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A voz da mulher no cenário musical brasileiro

A voz da mulher no cenário musical brasileiro

Por Isabela Guiduci, Giovana Oréfice, Maria Luísa Rodrigues e Rafael Fernandes – Fala! Cásper

Por efeito da forte vertente machista presente no Brasil, a mulher tem dificuldades em conquistar seu espaço tanto no meio profissional, como no meio social.
Consequentemente, a figura feminina ainda enfrenta muitos desafios e obstáculos no ramo musical. Dentro dos gêneros em que os homens são predominantes, como o funk e o RAP, a mulher é reconhecida na maior parte das vezes pela sua imagem. Neste cenário, ela sofre discriminação e preconceito, o que evidencia a desvalorização do seu papel na sociedade, assim como a influência do seu talento para a música.


Amanda Cavalcanti, jornalista musical, aluna do terceiro ano de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, e que participou do coletivo feminista Lisandra, reconhece que apesar da presença de muitas mulheres em determinados cenários musicais, como no pop e na música erudita, este ainda é demasiadamente masculino: “Elas são muito aceitas como intérpretes, mas você não vê muitas mulheres compositoras, maestras e instrumentistas”.
Segundo Amanda, ainda existe um árduo caminho a ser percorrido, mas com certeza o feminismo contribuiu para uma maior participação da mulher na música. Ademais, o movimento vem para remodelar a concepção da imagem feminina, idealizada para quebrar tabus e se utilizar da música como instrumento de conquista do seu espaço.
A estudante também afirma que ainda existe um olhar de objetificação da mulher pelo público, e principalmente, pela mídia. Muitas cantoras, tanto as internacionais como as nacionais, sofrem com a hiperssexualização da sua imagem.
A questão da representatividade da mulher é um dos principais temas envolvendo a participação da mesma no campo da música. Contudo, para Amanda este não é o objetivo principal:
“[…] Eu não gosto dessa abordagem de falar que as mulheres necessariamente têm que se sentir representadas pelo trabalho de outras mulheres […] Nem toda mulher tem que representar alguma coisa. Às vezes ela só está ali para fazer arte por ela mesma”.

“Sou mulher independente, não aceito opressão,
abaixa a sua voz, abaixa a sua mão”

A música “100% Feminista” da MC Carol com participação de Karol Conká, nos mostra a luta pelo protagonismo da mulher. Como uma válvula de escape, as letras mostram a liberdade feminina em poder criar músicas que transcendem uma realidade submissa, e permitem o empoderamento da mulher.

Em um bate-papo com a MC Carol, que se destaca por seu jeito descontraído e sincero, além de suas letras irônicas e bem-humoradas, ela fala sobre como é ser um símbolo feminista, lutar contra o racismo velado que ainda existe no Brasil e sobre ser mulher no funk – confira:

Fala!: Quais dificuldades você sentiu no começo da carreira no FUNK, tratando-se de um meio predominantemente masculino?
Carol: Os homens sempre tentavam me colocar pra baixo, mas eu me impunha. Até comprava briga com os meninos! (risos) Depois da fama, acho que o que fica pior são os desocupados que ficam atacando o povo pela internet. Minha página no facebook foi alvo de um ataque racista, e até fizemos o BO na delegacia de crimes virtuais. Mas nada que me abale. Do que me “xingavam” eram duas coisas que eu sou com orgulho: negra e gorda. Sinto pena de quem ainda vê isso como xingamento.

Fala!: A partir de qual momento você sentiu a necessidade de tratar sobre a situação da mulher no Brasil em suas músicas?
Carol: Eu não consigo dizer com precisão porque nasci feminista (risos). Na verdade, meu avô sempre me criou pra eu não abaixar a cabeça pra ninguém, e eu sempre quis ser independente, achava que eu devia ter os mesmos direitos dos meninos que eu andava desde pequena. Queria ser respeitada! Mas só ano passado descobri que isso tinha um nome, e era FEMINISMO. Como isso sempre esteve em mim, acho que sempre esteve nas músicas.

Fala!: Como o público reage diante da abordagem dessa problemática nas suas músicas?
Carol: As pessoas têm gostado! Quando os fãs me escrevem falando que se identificam com algo que eu falo, que se sentiu representada, é tudo pra mim. Se tivesse que colocar numa pirâmide como a sociedade trata as pessoas, os homens brancos estão lá no topo, depois as mulheres brancas, depois os homens negros e lá embaixo as mulheres negras, que em sua maioria estão na periferia e nunca foram representadas. Mas agora tem um tanto de mulher maravilhosa, tipo a Karol Conká, dando voz pra essas mulheres – só que ainda é pouco… Tem que ter mais!

Fala!: Na música “100% feminista” são relatados casos de agressão e opressão à mulher. Isso surgiu de uma situação que você passou na vida real?
Carol: Todas as minhas músicas são baseadas em histórias que ouvi, ou que eu vivi. Gosto de cantar putaria, mas isso não me impede de fazer música sobre temas que eu acho que valem a pena escrever sobre.
Meu primeiro funk, chamado “Vou Largar de Barriga”, é uma música engraçada e irônica, que fala sobre gravidez na adolescência, sobre questões que o feminismo aborda, sobre a vida de uma menina mudar totalmente, enquanto o homem continua a viver uma vida normal depois de engravidar alguém.
Tinha 15 anos quando escrevi, mas ninguém falava que era um funk politizado na época, porque ninguém pensava nisso… Igual “Rap de Felicidade”… Todo mundo canta a música felizão, mas é uma crítica a violência policial tanto quanto “Delação Premiada”.

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