'O Farol': A loucura e a pluralidade nas interpretações
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‘O Farol’: A loucura e a pluralidade nas interpretações

‘O Farol’: A loucura e a pluralidade nas interpretações

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O Farol, de fato, é uma das melhores experiências fílmicas produzidas nos últimos anos, especialmente em 2019, onde (no Brasil) foi ofuscado pelo gigante filme do ano, Parasita. Embora o filme de Bong Joon-ho tenha sido o grande destaque, juntamente com os filmes de Tarantino, Scorsese e Mendes, é muito válido que todos conheçam este que, na minha opinião, foi o maior injustiçado nas premiações ao redor do mundo naquele ano.

O filme aborda uma história que, a princípio, é muito simples: no final do século XIX, dois homens vão trabalhar em um farol por um determinado período e, assim, a história começa. Porém, o longa se mostra muito profundo ao analisarmos os detalhes, que existem em todas as camadas da obra, e o mérito da alta qualidade do filme se dá principalmente ao diretor e roteirista Robert Eggers, um dos mais promissores dos últimos anos, que dirigiu também o excelente A Bruxa (2015).

O Farol
O Farol (2019). | Foto: Filmgrab.

A grande qualidade de Eggers é a sua dedicação ao filme, o sentimento que nos passa é de que ele pesquisou cada centímetro daquilo que nos é mostrado, e realmente é o que ele fez, houve um grande trabalho de pesquisa para a realização do filme; ele foi atrás de documentos com relatos de marinheiros dos anos 1890 e pesquisou sobre os jargões e dialetos arcaicos para serem usados nas falas dos protagonistas. Uma curiosidade, pessoas que têm o inglês como língua nativa se perderam nas falas do personagem de Willem Dafoe devido à maestria do ator ao reproduzir a fala da época.

O cuidado se estendeu aos quesitos técnicos, do roteiro à edição, tudo ajuda a desenvolver a narrativa de certa forma. Foram usadas lentes dos anos 1930 e até mesmo de 1905, para capturarem as imagens do filme da exata forma com que o diretor queria.

Ele também recusou a ideia de fazer todo o cenário por computação gráfica, pois queria o máximo de imersão possível na obra final. Além disso, o preto e branco do filme dá um tenso ar de depressão, que somado à exibição no formato 1.19:1, nos coloca um sentimento de claustrofobia intenso, assim como o sentido pelos personagens, e ajuda a destacar os closes e dar mais presença a objetos verticais no enquadramento, neste caso, o próprio farol.

Poderia escrever um livro apenas discutindo as qualidades técnicas do filme; falar sobre a incrível montagem e seu impacto na nossa percepção do tempo; sobre a excelência na manipulação da luz; poderia citar as referências a Kubrick, Hitchcock e Lovecraft, ou o fato de que cada plano do filme daria um ótimo quadro na minha parede; mas, falarei sobre o final do longa e suas possíveis interpretações.

Portanto, se você, leitor que ainda não assistiu ao filme e possui pavor de spoilers, pare por aqui, vá assistir neste exato momento (eu sei que o que foi dito já foi suficiente para te convencer a fazer isso) e depois volte para continuar a sua leitura, será um prazer discutir com você sobre o final.

Final de O Farol

O filme é uma ótima pedida para o momento de isolamento pelo qual estamos passando, pois mostra seus desdobramentos caso ocorra em uma escala maior, e uma das principais consequências é a loucura, e é a partir dela que o final se torna aberto, a ponto de nos permitir teorizar sobre misticismo e coisas sobrenaturais. Sendo assim, preparei cinco das melhores interpretações para o final do filme.

Lembrando que nem sempre é preciso decifrar o final ou a história de um filme, nenhuma teoria é a correta, apenas escolha aquela que mais te agrade e aproveite a experiência, essa é a graça dos finais abertos!

