Novela 'A Favorita' ainda funciona em 2020? - Leia a crítica
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Novela ‘A Favorita’ ainda funciona em 2020? – Leia a crítica

Novela ‘A Favorita’ ainda funciona em 2020? – Leia a crítica

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Duas mulheres: Flora e Donatela (ou Faísca e Espoleta, a dupla sertaneja formada por elas nos anos 80). Um crime: o assassinato de Marcelo Fontini. Qual delas está dizendo a verdade? É com esse questionamento que João Emanuel Carneiro estreava sua primeira novela no horário nobre: A Favorita, a primeira de uma série de novelas da Globo a serem disponibilizadas na íntegra em sua plataforma de streaming, o Globoplay.

Após emplacar dois sucessos no horário das sete (Da Cor do Pecado e Cobras & Lagartos), João Emanuel foi perspicaz ao mexer com o público, não deixando explícito logo de cara quem era a mocinha e quem era a vilã.

No primeiro capítulo, somos apresentados à Flora (Patrícia Pillar, em seu melhor momento da TV), recém-saída da prisão pelo assassinato de Marcelo, seu grande amor. Disposta a provar sua inocência e se reaproximar da filha, Lara (Mariana Ximenes), Flora terá como grande obstáculo sua parceira da juventude e irmã de criação, Donatela (Cláudia Raia, competente em um raro papel dramático), com quem dividiu o amor de Marcelo, e que criou Lara desde a prisão de sua mãe biológica.

Maltratada e desprezada por Donatela, Flora conquistou a simpatia do público durante os dois primeiros meses da novela, até ser revelado que, de fato, Donatela estava certa o tempo todo: Flora era, de fato, a assassina de Marcelo e a grande vilã da novela.

A Favorita
Novela A Favorita. | Foto: Reprodução.

A Favorita (2008) – leia sua crítica

Até então, a novela patinava na audiência. O público, ao invés de se sentir instigado pela dúvidas plantadas pelo enredo, se sentiu confuso. Uma vez que a verdade veio à tona, a novela explodiu e se tornou o grande sucesso da TV no ano de 2008. Com personagens carismáticos, texto digno de um folhetim clássico, e a direção ágil e cuidadosa de Ricardo Waddington, entregou ao público uma novela que marcou história na TV.

Assistindo à A Favorita pela primeira vez, 12 anos após sua exibição original (durante a quarentena causada pelo coronavírus), a novela cumpre seu papel de envolver o público com seus ganchos, mas também desperta questionamentos sobre o que mudou e o que não mudou na sociedade em pouco mais de uma década.

Apesar do sucesso, é preciso analisar a novela com imparcialidade. Era evidente que João Emanuel tentava atirar para todos os lados. A trama central era quase impecável (alguns furos incomodaram o público, como, por exemplo, o fato de Donatela não ter feito uma cópia do DVD que provava sua inocência após Flora virar o jogo e incriminá-la pela morte de Marcelo), mas dividia espaço com um elenco numeroso dividido em dezenas de núcleos, muitos sem grande importância para a história.

Bons atores faziam a chamada “figuração de luxo”, vivendo papéis aquém de suas habilidades – Taís Araújo, Ângela Vieira e Cláudia Ohana, por exemplo. Enquanto outros personagens tinham tramas e motivações esdrúxulas: a masculinidade frágil de Elias, a desgraça pública de Dedina após trair seu marido e a infame “cura gay” de Orlandinho, tema constante e, infelizmente, presente em todas as obras do autor.

Mas nada disso diminui o trabalho inesquecível de boa parte do elenco: Ary Fontoura (com seu inesquecível Silveirinha), Murilo Benício, Elizângela, Lília Cabral, Jackson Antunes, Genésio de Barros, entre muitos outros. Além, claro, da boa abordagem de questões políticas, do jornalismo e do mundo sertanejo. A obsessão de Flora por Donatela, bem desenvolvida, segurou o interesse do público até o final da novela.

A Favorita foi um excelente laboratório de ideias, que permitiu a João Emanuel Carneiro amadurecer e refinar seu estilo de escrita. Mais experiente e seguro, escreveu mais um sucesso em 2012, Avenida Brasil, com uma narrativa mais enxuta, mas igualmente ágil e instigante.

Felizmente, as qualidades de A Favorita se sobrepõem totalmente aos seus defeitos. Vale muito a pena revê-la, ou então vê-la pela primeira vez no Globoplay em HDTV, coisa que apenas uma pequena parcela da população obteve acesso em 2008. São 197 deliciosos capítulos que merecem ser assistidos. É um clássico e supera muitas novelas da última década. 

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Por Geovanne Solamini – Fala! Universidade Cruzeiro do Sul

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