Não há como não serem verdades – Confira o perfil de Fagner Araújo
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Não há como não serem verdades – Confira o perfil de Fagner Araújo

Não há como não serem verdades – Confira o perfil de Fagner Araújo

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O poeta, escritor e professor Fagner Araújo abriu a sua história para falar da produção de seu primeiro livro Não diga que digo verdades

A Unidade Escolar José Narciso da Rocha Filho, localizada na cidade de Piripiri, no interior do Piauí, foi o palco de inspiração de carreira do professor e escritor Fagner Araújo.

Falando de um cômodo de sua casa, onde há uma estante repleta de livros, e uma guitarra e um violão pendurados na parede, o escritor conta como a escola foi base do seu futuro, pois, além de contribuir com sua jornada profissional, o ambiente também moveu o amor aos seus principais hobbies: a música, o desenho, a pintura, e, principalmente, a Literatura.

A escola José Narciso me transformou em um grande amante da arte.

Afirma Fagner Araújo, com aparente alegria.

Foi na biblioteca que ele adquiriu o hábito da leitura. O menino ficava lá por horas a fio, admirando e devorando os livros. Aos 34 anos, conta, com orgulho, que quando tinha apenas 12, leu, pela primeira vez, e por iniciativa própria, a famosa obra de Aluísio Azevedo, intitulada O Cortiço.

Apesar da pouca idade, ficou encantado com o livro, algo totalmente inusitado em tempos de molequice. O brilho nos olhos, enquanto fala, mostra o quanto aquele lugar marcou a sua história. Pois o costume de ser um constante leitor, naquela aconchegante biblioteca, o tornou um escritor, e a admiração que ele tinha por seus mestres, o trouxe o desejo de ser professor. 

quem é Fagner Araújo
Fagner Araújo. | Foto: Amanda Araújo.

Quem é Fagner Araújo?

Este breve contexto exemplifica bem o perfilado de hoje. Um professor apaixonado, especialmente, pela literatura nordestina, e impetuosamente crítico à ausência de Justiça Social. Prova disso é a condição que é pautada em seu livro predileto, a célebre obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

O livro em questão tem semelhanças de parte de sua história, pois, embora Fagner não tenha tido uma vida de penúria no nordeste do país, o piauiense, juntamente com a família, migrou de seu estado natal até São Paulo, em busca de melhores condições de vida.

Ao chegar à metrópole de pedra, apesar do sonho de ser professor, o menino seguiu os conselhos da mãe, e foi estudar Mecatrônica no Senai. O estudo lhe rendeu um emprego que o distanciou, a princípio, dos seus desejos de infância. No entanto, mesmo seguindo um caminho alternativo, Fagner conta que nunca deixou os antigos sonhos de lado, e, pensando nisso, prosseguiu sendo um insaciável consumidor de literatura.

Em 2009 ele conseguiu uma bolsa integral pelo programa federal Universidade Para Todos (Prouni) e começou a cursar a faculdade de Letras. Quando se formou, em 2011, ainda trabalhava em seu primeiro emprego, ele era desenhista cadista em uma fábrica.

O professor admite que, no começo, possuía insegurança para encarar uma sala com 40 alunos. Todavia, em 2014, ao descobrir que a Escola Técnica de Heliópolis abrira processo seletivo, ele deixou o receio de lado e se inscreveu.

Araújo confessa que não teve muita concorrência, pois, por vezes, há escassez na demanda de professores desta escola, por estar localizada em uma periferia. O perfilado, no entanto, morou na comunidade de Heliópolis desde o dia que pisou os pés em São Paulo, então se sentiu, literalmente, em casa. Em 2017, quando se casou, ele se mudou para o Grande ABC. A favela de Heliópolis, a partir deste momento, passou a ser sua segunda casa.

Ele começou a lecionar no mesmo ano de inscrição. O curioso é que, em 2015, um ano após ele iniciar sua jornada como educador, fui sua aluna na Etec de Heliópolis, e quem recebeu suas aulas no início de sua carreira, como eu, jamais poderia imaginar que o professor tinha pouca experiência, pois a didática de seu ensinamento era impecável. Provavelmente, a habilidade de transmitir aprendizado trata-se de algo nato.

Livro Não diga que digo verdades

A arte e o conhecimento passados por Araújo não estão presentes apenas nas salas de aula. Ele também é escritor e, recentemente, publicou sua primeira obra, chamada Não diga que digo verdades. O livro contém poemas que foram escritos inspirados em sua trajetória de vida. O escritor conta que a obra foi produzida de forma independente, mas teve sua primeira edição lançada em 2018, pela Editora e Gráfica Heliópolis, um projeto social que fez a publicação de forma simples, de livros de autores da comunidade.

Sua obra traz diversas provocações aos leitores. Ao começar pelo título, pois o “não” mencionado, na verdade, é um convite ao sim. Os temas trabalhados são de afagar o coração e, em muitos momentos, fazem reflexões sobre a liberdade, a democracia, as injustiças sociais e outros. Ao mesmo tempo, a obra também é repleta de homenagens ao nordeste e à cultura brasileira.

