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O Mundo Não Está Chato – Crônica para Refletir no Meio da Semana

O Mundo Não Está Chato – Crônica para Refletir no Meio da Semana

Título: Quem Dera.

Deve ser mais fácil desfazer um átomo do que um preconceito. O homem controlou o fogo, descobriu o tempo, o porquê da vida, o porquê das coisas, inventa utilidades da mais alta linha tecnológica, mas não consegue se abrir ao diferente – seja ele negro, gay ou mulher. Eu nunca entendi esse dom do ser humano de alcançar o impossível mas não saber lidar com a simplicidade.

Nós, brasileiros, crescemos com a ideia – vendida e furada – de viver em um país de democracia racial e de gênero. Aquela em que o branco, o preto, o índio, a mulher, o homem hétero e o homem homossexual vivem em completa e perfeita harmonia. Eu, sinceramente, não sei por quem essa democracia utópica é vista. Meu amigo negro continua sendo barrado na portaria do prédio. Tentaram estuprar uma menina na porta de sua casa semana passada. A cada 26 horas morre um gay no Brasil. Que democracia diferente essa nossa.

É que eu sou um privilegiado. Sou branco e faço parte daquela parcela da sociedade que não vai ser estuprado, que pode perguntar as horas sem ninguém esconder a bolsa e que não vai ser morto por um policial. Cresci ouvindo da minha mãe que meu mal era sono. Bem que todo mal poderia ser sono mesmo. Quem dera fosse.

Por isso sinto a dor de quem sofre tudo isso. Por isso discuto esses assuntos sempre que posso. As pessoas têm medo de discutir esses temas. Deve ser porque mostra todos os preconceitos que a gente praticou, pratica e vai continuar praticando. Você sabe e eu sei.

Cabe a mim quebrar aquele preconceito que, infelizmente, sempre existe em nós, lá no fundo. Todos nós acusamos os outros de racistas, machistas e homofóbicos, mas esquecemos que também somos racistas, machistas e homofóbicos. Não em um grau Eduardo Cunha ou Donald Trump de imbecilidade. Mas aqueles preconceitos que, infelizmente, a sociedade nos impôs ao nascer. Às vezes, o nosso maior erro é apontar nos outros algo que recusamos aceitar em nós mesmos.

Esse preconceito tênue é o mais difícil de ser combatido. Mas, quanto a mim, resta me policiar e explicar para minha avó que o “menino de cor” não é ladrão e que homem beijar outro homem na novela não é um insulto para Jesus. Minha avó é discípula do Datena, como toda avó. Minha avó torce para a polícia pegar o bandido antes dele entrar na favela na perseguição ao vivo, como quem torce pro Tom pegar o Jerry antes dele entrar em sua toca. Mas minha avó é uma pessoa do bem, como toda avó. Daquelas que vai à igreja todo domingo e faz bolinhos de chuva. Eu juro.

Enfim, caminhamos sempre a passos lentos, mas firmes. Isso que me deixa tranquilo. A informação chega mais fácil, as pessoas têm colocado a boca no trombone – embora existam aqueles que colocam a boca no trombone exageradamente. Há quem diga que o mundo tá chato. Eu digo que o mundo tá sensacional.

Aquele  mesmo mundo que já acusou aqueles que defendem um meio que não estão inseridos. O mundo que julga brancos que defendem negros. O mundo que espanca homossexual simplesmente por espancar. O mundo que não tem medo de pegar um táxi e ser estuprado. Mas esse mundo tá acabando. E se esse mundo babaca é conhecido como mundo legal, o mundo chato deve ser bem mais interessante.

Talvez, num futuro distante, distante mesmo, toda essa disparidade seja vista com repúdio.

Que coisa. Bem que todo esse mal pudesse ser só sono, né mãe.

Quem dera fosse.

 

Pensando
Foto: organicsnewsbrasil.com.br.

 

Por: Leonardo Martins – Fala!Cásper

1 Comentário

  1. Caroline
    3 anos ago

    Sensacional!
    Que os nossos passos permaneçam firmes!