'O Diabo de Cada Dia' - Resenha crítica sobre o filme da Netflix
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‘O Diabo de Cada Dia’ – Resenha crítica sobre o filme da Netflix

‘O Diabo de Cada Dia’ – Resenha crítica sobre o filme da Netflix

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Agora, se perguntar à maioria das pessoas onde fica Knockemstiff, Ohio, ou Coal Creek, na Virgínia Ocidental, elas provavelmente não saberiam apontá-las num mapa. Mas garanto que elas estariam lá do mesmo jeito. Como e por que tantas pessoas desses dois lugares insignificantes no mapa podem acabar conectadas têm muito a ver com a nossa história. Alguns dirão que foi pura sorte, e outras jurarão que era vontade divina. Mas eu diria que, do jeito que as coisas aconteceram, foi um pouco das duas.

As primeiras cenas do filme já diziam que aquelas duas cidades insignificantes acabam se relacionando de alguma maneira quando uma série de eventos se desencadeia quando Willard Russell conhece Charlotte, uma garçonete, em Meade, Ohio no dia que ele volta da guerra, e se apaixona completamente por ela e tem vontade de iniciar uma família ao seu lado, mesmo que já estivesse comprometido pela sua mãe para Helen Hatton, que acaba se casando com o pregador Roy Laferty e tendo uma filha chamada Lenora.

O Diabo de Cada Dia é baseado no livro de Donald Ray Pollock, O Mal Nosso De Cada Dia. E seguindo o romance, o filme é composto de várias pequenas histórias que acabam eventualmente se entrelaçando. Você tem os Russells, os Lafertys, a Sand e o Carl, o Xerife Bodecker e o Reverendo Preston. E bem, talvez os eventos ocorridos não tenham sido apenas coincidências, mas sim, uma série de acontecimentos infelizes.

O Diabo de Cada Dia
O Diabo de Cada Dia. | Foto: Reprodução.

Crítica de O Diabo de Cada Dia

É um filme pesado. Não é um daqueles que você consegue assistir em um dia tedioso. O telespectador tem que estar em um bom lugar mentalmente para assistir ao thriller, então tome cuidado com os alertas de gatilho, afinal, o filme não é indicado para menores de 16 anos por acaso. Ele tem muito sangue e cenas envolvendo violência, suicídio e homicídio explícito, que não são agradáveis para os olhos. Apesar de que sua fotografia e paleta de cores fazem com que valha a pena assistir, já que foram tão perfeitamente executadas.

O filme contém muitos nomes conhecidos como Tom Holland, Robert Pattinson, Sebastian Stan e Bill Skarsgård. Mas, mesmo aqueles que não tão conhecidos apenas pelo nome ainda parecem familiares, como Mia Wasikowska, de Alice no País das Maravilhas, Harry Melling, de Harry Potter, e Eliza Scanlen, de Adoráveis Mulheres. Então, é confortável saber que os papéis estão na mão de atores ótimos, mas será que eles foram o suficiente? Cuidado! Temos alguns spoilers abaixo.

A presença de um narrador é essencial para entender como as pequenas histórias se conectam. E é legal saber que o diretor Antonio Campos escolheu Pollock, autor da obra original, para esse papel. Além de trazer um toque da obra original, é um Easter Egg que só pode ser descoberto quando os créditos rolam no fim do filme.

O filme aborda a fé e a crença, principalmente aquelas que envolvem religião, o que abre o debate sobre como o fanatismo religioso pode ser letal e extremista, levando as pessoas para caminho sombrio, como visto com Roy Laferty e Willard Russell, e todas as coisas que fizeram com a boa fé em Deus. É também muito interessante como eles pegaram esse contexto e também criticaram aqueles com altas posições na igreja como reverendos, vistos como pessoas do bem, e mostraram que eles podem não ser tão bons quanto parecem ser.

Robert Pattinson e seus monólogos são a prova de como palavras bem ditas podem seduzir alguém a fazer coisas que jamais fariam, e fazer com que pessoas do mal saiam bem dessa situação. E o sotaque que ele fez para interpretar Preston não estava funcionando. Parecia desleixado e engraçado, e não profundo e cativante como deveria ser. E o seu tempo de tela foi curto para ele ser considerado um personagem principal, o que é bem estranho.

Sebastian Stan foi uma decepção neste filme. Parece que o personagem dele apenas estava ali para fazer a ligação entre essas pequenas histórias, principalmente entre o passado e o futuro, tendo nenhuma outra função no filme. Mas a cena final com o Arvin na mata foi fantástica e muito bem executada. Porém, seu personagem poderia muito bem ter sido apagado do filme. Ah, e suas bochechas arredondadas parecem estranhas e definitivamente falsas, especialmente para aqueles que conhecem Stan de outros trabalhos.