Embora o autor solicite, é difícil não dizer que sua literatura não seja dotada de verdade. Inclusive, após ler o livro, concluí que mais pessoas deveriam ter acesso a essa produção, porque os poemas garantem prazer e reflexão, de forma simultânea, a temas cruciais da contemporaneidade.    

Desafios de um escritor brasileiro, segundo Fagner Araújo

Ao ser perguntado sobre os desafios de ser um escritor no Brasil, Fagner fala, com pesar, que a principal adversidade não é conseguir espaço em uma editora, como muitos podem imaginar, e sim ter leitores para consumir a sua obra.

Esta realidade ocorre, em sua visão, devido à desvalorização do hábito da leitura na cultura nacional. Ele enxerga que muitos dos livros que são amplamente comercializados no país, não os são pelo conteúdo em si, mas graças aos retratos das pessoas que figuram as capas, como youtubers, por exemplo, que vendem milhares de exemplares por causa do grande alcance de seus canais de vídeos, e não, necessariamente, por suas produções literárias.

Logo, segundo ele, autores que conseguem valorização comumente são aqueles que possuem fama por algum outro motivo. Claro que há exceções, mas ele afirma que seria difícil viver apenas da escrita. Contudo, o que o consola é o fato de ele também ser professor, pois essa parte da carreira lhe garante plena satisfação, prazer e também supre todas as suas necessidades.

A carreira de escritor se tornou, por enquanto, mais um de seus hobbies. No entanto, ele salienta que ama o que faz e não pretende parar. Ele escreve poemas desde a infância, quando ainda estudava na escola José Narciso, logo, é algo que lhe traz felicidade.

Além da obra de poemas, o escritor tem mais dois projetos em andamento. Um livro de contos que já está pronto para ser publicado, e brevemente iniciará um romance que terá como base suas vivências na Escola José Narciso.

O educador fala que ter seu primeiro livro impresso em mãos foi a realização de um sonho, e um imenso aprendizado. Pois, a segunda edição, lançada no ano de 2019, foi feita exclusivamente por ele, já contendo o registro ISBN na Biblioteca Nacional. Essa experiência lhe trouxe uma noção de que perpassou o ramo da escrita. Hoje, ele possui conhecimento técnico e burocrático para a produção de um livro.

Suas investidas para fomento de leitura

Como professor, ele tenta alterar a realidade dos baixos índices de leitura por onde passa. Fazendo projetos de incentivo a seus alunos, e também apelos em seu canal do YouTube, que está em crescimento e, atualmente, conta com mais de 1590 inscritos.

Fagner Araújo
Fagner Araújo exibindo sua obra. | Foto: Fagner Araújo.

Araújo afirma que a metodologia utilizada em sala de aula para o ensinamento do consumo de leitura é falha, pois, por vezes, as crianças, adolescentes e jovens, não tiveram a base introdutória, vinda da família, de apreço ao costume, então pedir para que eles leiam literatura necessária, porém rebuscada, logo de início, pode ser uma má iniciativa.

Eu não começo a falar de Machado de Assis logo de cara, primeiramente costumo falar do que eles conhecem. Uma boa porta de entrada é falar de filmes que eles assistiram, mas que não sabiam que vieram de livros. A partir daí, é possível despertar o interesse.

Diz Fagner Araújo.

Ele pretende continuar escrevendo e publicando livros, além disso, sempre procurará ensinar aos seus alunos os incontáveis benefícios que o hábito da leitura pode propiciar à vida daquele que o adquire.

“Se a pessoa não lê, ela tem menos portas abertas dentro da cabeça. Só a leitura pode fazer isso”, afirma o professor. Ele também costuma comprar livros de escritores principiantes, para dar apoio aos seus trabalhos, assim como frequentemente assiste a mesma ação sendo realizada para com ele.

Aparentemente, Fagner Araújo é o tipo de pessoa que vive buscando fazer a sua parte, mesmo que ela pareça inexpressiva diante de um cenário complexo e desalentador, pois ele acredita que pequenas atitudes fazem grande diferença quando o assunto é construir um mundo melhor.

Com olhar orgulhoso ele finaliza a entrevista dizendo: “Eu, como leitor, professor e escritor, me tornei um formador de leitores e um formador de opinião”.

Foram estas as contribuições que a Escola José Narciso da Rocha Filho propiciou à vida de Fagner e, consequentemente, trouxe frutos para a comunidade de Heliópolis. Um ciclo belo e digno de admiração, que simboliza a importância da contribuição da escola, da leitura e de grandes educadores na vida das pessoas.   

poema de Fagner Araújo
Poema presente no livro Não diga que digo verdades. | Foto: Fagner Araújo.

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Por Bianca Rafaela da Silva – Fala! Anhembi

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