'O Gambito da Rainha': tudo sobre a nova minissérie da Netflix
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‘O Gambito da Rainha’: tudo sobre a nova minissérie da Netflix

‘O Gambito da Rainha’: tudo sobre a nova minissérie da Netflix

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A nova minissérie da Netflix, O Gambito da Rainha, mostra como uma jovem se tornou campeã mundial de xadrez nos anos 60. O título também já se tornou um dos mais assistidos da plataforma de streaming.

Essas afirmações não parecem muito compatíveis, certo?

Mesmo que à primeira vista a história não tenha um apelo muito interessante, O Gambito da Rainha vai muito além da movimentação de torres e peões pelas casas do tabuleiro quadriculado. A minissérie é um retrato da humanidade e todos os seus vícios, abordando assuntos como feminismo, dependência em drogas e álcool, depressão, solidão, amizade, família e amadurecimento.

o gambito e a rainha netflix
O Gambito da Rainha, a nova minissérie da Netflix. | Foto: Reprodução.

O Gambito da Rainha

A minissérie é baseada no livro homônimo de Walter Tevis, de 1983, que sofreu diversas tentativas de adaptação desde os anos 90, até ser anunciada pela Netflix, em março de 2019. Em entrevista para a Federação Estadunidense de Xadrez, o editor da revista Chess Life, John Hartmann, disse que o livro é “uma obra que deve ser lida diversas vezes por todos aqueles que têm alguma afinidade com o xadrez, e a série é brilhante e tem drama o suficiente para cativar até aqueles que não conhecem o jogo”.

A atriz Anya Taylor-Joy (A Bruxa; Fragmentado) interpreta, de forma brilhante, a garota-prodígio Beth Harmon. O drama em sete episódios se inicia quando Beth é levada a um orfanato, com apenas 8 anos. Nele, ela entra em contato com dois vícios que a acompanharão por toda sua trajetória: um é uma pílula calmante e alucinógena, e o outro é o xadrez.

Após anos vivendo no orfanato, Beth é adotada por Alma Wheatley, interpretada por Marielle Heller (diretora de Um Lindo Dia na Vizinhança), que se torna sua mãe e amiga, além de agente, e a incentiva a competir em torneios de xadrez por todo os Estados Unidos. Rapidamente, ela fica conhecida por vencer ininterruptamente e se destacar em um ambiente majoritariamente masculino. A história acompanha sua trajetória como campeã no xadrez,  regada a calmantes, álcool, competições, amizades improváveis, relacionamentos e tudo em meio à jornada de autoconhecimento e amadurecimento pela qual todos passam em algum momento da vida.

A produção é assinada pelo cineasta e roteirista Scott Frank (Logan) e pelo roteirista Allan Scott. Ela também conta com a participação dos Mestres Enxadristas Bruce Pandolfini e Garry Kasparov, como consultores e coreógrafos, e dos atores Thomas Brodie-Sangster (Game of Thrones), Harry Melling (Harry Potter), Bill Camp (12 Anos de Escravidão) e o ator polonês Marcin Dorocinski. Curiosamente, o elenco jovem não era familiarizado com o xadrez antes das filmagens, e em entrevista ao The Hollywood Reporter, Anya Taylor-Joy diz que as sequências de xadrez rápido foram as mais divertidas de aprender e que nunca se sentiu tão orgulhosa de ter feito algo. 

xadrez
O xadrez ganha protagonismo na trama. | Foto: Reprodução.

Destaques da minissérie

Um dos destaques da produção são os figurinos impecáveis, obra da figurinista Gabriele Binder, que acompanham não só as mudanças da moda entre as décadas de 50 e 60, mas também as mudanças na vida de Beth, indo de vestidos longos e rodados quando ela tem 15 anos, a calças jeans e minissaias aos 20, apontando seu amadurecimento e sua autoconfiança.

Binder comenta para a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA) que cada personagem tem uma personalidade única, e que ela quis incorporar isso em seus estilos de modo que cada um se sobressaísse nas multidões por um motivo diferente. Também é válido apontar que, entre os dias 30 de outubro e 30 de dezembro, os figurinos de O Gambito da Rainha ficarão disponíveis em um tour virtual 360°, interativo e gratuito pelo site do Brooklyn Museum (thequeenandthecrown.com), junto com os figurinos da série The Crown, também assinados por Binder.

moda O Gambito da Rainha
A moda também se destaca em O Gambito da Rainha. | Foto: Reprodução.

