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O Que Foi Discutido na 38ª Semana do Jornalismo da PUC-SP ?

A 38ª Semana do Jornalismo aconteceu entre os dias 26 e 30 de setembro na PUC-SP, e contou com a participação de convidados especiais, alunos da Faculdade e interessados na área.

Na matéria de hoje vamos abordar 3 mesas que estiveram presentes durante a semana – sendo elas as mesas “Cultura Hegemônica – O que fica de fora?”, “Fotografia e Direitos Humanos” e a mesa sobre “Democratização da Mídia”. Confira:

01. Cultura Hegemônica – O que fica de fora?

Os convidados foram: Daniel Benevides, formado em Jornalismo pela USP e editor da revista Brasileiros; Rosane Pavam formada em Jornalismo também pela USP, autora de livros e editora de cultura da revista Carta Capital; Renata Prado, estudante de pedagogia, militante negra e organizadora do evento “Batekoo”; E ainda Thiago Vinícius, responsável pela divulgação do “Banco União Sampaio”, que financiam livros de autores das favelas de São Paulo, principalmente na Zona Sul.

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Rosane Pavam, com 35 anos de Jornalismo e doutora em História, inicia a palestra falando sobre o surgimento do jornalismo. Segundo ela, o jornalismo surgiu na Europa para dar voz a burguesia insatisfeita com o governo Monarquista. Os cafés, livrarias, e os locais públicos eram usados pela burguesia para discutir desde assuntos políticos até os assuntos literários. Mas quando a burguesia tomou o poder, instalando o modelo capitalista, ela que sempre foi uma classe revolucionária, passa a ser uma classe acumuladora e exclusivista. Assim, existe a imprensa hegemônica, que seleciona os assuntos tratados, como se fossem de interesse de todos, excluindo e deixando de dar voz a muitos segmentos e movimentos da sociedade, negando o que acontece, como diz a jornalista, nas “franjas da sociedade”. Rosane faz também uma crítica à rede Globo, dizendo que “a Globo não nos abre as portas”.

Segundo ela, é exatamente o que a Carta Capital faz de diferente. Tenta pegar assuntos que não estão na mídia dominante, agindo contra as imposições da Indústria Cultural. Assim, ela considera que esse tipo de jornalismo segue opostamente ao jornalismo de consenso, se tornando assim um jornalismo crítico. Como ela mesma diz: “Se o jornalismo não for crítico, ele não é jornalismo. Ele é assessoria de imprensa, propaganda”.

Daniel Benevides afirma que é difícil definir o que é cultura. Como ele brinca: “Mais fácil defini-la pelo o que ela não é”. Ele evidencia que a cultura independente como forma de resistência à cultura hegemônica, iniciou nos anos 80. Ela era independente pelos seguintes pontos: Independente do governo, das empresas; contava com produções caseiras; cultura de resistência a Indústria Cultural. Ele ironiza que hoje, se tem muito mais acesso a tudo, por meio da internet, mas em contraponto é muito mais difícil de filtrar as informações boas das ruins.

Ele foi produtor da MTV no fim dos anos 90, que apresentava uma cultura de resistência, pois mostrava exatamente o que não era pauta dos outros programas de televisão. Ele se recorda que trabalhou em um programa chamado: “DEMO MTV” que apresentava vídeo clipes feitos em casa. Sobre o programa, que durou um ano e meio, ele diz: “Foi uma experiência sensacional. Mas acabou porque as pessoas não tinham materiais para ficar fazendo os clipes”.

Em relação ao seu trabalho atual, Daniel diz que a Revista Brasileiros tenta dar uma luz nas manifestações que estão ocorrendo em todo o Brasil. Para ele, as manifestações não estão tendo o devido destaque nas grandes mídias.

“Damos voz a quem é pouco divulgado”.

Foi a partir de cortes de incentivo, do atual governo do Michel Temer, ao Ministério da Cultura, que nasceu a Revista Cultural vinculada com a Revista Brasileiros. Ele evidencia que a literatura sempre foi um espaço de manifestação e de resistência. E argumenta: “A literatura já é uma cultura de resistência, pois cada vez menos as pessoas leem”, já que, como ele próprio afirma, “vivemos a mercê do gosto dominante”.

