'O Escândalo': Saiba tudo sobre o filme
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‘O Escândalo’: Saiba tudo sobre o filme

‘O Escândalo’: Saiba tudo sobre o filme

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Ao fim de agosto de 2020, o filme O Escândalo entrou para o catálogo da Amazon Prime Video, serviço de streaming da empresa de mesmo nome. Dirigido por Jay Roach e lançado em 2019, a premissa do longa é retratar as denúncias de assédio ocorridas contra Roger Ailes, presidente da Fox News, emissora conhecida por ser porta-voz, nos Estados Unidos, da população republicana e mais conservadora.

O resultado da produção foi três indicações ao Oscar, dentre elas uma vitória na categoria de melhor maquiagem e penteado, e muitos outros prêmios minoritários, mas ainda assim importantes. No entanto, não se pode afirmar, com convicção, que o retrato do machismo e abuso de poder no ambiente de trabalho é realizado sem quaisquer falhas, O Escândalo peca em diversos aspectos, apesar da intenção positiva.

O Escândalo
Filme O Escândalo. | Foto: Reprodução. 

O Escândalo

Já de início, o telespectador é apresentado a uma das protagonistas, Megyn Kelly, jornalista e âncora da Fox News no período que se passa a história, quem a interpreta é Charlize Theron, caracterizada tão perfeitamente que as duas, a atriz e a inspiração para a personagem, parecem a mesma pessoa.

Ela, nesse momento, conversa com a câmera, quebra a quarta parede enquanto introduz como é o ambiente de trabalho na emissora, o que deduz uma comicidade e traz o entendimento de que as críticas serão realizadas quase como uma paródia, carregadas de humor.

Sobre a questão que norteia a obra, ou ao menos deveria, o assédio sexual, no primeiro ato, é deixado de lado, ao passo que cede os holofotes para a exposição dos personagens, suas personalidades, a maneira que se relacionam com a Fox News e suas posições políticas: Megyn Kelly, a mais bem-sucedida das três principais, não se define como feminista, embora entreviste o então candidato à presidência Donald Trump e cause grande polêmica entre seus apoiadores após o colocar em saia justa ao vivo, enquanto o questiona quanto ao desrespeito às mulheres e à misoginia que ele demonstra.

Já Gretchen Carlson, também âncora, interpretada por Nicole Kidman, é revelada como alguém cuja carreira está decadente, ela sabe que futuramente será demitida, por vezes age como se não tivesse nada a perder e vai contra os valores da emissora. Por fim, há Kayla Pospisil, essa fictícia, criada para o longa que Margot Robbie dá vida, é uma novata, jovem, conservadora e animada para crescer profissionalmente. 

O presidente da emissora, Roger Ailes, primeiramente, também é deixado em segundo plano, e quando aparece age como a familiar figura do homem branco idoso que é preconceituoso e retrógrado, porém é perdoado por tal, pois está em uma idade avançada e auxiliou muitos de seus funcionários, a que custo é assunto para depois, mais à frente no filme. A construção dessa personagem é, de certa forma, interessante, de modo que não apresenta o assediador como um completo monstro, alguém longe da realidade; em total oposição ele é aproximado dela, tal qual carrega a reflexão de como a sociedade releva e convive com comportamentos predatórios que não deveriam ser naturalizados. 

A questão do assédio na trama

O assédio assume suas primeiras formas quando o superior determina que as âncoras devem usar vestidos ao invés de calças para que consigam segurar a audiência na televisão, tal medida é a justificativa que o homem utiliza para observar os corpos das mulheres que trabalham com ele, bem como ocorreu com Kayla na, talvez, cena mais intensa da produção. Nela, a jornalista é convidada para conhecer Roger Ailes em seu escritório e exprime seu desejo de trabalhar em frente às câmeras, ele, nesse contexto, pede que ela desfile e levante seu vestido. O maior equívoco do longa é esse: um momento de tamanho clímax unido com o trabalho de câmera divertido não combinou nem um pouco, beira o desrespeito com uma temática tão sensível como essa, a cena não deveria ser cômica, tampouco explícita, o que procedeu.

 A primeira denúncia contra o chefe da Fox News sucede após a demissão de Gretchen Carlson, ela conta o que aconteceu com ela e, para ganhar na justiça, espera que outras mulheres também quebrem o silêncio, uma vez que sabia que não era, nem de longe, a única. Nesse viés, se edifica a expectativa de que as protagonistas interajam entre si durante o conflito, o que não se efetiva, as três estão conectadas por razão de serem mulheres naquele ambiente opressor, é visível; o roteiro, todavia, poderia brilhar mais intensamente se suas histórias fossem, de fato, interseccionadas. A produção se arrasta desorganizadamente, por consequência direta da individualidade das personagens e as circunstâncias em que elas estão.

Finalmente se verifica que um assunto que tinha potencial para ser explorado amplamente seguiu rumos superficiais, que não fazem jus à seriedade necessária para tratar de um tipo de violência sofrida, desgraçadamente, por tantas mulheres.

O desfecho é um tanto quanto preguiçoso e irrealista: sem explicação, alguma diversas outras vítimas do empresário se manifestam e apoiam o relato de Gretchen, como se fosse uma decisão nada complicada e, assim, Megyn Kelly acaba por também contar como sofreu assédio e, dada sua influência, o derruba de vez.

Outro elemento não fidedigno é a cena final, na qual todas as mulheres vestem calças compridas no lugar dos vestidos reveladores, esse momento serve como uma metáfora para o limite da compreensão masculina diante de situações pouco, ou nunca, vivenciadas por eles: não basta a renúncia de um homem abusivo e poderoso para cessar com o assédio e demais comportamentos machistas no ambiente de trabalho, sobretudo na Fox News, emissora que endossa muitas vezes o patriarcado, e vítimas dessas violências, após se identificarem publicamente como tal, sofrem duras represálias, fator ignorado no longa.  

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Por Maria Fernanda Maciel – Fala! Cásper

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