Temas abordados na produção

De início, a minissérie causa estranhamento, especialmente pelo xadrez não ser tão comum no cotidiano dos brasileiros atualmente. Muitos dos espectadores provavelmente ainda não eram nem nascidos nos anos 70 e 80, época em que o xadrez era muito apreciado no país, e quando o Grande Mestre Mequinho se tornou o terceiro maior enxadrista do mundo, ficando atrás apenas de Anatoly Karpov e Viktor Korchnoi. Outro destaque brasileiro foi o escritor Machado de Assis, a quem pertence o primeiro problema enxadrístico publicado no país, na revista Ilustração Brasileira, em junho de 1877. 

Apesar desse estranhamento inicial pelo tema principal, o espectador é rapidamente cativado pelo enredo dramático, por personagens muito bem construídos e arcos de desenvolvimento significativos, além da identificação quase instantânea com muitos traços da protagonista.

Desde o início, Beth se mostra uma pessoa com dificuldades em interagir com os outros, chegando a ser rude em diversos momentos. Ao longo da série, esse seu lado se torna mais brando, mas, ainda assim, sempre presente, como se ela nunca pertencesse de fato ao ambiente em que está – o que só deixa de acontecer nos momentos em que joga xadrez. No fundo, essa dificuldade de se relacionar e interagir não é algo que todos sentem, em algum momento ou outro?

Seus vícios, tanto em calmantes quanto em álcool, também são partes essenciais da personagem. Ela os sustenta por acreditar que precisa daquilo para ser boa no que faz, e em certos momentos, são justamente esses vícios que quase a levam à ruína.

Ian Rogers, Grande Mestre australiano, aponta que os vícios são “a única coisa capaz de parar sua genialidade e sua ascensão. A embriaguez de Beth pode parecer exagerada, porém muitos Grandes Mestres foram escravos do álcool”. Como mencionado diversas vezes ao longo dos episódios, há apenas uma linha tênue separando a genialidade e a loucura, o que não deve ser apenas licença poética, considerando que Walter Tevis, o escritor da obra original, também era um enxadrista com problemas de alcoolismo e vício em medicamentos.

Outro tema, crucial para a vida de Beth Harmon, é o feminismo. A segunda onda feminista teve início na década de 60, e apesar de não ser abordado diretamente, é possível ver as mudanças que ocorrem nas mulheres ao seu redor, tantos nas que rejeitam o movimento, quanto naquelas que o abraçam, com destaque para a personagem Jolene, interpretada por Moses Ingram, que diz querer mudar o mundo se tornando advogada, mas que também gostaria de se juntar às revolucionárias.

Desde o início, fica claro que Beth não entende e não aceita que as pessoas comentam quase que exclusivamente sobre seu gênero, e não sobre suas vitórias recentes ou sobre o que disse em entrevistas. “Beth não quer ser a melhor enxadrista mulher do mundo, ela quer ser a melhor enxadrista do mundo e ponto”, comenta Anya Taylor-Joy. “A impressão que temos é que ela nunca recebeu o livro que diz o que as mulheres podem ou não fazer, por permanecer sempre ligeiramente afastada da sociedade em geral”. 

A atriz ainda diz acreditar que Beth não é vitoriosa por provar que é tão boa quanto, ou até melhor que os homens, uma vez que todas as mulheres no mundo estão em ambientes dominados por homens, não apenas ela. A minissérie deixa a mensagem de que é preciso aceitar todas as suas particularidades, sem se moldar por causa do ambiente em que se está inserida e nem se deixar abalar por não ter outras mulheres à sua volta.

O Gambito da Rainha é uma história que disseca a genialidade, a autodestruição, a solidão e os seres humanos em geral, com  uma trama inteligente, forte e surpreendente que provavelmente está deixando muitas pessoas de ressaca pós-maratona, e que, esperançosamente, desperte o interesse de muitas pessoas jovens por esse jogo milenar de estratégia que é o xadrez.

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Por Bruna Janz – Fala! PUC

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