1- Os dois Thomas são apenas simples colegas de trabalho

Esta é a possibilidade mais simples e pé no chão. Segundo esta visão, Thomas Wake (Willem Dafoe) é um opressor e se acha superior para abusar dos trabalhos de Thomas Howard (Robert Pattinson), não existe nenhuma magia relacionada ao farol, ele apenas garante o poder e superioridade para quem detém a posição privilegiada, esta que traz mais calmaria, calor e literalmente fica acima de tudo, o que explicaria o comportamento do protagonista mais velho em relação ao farol.

A maldição das gaivotas (uma teoria que aborda a possibilidade de as gaivotas da ilha estarem possuídas por forças malignas) não passa de coincidência, e toda aquela questão da cena da Sereia e da transformação de Wake são apenas alucinações. A mística da luz do Farol e sua consequência em Thomas Howard no final também é resultado de loucura.

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Os dois Thomas são apenas simples colegas de trabalho. | Foto: Filmgrab.

2- Thomas Howard nunca chegou ao farol

Nesta interpretação, o personagem vivido por Pattinson morreu antes de chegar ao farol e as gaivotas comeram suas entranhas após o naufrágio (último plano do filme) proveniente da destruição do barco.

Nada que aconteceu no filme é real, apenas um delírio; ou, uma visão mais interessante: o farol é o inferno e todo o sofrimento de Thomas, na verdade, é a forma escolhida para ele pagar seus pecados cometidos em vida.

Thomas Howard o farol
Thomas Howard nunca chegou ao farol. | Foto: Filmgrab.

3- Os dois Thomas são um só

Ainda seguindo a linha de que nada é sobrenatural, podemos considerar que os dois Thomas são a mesma pessoa e todos os diálogos e interações ocorreram apenas na mente dele. Sendo assim, o filme se trata do conflito entre duas personalidades desenvolvidas após o longo isolamento somado à carência e solidão.

Esta teoria se torna muito válida por dois principais fatores, primeiro: os dois personagens possuem o mesmo nome, e isso não foi uma coincidência; segundo: no clímax, Wake destrói o barco e corre atrás de Howard com um machado (no melhor estilo Jack Nicholson em O Iluminado), porém, alguns minutos depois, Wake diz que foi Howard que fez tais coisas, e detalhe: Howard não nega a afirmação e não apresenta nenhuma reação de estranhamento.

O Farol 2019
Os dois Thomas são um só. | Foto: Filmgrab.

4- Thomas Wake é uma representação de Proteu

Agora, partindo para teorias que flertam com um lado mais sobrenatural da obra, partimos do pressuposto de que Thomas Wake é uma criatura capaz de se transformar, pois há um momento em que Howard vê isso acontecendo, escondido, e em outro é mostrado durante uma briga, entre os dois Thomas, uma bizarra transformação; e isto exclui a possibilidade de Howard ser louco e estar apenas tendo alucinações.

Em uma visão mais detalhada, percebemos que Wake se transforma em sereia para aproveitar-se sexualmente de Howard (sim, nesta teoria, aquela cena é real). Aqui, Wake seria uma representação de Proteu, que na mitologia grega é retratado como um ancião capaz de mudar de forma e prever o futuro, além de ser pertencente ao mar, o que faz todo o sentido no contexto e ambientação do filme.

final o farol
Thomas Wake é uma representação de Proteu. | Foto: Filmgrab.

5- O Farol é uma entidade viva

Indo ainda mais fundo, o Farol aqui é uma entidade viva que demanda reparos com o passar do tempo, sendo assim, torna-se necessário duas pessoas para cuidarem dos incontáveis problemas que cercam aquela ilha.

Além disso, há uma incoerência na motivação dos marinheiros em cuidar do Farol, pois ele não cumpre a sua função de ajudar os barcos, uma vez que por ali não passa nenhum. Por que eles cuidariam tanto de um farol que não serve para nada?

Essas foram apenas cinco das milhares interpretações que a obra permite, o que faz com que o filme seja grandioso. De fato, é uma das obras mais singulares da última década. Mas e aí, qual foi sua interpretação favorita?

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O Farol é uma entidade viva. | Foto: Filmgrab.

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Por Pedro Freitas – Fala! UFG

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