Renata Prado sentiu os reflexos dessa MTV revolucionária. Nascida no bairro Itaim Paulista, afirmou que por meio de sua televisão “à gato” teve seu primeiro contato com programas que formaram o sujeito político que ela é hoje, assim como o programa Yo! MTV Raps, que reunia grupos de rap e hip hop, estilos que tem como foco principal denunciar as condições vividas pela população periférica. Porém, atualmente, ela se diz decepcionada com o que a MTV se tornou.

Como uma das organizadoras da festa “Batekoo”, Renata diz que o principal objetivo do evento é fomentar a cena cultural negra e periférica, a qual não tem visibilidade por conta da cultura hegemônica “embranquecida”, ou muitas vezes, não é nem mesmo considerada cultura. Produzida majoritariamente por homens gays e mulheres negras, a festa surgiu em Salvador, Bahia, mas atrai público por todas as cidades em que passa, conseguindo reunir de 2 a 2,5 mil pessoas na cidade de São Paulo. Renata complementa: “estamos aqui, também produzimos, trabalhamos e precisamos de espaço”. “Batekoo”, à convite do coletivo “Sistema Negro” teve sua participação no “SP na Rua”, em que diversas festas  são trazidas para as ruas de São Paulo em busca de visibilidade para essa cultura independente.

A palestrante fez também uma crítica às mídias alternativas que, de acordo com ela, muitas vezes são produzidas por jovens brancos de esquerda, os quais também não deram visibilidade ao evento, que foi um dos que mais atraiu público dentre todas as festas apresentadas no “SP na Rua”.

Com a frase “estudo pedagogia em uma federal, sou pesquisadora e dançarina de funk”, Renata quebra paradigmas e mostra que sim, todas essas atividades podem ser realizadas por uma mesma pessoa, sendo que uma não necessariamente excluirá a outra. “Batekoo” é considerado por ela um “espaço seguro para sermos o que, de fato, somos” e finaliza com a frase: “voz a periferia tem, o que precisamos é de ouvidos”.

Finalmente, Thiago Vinícius inicia sua parte recitando uma poesia, que além de denunciar as condições vividas na periferia, foi escrita por um autor também morador da comunidade. Com frases como “a chibata está no cacetete” e “a minha arma é minha arte”, Thiago criticou a atitude violenta e racista da polícia na periferia, mostrando também que a arma de defesa que eles têm é a arte, a música, a poesia.

A sociedade como um todo não tem olhos para a injustiça cometida nas favelas, já que, como o próprio Thiago afirmou, “sociedade olha pro umbigo e fala que não é comigo”.

O palestrante também falou um pouco sobre a moeda Sampaio. De acordo com ele, uma vez que o dinheiro não chega na periferia, os moradores criaram seu próprio dinheiro e banco comunitário: o Banco União Sampaio. A moeda é aceita em diversos estabelecimentos da região, permitindo aos moradores uma melhor qualidade de vida, além de financiar livros de autores que moram na favela. “Nosso Produto Interno Bruto são as pessoas”, alega Thiago.

Além disso, ele destacou a falta de atenção em relação ao índio Guarani, um povo e uma cultura que também são deixados de lado na Indústria Cultural hegemônica. Buscando uma maior conscientização, é feito um percurso da defesa da identidade cultural, em que o grupo juntamente com os índios passam por várias cidades, sendo bem recebidos em algumas, e mal recebidos em outras.

Outro exemplo de conscientização é o Festival Percurso, em que diversos shows ocorrem na Praça do Campo Limpo de forma a arrecadar dinheiro para a comunidade – uma economia solidária que ainda detém pouquíssima divulgação.

Com todas essas críticas, Thiago Vinícius tem o principal objetivo de que sua cidade se conecte com a sociedade de forma que o preconceito não tenha espaço. Ele faz até mesmo uma crítica à forma como as favelas são vistas, cheias de “vagabundos que vivem no bar”, enquanto logo a frente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo existem inúmeros bares que estão lotados de alunos desde às 10 horas da manhã.

