Cadastre-se e tenha acesso a conteúdos exclusivos!
Quero me cadastrar!
Menu & Busca
O que rolou no Festival Lula Livre

O que rolou no Festival Lula Livre

O POVO CANTA E É FELIZ NO FESTIVAL LULA LIVRE

Uma reflexão por Matheus Menezes – Fala! Anhembi

Mesmo debaixo de chuva, o povo foi a rua protestar e dançar. Mais de 80 mil pessoas passaram pela Praça da República neste último domingo (02) para exigir a liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso político desde abril de 2018. Essa é a terceira edição do Festival Lula Livre, uma manifestação artística e política em defesa da democracia. O evento trouxe uma sensação de união e pertencimento para todos aqueles que não se veem representados pelo governo atual.

As faixas e os cantos “Lula Livre” tomaram conta da Praça da República. Foto: Ricardo Stuckert

Mas mesmo dentro do campo da esquerda, há divergências. Algumas delas foram expostas pelos artistas. A rapper, poetisa e professora de história Preta Rara, por exemplo, se pronunciou com relação ao racismo dentro da própria esquerda, reivindicando espaços de liderança para a população negra. “No Brasil existem 6 milhões de trabalhadoras domésticas. Dessas, 78,8% são mulheres pretas. E esse não pode ser o único lugar para as mulheres pretas”, clamou Preta Rara com muitos aplausos da plateia.

Já os políticos evitaram subir no palanque. No local estavam presentes a presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) Gleisi Hoffmann, o vereador Eduardo Suplicy – que andou pela multidão tirando fotos e beijando apoiadores – e o líder do MTST Guilherme Boulos. Nenhum deles discursou. Foi uma manifestação sem bandeiras partidaristas.

Grandes momentos do Festival Lula Livre

Se apresentaram no palco do festival 38 atrações por cerca de 8 horas. Todos os estilos musicais estavam representados, do samba ao rap. Os grandes nomes incluíam Odair José, Emicida, Rael, Criolo, Thaíde, Francisco El Hombre, Arnaldo Antunes, Slam das Minas, Zeca Baleiro, Otto, Baiana System, Nação Zumbi e muitos outras. Teve até performance artística no ar com a bailarina Sandra Miyazawa.

Sandra Miyazawa sendo erguida e carregando uma faixa “Lula Livre”. Vídeo: Reprodução/Rede Brasil Atual

­­Fernanda Takai cantou ‘Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos’, canção composta por Erasmo Carlos e Roberto Carlos em solidariedade a Caetano Veloso, exilado durante a Ditadura Militar. Antes de se apresentar, a musicista mandou uma indireta para Roberto, rei do rock and roll. “Essa música foi feita por um rei que anda calado, mas a música ficou eternizada. Quem sabe ele desperta”, disse Fernanda.

O Slam das Minas se juntou a Drik Barbosa para homenagear a vereadora Marielle Franco. Já Everson Pessoa homenageou a sambista Beth Carvalho, grande amiga de Lula, que morreu em abril aos 72 anos de idade.

Everson Pessoa entoou os grandes sucessos de Beth Carvalho. Foto: Matheus Menezes

Preparação e montagem

O evento foi organizado pelo Comitê Nacional Lula Livre, Instituto Lula, Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo a partir de um Manifesto de Artistas e Intelectuais. Toda a montagem levou pouco mais de dois meses. Os realizadores abriram uma campanha de financiamento virtual para colocar o projeto em prática. Os artistas que participaram do festival não receberam cachê. Foram convidados para participar em nome da causa.

A baterista e percussionista Michelle Abu, uma das diretoras do evento, se emocionou com o resultado. “Desde o pessoal que estava montando o palco, o pessoal que estava no camarim, aos músicos, aos técnicos de som, todo mundo tinha muita vontade que tudo desse certo. Isso é fundamental. A gente virou madrugada, sempre pensando no que era melhor, no público, em todos que estavam participando. Uma vibração de coisas positivas, de amor”, relatou para o site Brasil de Fato.

