O preconceito que poucos conhecem
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O preconceito literário, que muitos acham que não existe, está mais presente em nossas vidas do que as pessoas possam imaginar

Entre tantos títulos e histórias que se podem encontrar numa livraria, há alguns gêneros e autores que são descartados como opções por serem considerados de baixa qualidade para alguns ou por servirem como entretenimento. Pessoas que possuem esse receio e pensamento, podem não saber, mas possuem um preconceito literário. Um preconceito que muitos dizem não existir, mas, no fundo, todos têm enraizados em si mesmo.

preconceito literário
Preconceito literário. | Foto: Reprodução.

Preconceito literário

“Existe preconceito literário, não só um, como vários tipos em relação a vários aspectos”, foi o que Cinthia Mayara Barbosa, estudante do curso de letras da Universidade de São Paulo (USP), disse. A aluna ainda ressalta, que livros de literatura periférica e do gênero infantojuvenil, acabam sofrendo uma discriminação maior por partes dos leitores, por acharem que o público-alvo dessas obras define a escrita e a sua relevância. Dessa forma, ela afirma: “Uma obra não é restrita unicamente ao seu público-alvo”.

Um fator que ressalta a existência de uma classificação da qualidade dos livros, são as listas de leituras obrigatórias para os vestibulares e os livros estudados em sala de aula. “A escola acaba sendo a instituição que valida as listas de livros das universidades.”, diz o professor de língua portuguesa e história da arte, Alexandre Viera, que ainda comenta que os alunos acabam entrando em contato com uma lista limitada de livros, que não falha por conta da qualidade, mas sim, de haver uma única perspectiva, restrita e de um único nicho.

Essas famosas listas, levam em conta a literatura canônica, desprezando a literatura contemporânea, o que acaba por reforçar o preconceito com livros que não são considerados clássicos. Assim, o preconceito, muitas vezes, é construído nas salas de aulas, o que leva as pessoas a terem o pensamento, que se perpetua na sociedade, que somente os livros clássicos são bons e cultos.

“Hoje em dia, estamos repensando esse cânone, porque percebemos que esses textos considerados os melhores e superiores possuem uma cara muito própria. A cara de um cânone branco: são autores brancos, em sua imensa maioria autores homens e heterossexuais”, esclarece Marcos Vinicius Ferrari, professor de literatura. A partir desse ponto de vista, percebemos que é necessário discutir não somente a escrita e o enredo, mas também a representatividade entre os autores, onde, entre tantas, a literatura feminista e LGBTQIA+, estão ganhando visibilidade.

 “As instituições deveriam saber que possuem consciência sobre o papel de influência da construção do gosto literário e que sempre propusessem um olhar diverso para literatura, um olhar sem preconceito”, comenta Viera. Dessa maneira, o fato de pessoas não perceberem que desconfiam de certos gêneros e autores, mostra o quão influentes as instituições podem ser na vida dos indivíduos.

Literatura

Em toda a história da literatura, sempre houve uma hierarquia de gêneros. Os gêneros como romances, mistérios policiais, infantojuvenis e de autoajuda sempre foram colocados nas posições mais baixas nos rankings, pois, muitas vezes, eles não possuem o objetivo central de ser didático, e sim de ser uma forma de diversão. Contudo, se alguém consegue se divertir com o livro, mas tirar alguma lição de moral ou aprender novos vocabulários e até mesmo criar uma empatia, ao ver uma realidade que não é a própria, acaba se utilizando do livro de entretenimento como um livro de ensinamento.

“O que a literatura tem a oferecer, não se restringe só à parte teórica, técnica e de forma. Se transmite conteúdo, que agrega alguma coisa para quem está lendo, sendo desde o conhecimento científico até o entretenimento, a literatura se torna válida, independentemente da forma em que ela aparece”, argumenta Cinthia.

Não bastando essa implicância com determinados tipos de livros, aqui, no Brasil, há ainda uma relutância com autores brasileiros. O complexo de vira-lata que existe no país, muitas vezes, não permite que escritas nacionais ganhem tanta visibilidade dentro do próprio território, como escritas internacionais.

“O texto literário é o texto mais rico que existe”, afirma Ferrari. Assim, não julgar os gêneros, permite que mais pessoas se sintam à vontade para entrar no universo literário, e ele ainda menciona: “Nem todo mundo começa lendo a grande literatura. É preciso que as pessoas comecem a ler o que elas gostam e se sintam provocadas e estimuladas a ler outras coisas”.

Todos os entrevistados concordam que a leitura é necessária, independente da forma em que o leitor a adquiri. A leitura só traz benefícios e ajuda na vida dos indivíduos.

Diante de uma prateleira de uma livraria, podemos conhecer novos mundos, reaprender sobre coisas que já sabemos, conhecer história de vidas de pessoas que admiramos ou ler conselhos para uma vida melhor, mas qualquer que seja a escolha, aprendemos muitos, pois a literatura por si só, já é um conhecimento.

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Por Sofia Luppi Palacine – Fala! PUC

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