O machismo silencia - Influência na denúncia de casos de estupro
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O machismo silencia – Influência na denúncia de casos de estupro

O machismo silencia – Influência na denúncia de casos de estupro

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Todo ano cerca de 50 mil mulheres são estupradas no Brasil, segundo dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Esse é um número que não corresponde à realidade de casos, pois, representa apenas os que foram formalmente notificados, correspondendo apenas 10% dos que realmente aconteceram (levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Em suma, mais de meio milhão de brasileiras são estupradas por ano, mas muitas permanecem em silêncio devido à cultura do estupro.

Cultura do estupro

Considerada como uma cultura, essa prática social passa a ser reconhecida por ser algo que acontece corriqueiramente, mas que ainda é muito pouco falada. É denominada cultura do estupro o conjunto de violências simbólicas que tornam possíveis a tolerância e estímulo à violência sexual.

Dadas as heranças socioculturais machistas, essa cultura constrói os homens como aqueles que detêm o poder sexual e que, portanto, tem o direito de exercê-lo sobre uma mulher da forma que julgarem necessária, além de ensiná-los a aproveitarem toda e qualquer oportunidade de consumação do ato por meio da negação do “não” e insistirem até conseguirem um “sim”.

Afetando sobretudo as mulheres, a cultura do estupro estereotipa e reprime a sexualidade delas, objetificando-as e culpando-as caso não sigam as chamadas “regras de conduta”, que são inseridas em suas respectivas vidas desde muito cedo (qual o tipo e o tamanho de roupa vestir quando for andar na rua, como se comportar, quanto e como beber, quais horários não devem sair de casa) e que, querendo ou não, deposita responsabilidade nessas mulheres sobre as ações de terceiros contra sua integridade sexual.

cultura do estupro
Estereótipos. | Foto: Reprodução.

Como isso influencia no silenciamento de vítimas de estupro?

Todas essas construções sociais que a cultura do estupro cria, a partir do momento em que a vítima é considerada responsável pelo crime, é criado um identitário de “mulher para casar” e “aquela que é desviada”, sendo sempre a considerada “desviada” aquela que mais “estava pedindo” para acontecer com ela (segundo o IPEA, 59% dos brasileiros acreditam que existe “essa dualidade feminina” e 58% creem que se elas soubessem como se portar em sociedade, haveria menos casos de estupros).

É criado um imaginário coletivo  de vítima que, de certa forma, descaracteriza o estupro como algo criminoso e faz com que a própria mulher que sofreu com o crime, muitas vezes, não o reconheça.  Além disso, a estratégia de ficar julgando o comportamento da vítima faz com que ela seja sempre desacreditada, principalmente pelas autoridades: uma mulher ou menina que resiste fisicamente contra seu agressor, apresenta marcas e sua tentativa de sobrevivência é considerada como ato heroico e uma prova de que realmente sofreu com aquilo (mulheres que não apresentam marcas são muito mais questionadas).

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O machismo influencia no silenciamento de vítimas de estupro. | Foto: Reprodução.

Exemplos da vida real

A jovem blogueira Mariana Ferrer, 23, em 16 de dezembro de 2018, foi vítima de um estupro em Florianópolis. Na época, com 21 anos, Mariana foi dopada em um ‘beach club’ em Santa Catarina (Cafe de La Musique) e, posteriormente, estuprada pelo empresário André Aranha, 43 anos.

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Mariana Ferrer e André Aranha. | Foto: Reprodução.

Após o ocorrido, a jovem passou a usar suas redes sociais para contar o caso e apontar erros que passaram a ocorrer na investigação graças à influência de seu agressor (André é filho do advogado Luiz de Camargo Aranha que já representou nomes como a TV Globo) sobre o sistema judiciário.

No dia 18 de agosto, terça-feira, a conta do Instagram de Mariana foi apagada através de uma medida judicial acatada na data. No dia seguinte, a hashtag #JUSTIÇAPORMARIFERRER foi utilizada pelos internautas como forma de demonstrar indignação: pediam o cancelamento da liminar que havia retirado do ar a conta da modelo.

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Por Julia Neves Silva – Fala! Cásper

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