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O Mercado de Trabalho Artístico no Brasil

O Mercado de Trabalho Artístico no Brasil

Natasha Meneguelli – Fala!PUC

 

A situação do mercado de trabalho artístico e o que refletir com ações como a ADPF 293

 

Não é novidade para ninguém que a profissão de artista não é a mais valorizada nem a mais remunerada de todas. Mesmo assim, é inegável a importância que a arte tem para a sociedade. Felizmente, existem ainda artistas e aspirantes a artistas lutando para perpetuar esse trabalho e buscar o cumprimento de seus direitos como trabalhadores.

Em março deste ano, a Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 293, que tinha aparecido pela primeira vez em 2013, voltou como pauta colocada pela ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia, pleiteada pela Procuradoria Geral da República (PGR). A ação tinha votação marcada para o dia 26 daquele mesmo mês, no Supremo Tribunal Federal (STF), mas que, após manifestações e protestos no Brasil todo, foi adiada sem data prevista. A ADPF questiona a “obrigatoriedade de diploma ou de certificado de capacitação para registro profissional no Ministério do Trabalho como condição para o exercício das profissões de artista e técnico em espetáculos de diversões”.

Sendo assim, é de extrema importância discutir e entender como funciona o mercado de trabalho e de atuação artística, e as possíveis consequências de ações como essa, principalmente para aqueles que estão cogitando ou já ingressados na área. Como não há nada melhor do que ouvir o lado de quem vive 24 horas da arte e para a arte, escutamos dois profissionais e uma iniciante para entender suas perspectivas, dúvidas e experiências.

Samara Montalvão – A Palhaça Curtiça


Foto por Leandro Montalvão

Samara Montalvão de Souza é atriz e tem 31 anos. Formada em artes dramáticas pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul e pelo Programa de Formação de Palhaços dos Doutores da Alegria, pesquisa Palhaçaria e teatro desde 2006, e tirou seu Registro Regional do Trabalho (DRT) em 2011. Atualmente atua solo como palhaça e integra o elenco da peça “Nem todo ladrão vem para roubar” de Dario Fo.

Fala!: Por que escolheu a profissão de artista e como tem sido até agora?

Foi uma dica da minha mãe. Comecei a fazer teatro com dezoito, dezenove anos, porque ela começou a falar que sempre pensou nisso. Eu estava passando por um momento de transição forte, pessoal, então fui buscar o teatro livre. Lá eu descobri um universo, junto com as referências da palhaçaria que começaram a aparecer. Fui buscando dentro de uma pesquisa autônoma, ao mesmo tempo, formação e estudo, e a coisa foi se formando. Não foi nada como ter nascido com isso na cabeça. Foi uma grande novidade quando o teatro apareceu na minha vida, e ele apareceu para ficar, nunca mais saiu. Foi uma enorme identificação, uma surpresa muito gratificante de encontro de vida, de ideologia, de existência. Hoje em dia, é muito maior do que só uma profissão, é minha escolha de vida mesmo, como cidadã, como algo que transforma as minhas inquietações e paixões em material artístico para apresentar e trocar com o público. 

Não é fácil, no começo a gente trabalha muito de graça (risos). No meio também. Não é uma carreira que dá um retorno imediato, para a grande maioria. Algumas pessoas têm mais facilidade, mas no meu caso, é muita batalha mesmo. Como eu sou palhaça, a maior parte da minha renda vem da palhaçaria. Comecei animando festas e eventos enquanto eu estudava na escola de teatro, depois entrei para um grupo, uma trupe. Pegamos um edital e começamos a fazer um projeto de intervenção no centro comercial de Santana, em 2012, e até então, toda a minha grana tinha vindo desses eventos e festas. Daí em diante eu comecei a ter trabalhos oficialmente culturais.

