O embate entre leitores e a editora Galera Record
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O embate entre leitores e a editora Galera Record

O embate entre leitores e a editora Galera Record

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No Twitter, existe uma comunidade muito ativa de leitores, mais conhecida como booktwitter. Dentro desse meio, os usuários da rede formaram um espaço de trocas de experiências e opiniões sobre todo e qualquer tipo de leitura, além de também ser palco para tratar de outros assuntos inerentes ao cenário editorial e literário internacional e nacional. 

Pois bem, na última semana, emergiu novamente um antigo debate sobre a pirataria de livros no formato EPUB, PDF e MOBI, muito comum na plataforma, mas que tem uma regra rígida de não piratear livros nacionais. Muitos leitores e autores defendem essa prática alegando que seria um modo de promover certa democratização da leitura em um país como o Brasil, em que o livro é considerado artigo de luxo e um produto acessado, em sua maior parte, pela elite. Entretanto, outro lado dessa discussão não concorda com essa resolução: as editoras.

Leitores X editora Galera Record

Nesta quarta-feira (25), a editora e herdeira do Grupo Editorial Record, Rafaella Machado, fez uma publicação em sua rede social criticando a pirataria e utilizou um trocadilho referenciando o veredito polêmico de “estupro culposo” do caso Mari Ferrer.

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Reposta de Rafaella Machado na rede social. | Foto: Reprodução/ Twitter.

Com isso, muitos leitores se sentiram ofendidos e apontaram a insensibilidade da editora, que tweetou em seguida: “Pra mim é uma honra ser cancelada por lutar contra a pirataria (…)”. A partir daí, os ânimos ficaram ainda mais exaltados.

Thread pede ajuda a leitores e autores

Um perfil que faz parte do booktwitter, organizou uma thread dedicada a toda comunidade e aos autores, sinalizando um pedido de ajuda. A thread foi toda publicada em inglês a fim de alcançar os autores internacionais, que também são publicados aqui, no Brasil, pelo selo Galera Record do Grupo Editorial Record.

No conteúdo, estão várias queixas dos leitores em relação às publicações da editora, como o preço exorbitante dos livros, que muitas vezes se iguala ao de versões importadas, as traduções que contêm muitos erros e constantemente fazem whitewashing, termo utilizado para descrever uma ação de branqueamento de personagens em produções culturais, e já até provocaram a mudança de sexualidade de um personagem, que era gay no texto original.

Além disso, a thread também aponta a péssima qualidade dos livros vendidos pela editora, que vêm com páginas coladas umas as outras, capítulos faltando, lombadas que não seguem um padrão e páginas que ficam amareladas e manchadas com muita facilidade.

No fim da thread, a autora dos tweets fala aos autores e explica que, no Brasil, a maior parte da população não tem condições de pagar tão caro nos livros e não tem acesso a bibliotecas e, por isso, recorre à pirataria. Além de tudo, também é levantado o fato de que os leitores dessas grandes séries e sagas ficam reféns dessa editora, que é quem publica os títulos internacionais de maior sucesso no momento no País. 

Rapidamente, várias autoras comentaram a thread e manifestaram seu apoio, como Cassandra Clare (The Mortal Instruments), Holly Black (The Folk of Air), Sarah J. Mass (A Court of Thorns and Roses), Colleen Hoover (Without Merit), V. E. Schwab (Shades of Magic), Angie Thomas (The Hate U Give), Meg Cabot (The Princess Diaries), Rory Power (Wilder Girls), Kallyn Bayron (Cinderella is Dead), entre outras.

Repercussão na Internet

Depois de toda a repercussão da thread, que até o momento já tem mais de 16 mil curtidas, o perfil da Galera Record no Twitter publicou um comunicado sobre o ocorrido, falando sobre a qualidade dos livros, o branqueamento de personagens, os erros de diagramação e sobre a piada feita pela editora e herdeira do Grupo Editorial Record, Rafaella Machado.

Mas não comentou a mudança de sexualidade de diversos personagens, até que os leitores cobraram novamente. Então, a editora respondeu que vai disponibilizar eBooks gratuitos para quem solicitar com a tradução corrigida.

A editora Rafaella Machado, após dizer que era “uma honra ser cancelada por lutar contra a pirataria” e em seguida apagar o tweet em que fez a piada, também emitiu um comunicado em seu perfil no sábado (28), em que admitiu que o tweet foi um “equívoco absoluto”.

O booktwitter já propõe discussões como essa há algum tempo, mas nunca atingiu proporções tão grandes como agora, fruto da visibilidade alcançada pelo pronunciamento dessas grandes autoras.

Não é só a Galera Record que tem contas a prestar. Recentemente, a Editora Darkside também foi alvo de críticas por fazer whitewashing em uma edição de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, em que eles ilustraram Heathcliff como uma pessoa branca na capa, sendo que, no livro, o personagem tem pele escura, é descendente de ciganos e tem a trajetória marcada pelo racismo.

Além disso, o mercado editorial brasileiro é criticado por publicar mais livros internacionais e não dar muita oportunidade para o mercado literário brasileiro, que tem tantos autores geniais.

Diante de toda essa situação, o esperado é que as editoras reflitam sobre esse comportamento e construam um ambiente melhor para elas, os autores e os leitores.

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Por Letícia Fiuza – Fala! UFG

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