Espaço para o #LulaLivre

A pauta do domingo é um pouco diferente da defendida pelos estudantes nos protestos de quinta-feira (30 de maio) contra os cortes na educação. “São pautas diferentes, mas complementares”, disse a líder estudantil Carina Vitral em entrevista para o Estadão. Em certa medida, há um cruzamento das duas frentes. “Lula e educação são inseparáveis. Essa moçada está indo às ruas pelo legado que Lula deixou nesse país”, declarou Gleisi Hoffmann à Folha de S.Paulo nos bastidores do festival.

A estratégia ao separar as duas pautas foi manter uma agenda em prol de Lula sem isolar aqueles que não simpatizam com o ex-presidente. Fernando Haddad, candidato à presidência pelo PT em 2018, acredita que partidos não devem interferir nas manifestações dos estudantes. “O movimento da educação é um movimento da sociedade, independentemente da posição que a pessoa tenha em relação ao PT e ao Lula”, relatou o ex-prefeito de São Paulo para a Folha de S.Paulo.

Carta de Lula

Um dos momentos mais emocionantes do festival foi a leitura da carta de Lula pelo neto. Foto: Ricardo Stuckert

Thiago Trindade Lula da Silva, neto de Lula, foi um dos últimos a pisar no palco, trazendo a tão aguardada carta do ex-presidente. Ele leu as palavras do avô e emocionou a multidão. Leia a carta na íntegra:

“Agradeço de coração a cada uma e a cada um de vocês, artistas e público, que nesse 2 de junho fazem da praça da República a Praça da Democracia. Embora tenha o nome de “Festival Lula Livre”, sei que esse é muito mais que um ato de solidariedade a um preso político. O que vocês exigem é muito mais que a liberdade do Lula. É a liberdade de um povo que não aceita mais ser prisioneiro do ódio, da ganância e do obscurantismo.

Esse ato é na verdade um grito de liberdade que estava preso em nossas gargantas. Mais que um grito, um canto de liberdade. O canto dos trabalhadores que não aceitam mais o desemprego e a perda de seus direitos. O canto dos estudantes, que não aceitam nenhum retrocesso na educação. O canto das mulheres, que não aceitam abrir mão de nenhuma conquista histórica. O canto da juventude, que não aceita que lhe roubem os sonhos, e da juventude negra em particular, que não aceita mais ser exterminada. O canto dos que ousam sonhar, e transformam sonhos em realidade.

Boa parte de vocês que aí estão, artistas e público, felizmente não viveram os horrores da ditadura civil e militar instalada em 1964, essa que alguns querem implantar de novo no Brasil. Foi um tempo em que a luta contra a censura podia ser traduzida em canções que diziam assim: “Você corta um verso, eu escrevo outro”.

Foi com muita luta que conseguimos acabar com a censura neste país. E não vamos aceitar essa outra forma de censura, que é a tentativa de acabar com as fontes de financiamento da arte e da cultura. Que não vamos aceitar a tentativa de censurar o pensamento crítico, estrangulando as universidades.

Se eles arrancam nossas faixas, nós escrevemos e botamos outras no lugar. E vamos continuar ocupando as ruas em defesa da educação, da saúde, públicas e de qualidade; das oportunidades para todas e todos; contra todas as formas de desigualdade e de retrocesso.

Nossos adversários querem mais armas e menos livros, menos música, menos dança, menos teatro e menos cinema. E nós insistimos em ler, escrever, cantar e dançar, insistimos em ir ao teatro e fazer cinema.

Nada mais perigoso para nossos adversários que um povo que canta e é feliz. Que faz da arte e da cultura instrumentos de resistência. Vamos então à luta, sem medo de sermos felizes, com a certeza que o amor sempre vence.

Um abraço, com muita saudade e a vontade imensa de estar aí,

Lula”

0 Comentários

Tags mais acessadas