Com isso, Renata Prado vê que uma das únicas maneiras de dar visibilidade às culturas negadas pela sociedade é “reeducar politicamente a esquerda branca”, de forma que os veículos de informação pautem assuntos presentes também nas favelas, uma vez que estes jamais chegam à periferia. Um desafio para os comunicadores é “como disseminar canais de qualidade” atualmente, não deixando nada de fora. Assim como disse Daniel Benevides, “a cultura é o espaço de resistência que assusta e provoca os conservadores”, devendo permanecer assim, buscando sempre o espaço daqueles que não fazem parte da cultura hegemônica, da Indústria Cultural dos dias de hoje.

02. Fotografia e Direitos Humanos

A mesa de “Fotografia e Direitos Humanos: Retratos de Humanidade”, debateu sobre diversos aspectos da fotografia envolvendo a democracia e os direitos humanos. Foram eles, o direito de fotografar pessoas em condições vulneráveis, o respeito pelas pessoas que estão sendo fotografadas e os desafios da profissão.

O debate foi intermediado pelo professor de fotografia da PUC-SP, Salomon Cytrynowicz.

O primeiro fotógrafo a apresentar o seu trabalho foi Renato Stockler, especializado em fotografia documental. Ele contou sobre o seu projeto chamado “Concept of place”, que é uma série de fotografias de moradores remanescentes da região amazônica que possuem protagonismo no debate ambiental econômico brasileiro. Depois, ele apresentou seu trabalho “Terrão de cima”, feito em 2002 para a Copa do Mundo, que consiste em fotografias de campos de futebol de várzea. Esse trabalho deu destaque ao fotógrafo em diversos países, como Noruega, Rússia, Alemanha e França.

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Foto: Renato Stockler. Ensaio Terrão de Cima.

 

Logo depois dele, o fotógrafo independente Rogério Assis apresentou seu trabalho na Tribo Zoé. Ele foi o primeiro fotógrafo a ter contato com a tribo, no ano de 1989, sendo que naquela época uma epidemia de gripe tinha atingido a comunidade. Depois de 20 anos, Rogério voltou à Amazônia para registra-los novamente e ver como estavam. As fotos mostram o cotidiano da tribo – o banho, a brincadeira, a alimentação, o repouso, e outros pontos do dia a dia deles. Segundo o fotógrafo, “é mais importante você passar mais tempo com pessoas, respeitando seus costumes e conhecendo elas melhor, do que fotografando”.

Continuando as apresentações, Jardiel Carvalho e Rodrigo Zaim, ambos do R.U.A Foto Coletivo, apresentaram diversos trabalhos fotográficos. O coletivo, que começou em 2013 durante as manifestações do Passe Livre no mês de junho, possui foco em causas sociais. Entre os trabalhos, estava a manifestação dos estudantes secundaristas, o baile do Capão Redondo e as manifestações em Kiev, na Ucrânia, em 2014.

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Foto: Rodrigo Zaim R.U.A Foto Coletivo. Manifestação dos estudantes secundaristas.

 

Por último, mas não menos importante, o fotógrafo independente Sérgio Silva apresentou suas fotos da manifestação dos estudantes secundaristas e um novo projeto ainda não divulgado sobre o incêndio em uma favela paulista.

Após as apresentações, começou a rodada de perguntas. Logo eles foram questionados sobre a exposição das pessoas em situações vulneráveis, e para essa questão as opiniões divergiram.

Rogério Assis afirmou que você deve fotografar, mas não expor a pessoa de maneira negativa. Já para Jardiel Carvalho, você tem que fotografar, tem que denunciar. Renato Stockler afirmou: “O problema está em quem publica e não em quem fotografa”.

Para fechar a rodada, Sérgio Silva citou a frase, completando o Renato: “fotografia não mente, quem mente é o homem”.

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Renato Stockler apresentando seu trabalho durante o debate sobre Fotografia e Direitos Humanos. Foto: Paola Micheletti.

