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Nossos amados cretinos.

Nossos amados cretinos.


Mesmo com a crescente onda do politicamente correto e do bom-mocismo, séries que exploram a figura do anti-herói vêm ganhando espaço e público. E MUITO PÚBLICO!

Desde muito pequeno, quando brincava com meus amigos de super-herói , sempre preferi ser o vilão ao mocinho. Acreditava que as figuras do lado negro da força carregavam traços de personalidade muito mais interessantes e complexos do que os protagonistas. A figura do antagonista sempre me foi muito mais carismática. Porém, com o passar do tempo fui descobrindo uma nova gama de personagens que trazem características tão ou mais complexas e perturbadoras do que a daqueles que para mim eram o suprassumo da construção; via surgir a figura do anti-herói, ou seja, o herói cretino, aquela personagem que foge dos padrões morais do bom-mocismo, mas que também não chega a ser o vilão propriamente.

As séries de tv valem-se muito dessa figura antagônica que desperta desde a mais pura e verdadeira simpatia, até o mais puro asco e repúdio. Um dos primeiros personagens televisivos que nos foi apresentado seguindo esse molde, foi o protagonista de “Família Soprano”, o patriarca mafioso Tony Soprano (James Gandolfini).  Na série, que tem influência direta de “O Poderoso Chefão” (que para muitos críticos é a pedra matriz na construção desse tipo de personagem), sempre vemos a figura de Tony de maneira positiva e exemplar; porém, com o decorrer dos episódios (a série teve 6 temporadas e durou de 1999 à 2007) vamos conhecendo sua verdadeira face e ficamos assustados com os atos cometidos por ele. Para contrabalançar isso, vemos que Tony consulta-se com sua terapeuta, a  Dr. Jennifer Melfi ( Lorraine Bracco), fazendo com que entremos cada vez mais em seu mundo de contradições.

Mais recentemente, outro personagem que apresentava essa mesma forma de levar o seu “way of life”, foi o médico interpretado por Hugh Laurie na série “House MD”, o doutor especialista em diagnóstico Gregory House. A série, aclamada pelo público e pela crítica inicialmente tinha como principal mote as questões ligadas à medicina e à forma como House tratava seus pacientes. Porém, logo podemos perceber que a forma como Gregory House tratava aqueles que estavam à seu redor, não era nada mais do que um espelho íntimo, ou seja, vemos que a forma como ele exercia a medicina e como agia em sociedade eram frutos diretos de uma relação conturbada com o pai, seu vício por analgésicos entre outros fatores. Dessa forma, uma série que poderia ser mais um “Plantão Médico”, tornara-se algo ligado à ética e a valores morais, distinguindo-se das outras narrativas do gênero.

Atualmente, o melhor exemplo que temos da figura do anti-herói está em “Breaking Bad”. Vencedora do Emmy 2013 na categoria de melhor série dramática, a estória protagonizada por Walter White (Bryan Cranston), vem se firmando como um dos melhores seriados já feitos. Mr White é um professor de química que descobre ter câncer no pulmão e pouco tempo de vida. Assim, a convite de seu ex-aluno Jesse Pinkman (Aaron Paul), ele começa a fabricar metanfetamina, pois essa é a única forma encontrada por ele para proporcionar uma estabilidade financeira para a família após sua morte. É justamente nesse caldeirão de personagens contraditoriamente ricos que vemos como as pessoas se perdem e destoem-se moralmente por ego e dinheiro. Assim, aquele que antes era o professor de química calmo e pacato Walther White, torna-se o rei da metanfetamina e o traficante mais procurado do Novo México, Heisenberg. Mais do que uma série sobre drogas, “Breaking Bad” é uma espécie de romance de formação às avessas, uma vez que não vemos um personagem erguer-se nas glórias virtuosas de sua vida, mas sim, cair em desgraça e voltar-se para seu lado negro, mesmo que isso custe sua família, sua moral, ou até mesmo a vida.

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Um fato que liga todas essas séries e que fazem com que tais personagens alcancem grande sucesso e simpatia do público, é que não é somente as relações presentes nos episódios que amadurecem com o passar das temporadas. Nós também amadurecemos e passamos a entender as ações mostradas nos episódios de outra maneira. Isso faz com que, por muitas vezes, quando alguma situação limite é tratada, somos nós que estamos ali, fazendo da ação mostrada na tela um pouco da nossa forma de encarar os fatos. Além disso, os personagens das séries fazem coisas que não temos coragem de fazer na vida real. Quem nunca quis mandar o chefe tomar naquele lugar, ser o rei do crime, ou ganhar muito dinheiro rápido?

Assim como as tragédias gregas as séries estabelecem no espectador um forte sentimento de catarse, pois em seus  45 minutos médios, não são os nossos problemas que nos acompanham, mas sim os do protagonista, substituindo nossas amarguras e nos deixando de alma lavada.  Com o final de “Breaking Bad”, muitos de nós ficamos órfãos, só nos restando agora esperar pelo próximo cretino que irá suprir essa lacuna. Tomara que não demore muito!

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