidade à comunidade a ao indivíduo que o canta.

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O Rap tem como raiz a cultura do Hip Hop, que abrange música, dança, estilo de se vestir e a identidade visual do graffiti. Já o Hip Hop, por sua vez, tem seu início pela década de 70, quando começaram a surgir DJs e MCs em Nova Iorque. Os equipamentos necessários para fazer esse tipo de música eram bem caros, inacessíveis para um jovem doBronx,quedificilmenteteriadinheiroosufic ienteparaobter pick-ups,caixasdesom, mixer e um acervo – ainda que bem pequeno – de discos de vinil. “O divisor de águas para o movimento foi um apagão geral, a cidade ficou mais de um dia em escuridão total. Nisso, mais de 1600 lojas foram saqueadas. O número de DJs e MCs aumentou exponencialmente após o blecaute, o que foi determinante para a ascensão do gênero.”, esclarece com sorriso no rosto Lucio Rueda, formado em Produção Musical e ligado à produção de beats para grupos e pessoas que estão começando e não têm dinheiro nem conhecimento na área de mixagem.

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O movimento artístico no Brasil tem seu começo muito incerto, mas em São Paulo, contudo, o gênero começou com rodas de freestyle na Galeria 24 de maio e metrô São Bento. A princípio, o movimento era mal visto e associado à criminalidade. Essas rodas tinham forte presença de pessoas simples, calçando chinelos e vestindo moletom, vindos direito de bairros periféricos. Cantavam de maneira rimada e improvisada. O gênero foi uma carta de alforria, trazia esperança a quem já não a conhecia mais. “Antes de eu conhecer o rap eu tinha alguns problemas de socialização, eu não aceitava quem eu era, como negro, como morador de periferia. E a partir do momento que comecei a ouvir rap, cara, isso salvou minha vida, comecei a ter orgulho de ser quem eu sou.”, desabafa com semblante cabisbaixo Noslen.

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No entanto, assim como nos Estados Unidos, o começo do movimento no Brasil não foi fácil. “Até uns 20 anos atrás, rapper nenhum sobrevivia com aquilo que ganhava em shows – salve raríssimas exceções. Muitos tinham que ter um trabalho registrado para se manter, sabe?”, pontua veementemente Rueda. O amadorismo no rap existe ainda nos dias de hoje. Poucos são os grupos e indivíduos que ganham notoriedade e espaço na mídia. Na realidade, há uma discussão muito forte sobre os caminhos que o movimento tem tomado. Comenta-se sobre uma desvirtuação na essência do gênero, onde o enfoque principal deixa de ser as mazelas sociais e torna-se apenas uma forma de entretenimento. Um produto feito apenas para o consumo imediato, onde o ouvinte não precisa de nenhum reflexão ou conhecimento pré-estabelecido para entender aquilo que é passado.

“Confesso pra você que não é fácil alguém que não veio da periferia cantar algo que tenha qualidade, algo que tenha uma mensagem, afinal, quais foram os perrengues que um aluno do Mackenzie, por exemplo, já viveu – quanto à injustiça social?”, explana Eduardo Heuri, ou MC Heuri, estudante do Mackenzie e rapper. O cenário do rap, hoje, é uma massa a ser moldada. A comercialização do gênero é clara, mas há correntes que defendem que isso é necessário para a disseminação do movimento. “Mano, vou ser sincero, eu jamais esperava ver uma patricinha cantando Vida Loka pt.2, dos Racionais, e hoje eu vejo. É claro que o rap não pode ter como exclusividade a comercialização, mas isso tem servido para que as pessoas busquem conhecer mais o gênero e acabem por ir atrás de mais grupos e vozes.”, discorre exaltado Rueda.

Atualmente, o gênero passa por uma alavancada muito forte, porém muito focada nessa “industrialização” do gênero. Os grupos que mais fazem sucesso são compostos por membros de classe média/alta, que, basicamente, não têm muito a acrescentar, além de mulheres, drogas e informações completamente irrelevantes. O cunho emancipacionista do rap tem se perdido, um ou outro consegue ter sucesso e transmitir alguma mensagem através da música. E essa mensagem social é, habitualmente, passada por aqueles que estão inseridos numa realidade adversa. A questão das lutas emancipacionista – como a luta pela igualdade de gênero e a luta contra a discriminação racial – só podem ter como protagonistas aqueles que as vivem, que sentem na pele tudo aquilo que lhes é negado. Sendo assim, com o “movimento gueto” – ou simplesmente rap – não há motivo para ser diferente. Somente tem propriedade para discorrer a respeito do assunto aquele que vive e vê a injustiça acontecendo diariamente, na comunidade na qual está inserido e na própria vida.

“Só pra abrir um parênteses, sou da quebrada e canto rap, tá ligado? Mas eu acho que o boy tem conhecer nossa cultura, pode cantar também. Só não pode haver uma apropriação. Ele pode falar das injustiças, mas tem que passar de modo que escancare que ele via isso ocorrendo de fora, entende?”, conclui com olhar satisfeito Noslen. O gueto sempre vai ter forte influência sobre o movimento/expressão artística rap. Os indivíduos da comunidade sempre terão maior propriedade para cantar aquilo que vivem e sentem na pele, mas a disseminação da cultura Hip Hop é algo sadio para o futuro da música em si, ajudando a acabar de vez com o preconceito que perdura até hoje – em relação ao fato de ser um tipo de música “marginalizado” e de “favelado”. Há artistas hoje que têm como berço o rap e seu característico ritmo, mas que buscaram em outros gêneros uma forma de transmitir a mensagem, ou seja, cultivam aquela mensagem de cunho social e trazem uma experiência sonora mais melódica, que é mais facilmente aderida pelo público.

Olho do texto:

  • –  “E a partir do momento que comecei a ouvir rap, cara, isso salvou minha vida, comecei a ter orgulho de ser quem eu sou.”
  • –  “o rap não pode ter como exclusividade a comercialização, mas isso tem servido para que as pessoas busquem conhecer mais o gênero [….]”

Por Sérgio Henrique – Fala!M.A.C.K

1 Comentário

  1. 11 meses ago

    Boa tarde,

    Me chamo Bruno Zucatelo, falo em nome do Rap Com Vida, um grupo de Rap Cristão aqui do Rio de Janeiro,
    Ontem lançamos um novo vídeo clipe no nosso canal do Youtube, segue o link: https://youtu.be/9URptGC7wMk

    Esse clipe foi gravado no Complexo de Costa Barros que fica na Zona Norte do Rio de Janeiro,
    Somos aqui da região e estamos começando a lançar trabalhos aonde usamos o Rap como ferramenta para passar uma boa mensagem, mensagem de vida e conscientização!
    Tenho muito interesse em saber como faço para poder ter esse trabalho divulgado no seu Portal,
    Caso precise e desejas falar conosco, tenho o seguinte telefone: 21 997747313.

    Grato desde já.

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