 

Outra pergunta recorrente foi sobre a segurança do fotógrafo. Jardiel Carvalho afirmou que não há segurança para o fotojornalista, você pode usar o melhor equipamento, mas você está vulnerável a receber tiro da Polícia Militar.

Sérgio Silva completou que eles miram na cabeça, eles atingem quem está na frente deles, independente de quem for. Na manifestação de 2013, Sérgio perdeu a visão do seu olho esquerdo quando foi atingido por uma bala de borracha perdida da Polícia Militar.

Para fechar a mesa, os fotógrafos foram questionados se é possível sobreviver sendo fotógrafo. Eles afirmaram que é possível, mas caso você não tenha amor pelo que você faz, e ter somente o pensamento voltado para o lucro, você jamais será um fotógrafo de verdade.

03. A Democratização da Mídia

O encerramento da 38ª Semana de Jornalismo da PUC-SP tratou da “Democratização da Mídia” e teve como convidados: Adriana Reid (Band), Ana Flávia Marx (Barão de Itararé), Fernando Sato (Jornalistas Livres), Laurindo Lalo Leal (TV Brasil) e Sinval Itacarambi (Revista Imprensa).

A discussão levantada pelos convidados foi desde o financiamento da mídia alternativa, até a regulamentação da imprensa e as dificuldades do jornalista dentro dos grandes veículos de comunicação.

Os jornalistas Fernando Sato e Ana Flávia Marx deram conta da experiência na mídia alternativa, colaborativa, pautada pelas redes sociais, arregimentada por coletivos e grupos militantes. Sinval Itacarambi, editor da Revista Imprensa, tinha em mãos a edição comemorativa de 30 anos da revista: “Vamos falar de democracia”. O editor citou capas marcantes que evidenciam a influência da mídia na política.

O professor Laurindo Lalo Leal foi o destaque da mesa. Sua apresentação com um discurso inflamado ressaltava sua alegria em voltar à PUC. Laurindo foi um dos fundadores do curso de jornalismo da universidade e, não por acaso, um dos mais respeitados jornalistas brasileiros.

A proposta do professor é a estatização da comunicação. Para ele, o Brasil precisa de veículos mantidos pela população, regulados pelo Estado e que cumpram efetivamente a importante função social da mídia. Descontraidamente, o jornalista ainda revelou classificar os jornalistas em três tipos:

-> Os “lambe-botas”, aqueles que cumprem qualquer ordem dos patrões e esquecem dos seus compromissos com a sociedade;

-> Os respeitáveis, jornalistas que apesar de trabalhar na grande mídia – é nela que se ganha algum dinheiro – mantêm a conduta;

-> E, finalmente, os jornalistas da linha de frente, aqueles que estão na mídia alternativa, batalhando dia a dia contra o monopólio.

“Tenho certeza de que os alunos de jornalismo da PUC depois de formados se tornam jornalistas respeitáveis ou da linha de frente”, disse Laurindo.

A convidada Adriana Reid, jornalista que fez carreira na televisão, é uma das respeitáveis. Tendo trabalhado a vida toda na imprensa hegemônica, diz nunca ter se curvado para as vontades dos patrões. Adriana pediu demissão de um cargo de âncora por estar cansada de emitir palavras que não eram suas, carregadas de interesses políticos e econômicos que nada tinha a ver com suas convicções. É como se a censura viesse de dentro para fora, ao contrário daquilo que é transmitido aos espectadores.

Diante da constatação de que sempre haverá a mídia hegemônica e a contra hegemônica, convidados e estudantes concordaram que a disputa é saudável, apesar de desigual. Além disso, a internet é uma aliada importante para a mídia alternativa, que não precisa da estética tradicional, muito menos de suas plataformas.

Mesmo com a ascensão das redes sociais, os meios de comunicação mais antigos continuam com a maior credibilidade e audiência – a qual já iniciou a transição de passiva para ativa, essa sim a verdadeira democratização.

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Por: Paola Micheletti, Laura Jabur, Beatriz Gimenez e Julia Castello Goulart – Fala! PUC

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