O inconsequente comportamento das classes abastadas na pandemia
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O inconsequente comportamento das classes abastadas na pandemia

O inconsequente comportamento das classes abastadas na pandemia

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Classes médias e altas tratam a Covid-19 com descaso ao desrespeitar protocolos de prevenção e provocar aglomerações

A chegada da Covid-19 no Brasil, no começo deste ano, fez com que a população adotasse práticas de higiene rígidas. Lavar adequadamente as mãos, utilizar álcool gel e máscara foram algumas das principais orientações transmitidas. Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou que todos aderissem ao isolamento social para controlar os níveis de contágio.

No entanto, cidadãos da classe média e alta ainda tentam resistir às ordens, lidando com descaso às turbulentas situações provocadas pela pandemia. Com isso, tem-se visto muitas aglomerações, como em bares e restaurantes.

Essa parcela da população tem se negado, até os dias de hoje, a utilizar máscara, mesmo sendo um método preventivo obrigatório que diminui as chances de infecção. Manter o distanciamento social é outro problema que a elite tem dificuldade em respeitar.

O professor do Liceu Jardim, Alexandre Vieira da Silva, formado em Letras pela Universidade de Campinas, com pós-graduação em História da Arte pela FAAP, em entrevista, afirma que esse negacionismo é um traço muito presente da pandemia no país.

Penso que isso parte da construção da ideia de cidadania. A chegada dos portugueses junto a todos os ciclos econômicos pelos quais nós passamos e a presença forte do processo de escravização, de alguma forma, impactou na organização da sociedade ao longo do século XX. Quando pensamos no não uso da máscara e vemos uma quebra frequente do isolamento, às vezes, por motivos banais, como bares e praias, a gente percebe que o brasileiro tem pouca consciência com relação à coletividade.

Enfatiza o professor.

Comportamento das classes média e alta na pandemia

Com relação ao descumprimento com a quarentena, Gabriela Pugliesi e Zé Neto, da dupla Zé Neto & Cristiano, foram alguns dos grandes exemplos do ano. A influenciadora digital foi diagnosticada com coronavírus já no mês de março, com relatos de mal-estar, dores no corpo e incômodos para dormir. No mês seguinte do contágio, publicou, nas redes sociais, vídeos e fotos de uma festa que estava fazendo em sua casa com os amigos.

Já cantor Zé Neto, manteve-se afastado da família ao testar positivo com declarações de estar se sentindo muito mal. No entanto, um mês depois, rompeu com o isolamento ao se encontrar com colegas em uma fazenda. Todos estavam sem máscara.

Por mais que o cantor sertanejo e a influenciadora Pugliesi já estivessem recuperados, ainda se mantém o dever deles, como cidadãos, de respeitarem as orientações dos órgãos de saúde. Há uma enorme falta de empatia com a sociedade quando tratam um vírus, que já matou milhares de pessoas, com tamanho descaso.

Mas não é apenas famoso que pertence a esse grupo de privilegiados que negligencia a Covid-19. Em São Paulo, a abertura de bares e restaurantes, nas cidades em fase amarela, contribuiu ainda mais para o aumento das aglomerações. O Plano São Paulo estabelece, como protocolo, que os espaços funcionem até às 22h, mantendo um número restrito de clientes e seguindo os critérios de prevenção. Contudo, foi possível registrar aglomeração em um bar de Mogi das Cruzes. No local, algumas pessoas se encontravam sem máscara e sem obedecer ao distanciamento social.

A reabertura, também no Rio de Janeiro, impactou no descumprimento de regulamentos. Inclusive, houve um vídeo que circulou muito pelas redes sociais de um casal que, além de estar contribuindo com uma aglomeração, discutiam com um fiscal da Vigilância Sanitária. “Cidadão, não. Engenheiro civil, formado, melhor que você”, enuncia a mulher. Essa ideia, de que ter nível superior completo é motivo para ser melhor que os outros e para achar que está livre da pandemia, foi construída historicamente e de forma irracional.

classes média e alta na pandemia
Classes média e alta provocam aglomeração no Rio de Janeiro. | Foto: TV Globo.

Segundo o Alexandre Vieira, esse comportamento pode ser explicado historicamente com a separação entre a Casa Grande e a senzala. “Houve a construção de um país primeiramente para uma elite e, posteriormente, para os desfavorecidos, por exemplo, os escravizados e todas as tribos indígenas. E, quando chegamos agora, no século XXI, o sentimento de Casa Grande e senzala se mantém, perpetuando-se no acesso a plano de saúde, já que, quem o tem, sente-se mais seguro com relação à pandemia”, afirma. 

O problema é que a falta de responsabilidade e consciência da classe média e alta acarreta na vida da sociedade como um todo. Não apenas esse setor social é afetado, as classes mais baixas também são, sendo que, conforme o Ministério da Saúde, 65% das mortes por Covid-19 no Brasil foram em hospitais públicos.

A pandemia vai ganhando narrativas das pessoas mais desfavorecidas, de todos que precisam acessar o transporte público, porque não conseguem fazer o home office. Parece que o home office também ficou para uma classe de privilegiados. Essas pessoas mais expostas acabam ganhando o centro do noticiário. Elas dão uma biografia para as vítimas da pandemia. É um comportamento inconsequente das classes mais abastardas que, justamente por se entenderem mais protegidas, acabam se comportando como se somente a vida deles importasse. Mas os piores efeitos da crise estão com quem está na linha de frente, os que estão expostos todos os dias.

Exprime o professor Alexandre Vieira.  

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Por Giovana Yamaki – Fala! PUC

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