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Novas iniciativas para a cobertura jornalística de segurança pública

Novas iniciativas para a cobertura jornalística de segurança pública


Por Natasha Meneguelli – Fala! PUC

Bruno Paes Manso e veículos de comunicação do jornalismo, como a Agência Pública, realizam reportagens com características diferentes das da grande mídia

No jornalismo brasileiro, é fácil confundir a cobertura da Segurança Pública com programas como o Brasil Urgente, da Band, ou as infinitas notícias trágicas que circulam no noticiário diário. Entretanto, projetos como o Monitor da Violência do G1 e iniciativas como as da Ponte Jornalismo e da Agência Pública, mostram que há alternativas, e que elas são muito necessárias.

O que a experiência traz

O jornalista Bruno Paes Manso, que lançou recentemente um livro sobre A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, em conjunto com a socióloga Camila Nunes Dias, é um dos fundadores da Ponte Jornalismo, projeto do qual não mais participa. Atualmente, é um dos realizadores do Monitor da Violência. Tendo grande experiência na área, falou sobre como ele atua e o que ele acredita que se deva buscar como comportamento ao cobrir segurança pública.

Começou a cobrir o tema por volta de 1999, quando entrevistou homicidas para entender os porquês de suas ações. Para ele, seu trabalho parte de uma outra abordagem.

“Muitos jornalistas, até na Lava Jato, que cobrem polícia, acabam tendo o olhar do policial. Reproduzindo inquérito, reproduzindo processo. É como se jornalista ou o jornalismo tivesse o papel de reproduzir nas páginas dos jornais o que a justiça cobre. Então é quase um diário oficial da justiça pra publicizar sentenças. Já que a gente não prende ninguém, pelo menos esculacha em público.  Eu nunca tive esse objetivo, a minha pergunta não era se era culpado ou inocente. A minha pergunta é por que ele age assim. É contar uma história. É tentar entender nós mesmos como sociedade. Eu não quero acusá-lo de nada. Não quero acusar o homicida de ser assassino. ”, conta Paes Manso.

Bruno Paes Manso – Foto por Gabriela Neves.

O profissional explicou que é muito comum que, ao se falar de Direitos Humanos, as duas palavras já percam a discussão só de serem mencionadas. Disse que as pessoas perguntam o que ele faria se fosse com ele, se ele que estivesse com medo. Contou que a questão principal é que violência só traz mais violência, e que é preciso pensar no que realmente resolve isso.

“Eu sempre cheguei muito humildemente, tentando ouvir histórias que me ajudem a entender isso (o motivo de matar). Além disso, não estou tratando de vítimas. São pessoas que têm uma história. Não são coitados. Não são vítimas. São sujeitos. Muitos têm um grande protagonismo. Fazem escolhas e escolhem seus próprios caminhos. Isso que é o legal da história, porque você está tentando entender aquela cabeça. Esse respeito, esse interesse, essa curiosidade real, eu sempre tive. Talvez isso é o que ajude mais, é você realmente estar querendo ouvir uma história. Estar muito grato pela pessoa estar te contando a história. Acho que esse é o jeito, talvez”.

Ainda, expôs que para que um jornalista chegue o mais perto possível da imparcialidade, é preciso ouvir a maior quantidade possível de fontes, “tem que ser com a polícia militar, com a polícia civil, com o ministério público, com a justiça, com gente que mora nos bairros e, se possível, com o integrante do crime. Quanto maior a diversidade de fontes, melhor”.

A cobertura longe das grandes mídias

O programa televisivo Brasil Urgente é um exemplo de como a cobertura policial funciona e aparece para os cidadãos no dia a dia. Uma infinidade de notícias trágicas, violentas, mostradas de maneira sensacionalista e sem muita contextualização ou ligação entre si. Independentemente da discussão sobre se este tipo de programa beira mais para o jornalismo ou para o entretenimento televisivo, a questão é que, muitas vezes, ele não é a única opção possível para cobertura de segurança.

Na contramão, há a atividade de outros grupos de jornalistas, que quase em sua maior parte iniciaram o projeto diferenciado por conta própria, sem auxílio de grandes empresas, e que se sustentam com doações de leitores ou de fundações.

Ponte Jornalismo

A Ponte é um projeto que busca cobrir Direitos Humanos, justiça e segurança pública a partir de uma perspectiva diferente da normalmente usada pela mídia hegemônica. Essa é uma questão deixada clara o tempo todo. Suas reportagens são em boa parte factuais, e a concepção é tratar do que os grandes veículos deixam de lado, ou de uma maneira mais distinta, como com os casos de violência contra as populações negra e LGBTQI+, por exemplo.

Ainda, não dependem de esclarecimentos oficiais, já que não partem do princípio de que sem ela não há reportagem, como já dito por Fausto Salvadori, um dos fundadores da Ponte. O jornalista também publica textos na Pública, da qual falaremos a seguir.

Agência Pública

Fundada em 2011 por repórteres mulheres, a Pública é uma agência de jornalismo investigativo que já ganhou 42 prêmios nacionais e internacionais. Ela aborda desde a questão de como os agrotóxicos são nocivos, até a depressão entre membros da força policial.

As ilustrações são utilizadas em várias de suas reportagens, dando uma aparência distinta, característica e interessante para o conteúdo exposto. Nos textos, além de esclarecimento sobre a origem das informações, há explicações da metodologia utilizada, uma clara tentativa de esclarecer que as afirmações de denúncia e investigação não surgem de achismos ou de um trabalho jornalístico mal apurado.

Monitor da Violência

O monitor é resultado do trabalho conjunto do G1 e do Núcleo de Estudos da Violência da USP (Universidade de São Paulo). O objetivo é, com a ajuda da estrutura do G1, que possui filiais em todos os estados, de mapear a violência no Brasil e produzir pesquisas, dados, e estudos sobre o assunto.

A cobertura envolve não só o levantamento de dados de quantos homicídios e de em qual local ocorreram, mas também o andamento do inquérito, quem foi a vítima, e outras especificidades. Ainda, inclui pesquisas para entender os motivos das ações.

Ele é a origem de reportagens, análises e investigações da área de segurança pública, além de fornecer dados que evitam a dependência dos fornecidos pelo governo.

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