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Nas Fábricas de Cultura, os jovens da periferia que sonham em viver de arte

Nas Fábricas de Cultura, os jovens da periferia que sonham em viver de arte

Thamirys Alano Costabile e por Vivian Gonçalves de Souza – Fala! Cásper Líbero

Escondido atrás da Avenida Sapopemba, um prédio largo guarda os sonhos de jovens que acreditam que seu futuro está na cultura. No saguão grande e vazio da Fábrica de Cultura somos recebidas por uma recepcionista simpática, que nos pergunta se estamos lá para uma audição com o maestro Ênio.

Ênio Antunes é um dos personagens que está no comando e no desenvolvimento do projeto Musicando das Fábricas de Cultura da zona leste. Ele nos contou um pouco da história da criação das fábricas e nos permitiu acompanhar o ensaio da Orquestra Sinfônica.

“Eu te escrevi porque nós estamos agora com um desafio muito interessante que é o programa Fábricas de Cultura na Zona Leste”, contou Ênio sobre como Olga iniciou o diálogo no primeiro contato a respeito do projeto.

Em 2010, Olga convidou Ênio para ajudá-la a desenvolver o projeto Fábricas de Cultura, que abrangeria todos os estilos de arte, desde música ao xadrez, aflorando seis pontos importantes nos jovens: o despertar, a descoberta, impressões, gesto artístico, comunicação e interpretação. Sendo que o objetivo maior seria trazer formação cultural para a população da zona leste, pois queriam mostrar que é possível a fusão entre culturas “diferentes”.

Projeto Musicando

O projeto Musicando é composto por ritmos e danças Brasileiras que representam a diversidade. A iniciativa consiste em aulas gratuitas de música aos jovens. Emprestam-se instrumentos no período de ensaio e aulas dos três grupos que compõem o projeto, que são: Orquestra Sinfônica, Orquestra de Cordas e Banda Sinfônica.

Apesar do talento, os jovens possuem um obstáculo, como já dito, a fábrica empresta os instrumentos, mas eles só podem utilizá-los no período das aulas, sendo assim para poder se dedicar com mais afinco a música, eles precisam comprar o instrumento. Como é de se imaginar, alguns destes são caros.

Pedro Henrique, de 15 anos, nos conta que o instrumento que toca na orquestra, o fagote, custa 2.500 euros, sendo assim ele não consegue comprar-lo. “Eu peguei uma estante que tenho em casa, peguei lápis de cor e pintei no formato do dedilhado do fagote, pra estimular em casa. Eu fiz por bastante tempo, funcionou, mas não é a mesma coisa” nos informa que foi a solução que encontrou para estudar.

O projeto foi inaugurado, em fevereiro de 2011. Para atrair os jovens, Ênio e Olga os convidaram para visitar e tocar nas fábricas, abriram um workshop para as pessoas conhecerem os instrumentos e poderem se identificar com algum deles. Após o semestre, matrículas foram abertas.

“Eu não queria, mas entrei e acabei gostando, e aqui é meu lar hoje”, nos conta Melissa Xavier, de 19 anos uma das jovens que conversou conosco. Ela toca fagote e cresceu frequentando a Fábrica de Cultura, seu sonho é tocar em uma orquestra profissional.

Em média, os integrantes das orquestras possuem idade entre 12 e 17 anos. Após estes anos de desenvolvimento, as orquestras começaram a abranger repertórios mais complexos, proporcionando novos desafios para os jovens. Normalmente, as orquestras são rotativas, devido a oportunidade que a fábrica gera para alguns jovens de ingressarem em orquestras profissionais. Maestros renomados já convidaram alguns dos integrantes para realizar cursos nos Estados Unidos e na Europa. Ainda assim, Ênio demonstrou preocupação em relação a continuidade do projeto, pois no Brasil não existem muitas orquestras e cursos na área que atendam a demanda.

Os integrantes da orquestra planejam estudar música e de alguma forma conseguir ter como profissão a área. “ Meu objetivo não é dar aula ou trabalhar em orquestra, eu quero viver de música, e têm muitas áreas na música”, nos diz sobre suas ambições Milena Neves, de 15 anos, “Por que a gente ganha uma renda e passa a ser reconhecido até pelos próprios familiares, ver que aquilo tem um retorno financeiro”. Os demais jovens com quem conversamos possuem anseios similares, seja dando aula por acharem que é mais possível ou ambicionando uma vaga em uma orquestra profissional.

Os ensaios

Quando chegamos para o ensaio da Orquestra Sinfônica, entramos em uma sala com quadros ao redor do teto, coloridos e de diversos temas, assim como todo o resto da composição do ambiente, eles foram feitos por jovens em um dos projetos.

Os adolescentes ali, conversavam com afinidade, “Sempre vão ter pessoas que vão se preocupar com você, sempre vão ter pessoas que vão estar ao seu lado” afirmou Pedro sobre a relação que os integrantes da orquestra têm entre si.

No ensaio, a sala que a princípio era barulhenta logo muda. Os jovens se sentam cada um em suas cadeiras dispostas em forma de círculo no centro da sala, colocam suas partituras na estante de apoio e pegam seus instrumentos. A música não flui de primeira, cada um toca a seu modo. Mas por meio de brincadeiras, Ênio e o regente Rodrigo Felicissimo vão os ajudando a encontrar o tempo certo. Ao final do ensaio já conseguiam tocar a música inteira.

“Zona leste é uma janela dentro da cultura brasileira, nela você descobre um brasil, de vários ‘Brasis’”. Ênio Antunes

No vídeo a seguir acompanhe um pouco da vivência e perspectiva dos jovens na Fábrica de Cultura Sapopemba.

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