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O Close Errado Que a Vogue Deu Sobre os Jogos Paralímpicos

Não Somos Todos Paralímpicos.

“Colocar atores para representar atletas paraolímpicos é descabido, insensível e estupido” – Kledir Salgado.

Na manhã de quarta-feira, 24, a revista Vogue publicou uma matéria com o título: “Somos Todos Paralímpicos: a campanha com Cleo Pires e Paulinho Vilhena”. A proposta era atrair visibilidade aos Jogos Paralímpicos e ressaltar a relevância dos paratletas brasileiros. O projeto foi desenvolvido pela Agência África e a Vogue apoiou a causa.

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Foto da campanha.

 

O nome da campanha é o primeiro erro a ser notado:

“‘Somos todos’. Não, não somos. Ninguém sabe as dificuldades de um deficiente e de um paratleta, ninguém sabe as barreiras, ninguém sente o preconceito, ninguém vive o que eles vivem”, declarou a estudante de jornalismo da Cásper Líbero, Rafaela Puitini, irmã de Fernando Putini, atleta paralímpico.

A revista não esperava a reação do público que foi a loucura com a campanha. A questão levantada, não somente por Rafaela, é: qual a representatividade dos atletas paralímpicos em uma campanha com atores que não sofrem com as dificuldades de ser um deficiente, e que mesmo com pouquíssimo apoio financeiro treinam para representar o país?

A campanha não é coerente, banaliza a deficiência tornando-a apenas uma edição no photoshop, e a revista perdeu a oportunidade de dar voz àqueles pouco representados. Contar a história de esforço diário, de preconceitos e dificuldades seria finalmente colocar em pauta uma minoria. “As páginas da Vogue seriam um espaço ótimo para um deficiente físico se auto afirmar e se ver menos discriminado”, disse o professor e mestre Kledir Salgado.

Segundo a matéria, os atores foram convidados para serem embaixadores do Comitê Paralímpico Brasileiro. Então, outras dúvidas permanecem: por que os embaixadores do Comitê Paralímpico não são paratletas ou ex-paratletas? E qual a razão de uma campanha que pretende aumentar a visibilidade dos paratletas, mas que não conta com a imagem de um? Existe alguém que represente eles melhor do que eles mesmos?

“A gente sabia que seria um soco no estômago, mas estávamos lá por uma boa causa, afinal, quase ninguém comprou ingressos para ver os jogos paralímpicos”, declarou Clayton Carneiro, diretor de arte da Vogue Brasil. A matéria, que foi editada, agora ressalta que a ideia foi toda de Cleo Pires.

O close foi muito errado e os internautas sabem disso. As publicações da revista no Instagram, em geral, possuem cerca de 20 comentários, uma interatividade pequena. Mas no post sobre a campanha os comentários ultrapassam os cinco mil, e continuam a aumentar. Os usuários do app dão a dica: “Apaguem e se desculpem!”.

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Mas a Vogue ignorou e insistiu no “Somos Todos Paralímpicos”. Em uma tentativa de reafirmar sua posição, a revista publicou uma nova matéria com o título: “Famosos apoiam campanha Somos Todos Paralímpicos”. Nela, enfatiza comentários de famosos que apoiaram a campanha, como Carolina Dieckmann e o paratletaRenato Leite,que compartilharam a imagem em seus perfis.

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Além dos textões no Facebook, o assunto não passou batido no Twitter – “Vogue” liderou o trending topics do Brasil.

Sobre as Paralimpíadas 

Há alguns dias, campanhas nas redes sociais pediam para que as pessoas comprassem e comparecessem aos Jogos Paralímpicos no Rio, que até então tinha pouca adesão. Ao contrário das Olímpiadas, os ingressos são de preço mais acessível, começando em R$10,00 até R$ 1.200,00.

No dia 24, os ingressos comprados atingiram a marca de 20% do total, com finais, como a da natação, esgotadas. Esse cenário traz uma triste história de falta de apoio às modalidades paralímpicas.O dinheiro utilizado no incentivo aos atletas é quase 100% público.

Segundo uma reportagem da EBC, “Apesar de ter saltado 30 posições no ranking de medalhas desde 1992 e ter multiplicado por dez o número de medalhas de ouro, o esporte paralímpico brasileiro ainda tem dificuldades de obter apoio na iniciativa privada”. A equipe, que ficou em 7º lugar nasparalímpiadas de Londres, almeja subir ainda mais no ranking de medalhas.

Por ser uma pessoa que acompanha essa realidade de perto, já que seu irmão joga Rugby, Rafaela Putini contou um pouco da rotina de um paratleta no Brasil:

“A seleção junta atletas de todos os estados, que não treinam quase nunca juntos antes de competições, até mesmo as olímpicas. Em termos bem gerais, eles praticamente não têm estrutura. No caso do time do meu irmão, eles treinam em uma quadra cedida por uma comunidade, que já várias vezes fechou por irregularidades”.

A casperiana acrescenta que o patrocínio é muito baixo e não cobre custos, servindo para mantimentos como barrinhas de cereais que os paratletas consomem durante o treino. Esse apoio é necessário porque muitos paratletas não trabalham, ou por invalidez ou porque sofrem com o preconceito que é muito grande no mercado. A estudante de jornalismo ressalta a realidade além da ajuda financeira: “ajuda para tomar banho, ajuda para se locomover, ajuda para procedimentos diários, para transportar as cadeiras…Isso tudo é feito, geralmente, pelo irmão de um dos atletas, de maneira totalmente voluntária”.

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Por: Giovanna Campos – Fala! Cásper

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2 Coment.

  1. Parabéns Giovanna Campos! O seu texto nos ajuda a refletir sobre a “falsa ” inclusão apresentada pela mídia.

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