A mesma coisa acontece com Carl e Sandy já que é difícil de entender o porquê deles serem assassinos em série se você não prestar atenção no filme – e mesmo se você prestar, talvez você não entenda. Foi preciso assistir uma segunda vez para entender mais sobre esses personagens e seu relacionamento, o que não é positivo. Eles mereciam mais palco, o que tornaria o filme mais interessante considerando o fato de que eles são assassinos tão únicos.

Roy Laferty, seu primo Theodore e Helen Hatton mereciam ter sua história contada de maneira digna, o que não foi feito. A história foi um tanto apressada, como se eles quisessem voltar rapidamente para a história dos Russel, mesmo que ainda tinha muito a ser explorado, já que Lenora – filha do casal – seria uma personagem tão explorada no futuro. Sua história seria essencial para entender como sua filha acaba tão solitária no futuro. Mas a atuação de Harry Melling como Roy foi impressionante, considerando que apenas o conhecemos como o famoso Duda Dursley, de Harry Potter, e não sabíamos que ele poderia atuar tão bem.

Lenora teve uma das histórias mais tristes de todo o filme e quebrou muitos corações de ver como uma garota tão inocente e solitária acabou com um destino tão terrível. O seu relacionamento com seu meio irmão Arvin é uma das coisas mais fofas de se assistir. Eles se importavam muito um com o outro e eram muito conectados pelas coisas terríveis que os aconteceram quando crianças, considerando tudo o que aconteceu com a família Laferty e com os Russells.

Falando dos Russells, as pessoas não estão falando tanto do Bill Skarsgård e sua perfeita interpretação de Willard Russel. É muito bom ver como ele se encaixou com o papel de um soldado retornando da guerra, carregando todos os seus traumas enquanto se apaixona por um garçonete. Willard é um perfeito exemplo de como o amor – e em consequência, o medo de perder aqueles que ama -, o fanatismo religioso e a guerra podem danificar uma pessoa. Suas cenas com o jovem Arvin foram puro ouro, mesmo que muitas delas podem te fazer desconfortável.

É engraçado ver como o Willard e o Arvin são iguais. Os paralelos feitos no filme foram muito bem executados e mostram como as crianças sempre tomam seus pais como exemplo. Arvin acabou se tornando exatamente como seu pai era apenas por tomá-lo como exemplo e repetindo alguns dos seus erros no futuro. Ah, e sua versão criança é muito boa! Michael Banks Repeta foi um ótimo ator e nós deveríamos prestar atenção nele em outros futuros papéis. Mas o fato de que ele tem olhos azuis e o Arvin adulto tem olhos castanhos incomodou um pouco.

O Tom Holland como Arvin Russell foi o prego no caixão de Peter Parker para sempre, tomando partido em papéis mais sérios e adultos, e arrasando nisso! É incrível ver como esse garoto consegue atuar com seus olhos. Isso já podia ser notado em seus outros trabalhos como O Impossível e Homem-Aranha: Longe de Casa, mas somente ficou evidente nesse filme. Ele consegue transmitir as emoções e angústias de Arvin em cada um de seus movimentos. Ele é definitivamente a estrela desse filme. É de tirar o chapéu para o Sr. Holland!

Nós podemos ver o tanto que Arvin se importa com aqueles que ele ama, então o seu relacionamento com sua meia irmã Lenora, foi perfeitamente mostrado no filme, tornando-se  uma das melhores partes do filme como dito antes. Ele é um daqueles personagens que mesmo que tenha feito coisas ruins, você quer proteger a qualquer custo já que você sente que tudo o que aconteceu na vida dele, todos os traumas, o levaram a fazer o que ele fez. E Arvin acreditava arduamente de que ele não era uma pessoa má, que apenas tinha feito o certo pelo amor e auto proteção. Tom realmente arrasou nas cenas finais em que ele mata quatro pessoas e entra em contato com seu traumas de infância.

A falta de trilha sonora em grande parte do filme é uma das coisas mais interessantes. Quase não existe uma trilha de fundo durante as cenas, o que ajudou a construir a tensão e lembrou bastante o episódio “The Body”, de Buffy, A Caça-Vampiros, que não tem nenhuma trilha sonora e foi muito aclamado pela crítica em harmonia com seu contexto. Mas quando o filme traz músicas, elas normalmente são gospel, o que encaixa com seu contexto religioso.

Mesmo que tenha faltado profundidade de muitos personagens, a maneira que o filme se fecha no final é perfeita. Não teve nenhuma ponta solta e questões não resolvidas. E o seu ritmo lento não incomodou tanto quanto deveria, apenas encaixou-se com sua ambientação e deveria ter acontecido daquela maneira.

O filme está disponível na Netflix e, se você se interessou na trama e quer saber mais sobre a história dos personagens, você pode ler o livro disponível no Brasil pela editora Darkside Books.

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Por Rafaela Bertolini – Fala! Cásper

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