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Em 2013 eu fui para Belo Horizonte, trabalhei no Instituto Hahaha, que é uma ONG (Organização não governamental) que realiza intervenções nos hospitais públicos de lá, mas que também é um trabalho onde parte do elenco é de palhaços profissionais, remunerados, isso até 2014. Em outro projeto lá de Belo Horizonte, no Sesi, fazia intervenções – espetáculos de 30 minutos –  em empresas, escolas, praças, pelo interior de Minas Gerais, e divulgando as atividades do Sesi. Em 2015 eu passei a trabalhar na minha carreira solo de palhaça, então comecei a levantar o espetáculo que eu tenho hoje, que se chama “Curtição, um mundo mágico onde o riso é a chave para a liberdade!”, e com um projeto nas escolas, que chama “Curtiça na escola”, de intervenção e aproximação com as crianças. Faço muitos festivais como cabarés e a grande maioria como palhaça. Como atriz, desde 2015 eu integro o elenco dessa peça, “Nem todo ladrão vem para roubar”, com tradução e direção de Augusto Marin.

Esses são os mais oficiais, de mais peso na trajetória, mas foram muitas participações, coisas que aparecem dentro do que é coerente com a minha pesquisa, que é pautada nas paixões alegres. Quando eu comecei na palhaçaria eu conheci o filósofo Espinoza, que é o autor que pauta os Doutores da Alegria, que fala sobre as paixões alegres e a potência do encontro positivo. E isso me move, enquanto palhaça, e é a imagem que eu busco, a agenda da alegria, da potência, do bem-estar. Claro que com a reverência e com a denúncia, que é guia do palhaço, mas voltada para um olhar mais esperançoso, dentro de todas as possibilidades. Então minhas escolhas acabam que vão para uma estética mais leve, apesar de eu trabalhar da forma que for necessária. Se precisar ir por outras vertentes como atriz, eu vou. Entretanto quando eu escolho o norte dos meus trabalhos, normalmente eu busco essa pegada das potências positivas, do lado crível da vida. 


Foto por
Thaís Lima

Fala!: Qual a importância da arte hoje?

A arte sempre tem importância, ontem, hoje e amanhã. Ela é uma expressão humana que acontece desde que a gente tomou consciência da existência. Quando o homem começa a fazer as pinturas rupestres, ele já se expressa inspirado na realidade, fazendo uma releitura dela, então a importância da arte é vital. Ela cumpre um papel em vários aspectos, da gente enxergar, se transformar, de um olhar de dilatação sobre setores da sociedade que a gente tenta não ver. Se você pega os textos do Nelson Rodrigues, o que ele coloca ali, e relacionado às relações por baixo dos grandes rótulos como casamento e família, por exemplo, ele tem um papel de denúncia muito forte. Na Grécia Antiga, era a partir dos dramas, dos festivais de teatro, que as pessoas recebiam conteúdo sobre o que se espera da sociedade, sobre crenças, sobre como acreditavam que aconteciam as profecias.

Assim, o papel da arte hoje e sempre, na minha opinião, é mostrar, expressar aquilo que quem está vivo sente. Então cada artista é um delator na realidade, a partir do olhar dele, das suas dores e das suas paixões. A arte, seja ela a sua manifestação pintura, cênica, ou artesanato, ela demonstra o que você sente, o que você pensa, o que você entrega para o mundo. Me deu até um frio na espinha (risos). A arte é uma delatora daquilo que nem sempre todo mundo quer ver. A importância da arte para mim é imensurável, é intrínseca à existência. 

Fala!: O que você pensa da ADPF 293?

Eu fui pega de surpresa com esse questionamento sobre o DRT. Eu acompanhei todo o movimento da classe artística, do que estava acontecendo. O que eu entendi é que isso veio à tona em 2013 por conta de algum abuso relacionado aos músicos. Eu acho que, na verdade, eu não sei (risos). Porque já é difícil com DRT, já é difícil com pessoas que não têm um olhar artístico para o mundo, compreenderem a arte como uma profissão, compreenderem o artista como alguém que trabalha para afinar as suas capacidades artísticas e expressar cada vez com mais propriedade e responsabilidade o seu ofício. Então eu, no caso, não tenho formação de ensino superior, eu tenho técnico, são dois cursos muito bons, mas são técnicos. Então, se o DRT não é obrigatório, a minha formação meio que dá uma caída, porque o que me diferencia de uma pessoa amadora é o meu DRT. O que também é complicado, porque eu entendo a parte de quem fala que a arte não se classifica, logo não tem o porquê ter méritos que classifiquem um profissional da área ou não. Só que a sociedade se modificou muito, e a gente se baseia em critérios como diploma, especificação, como um papel escrito que alguém tem um número de registro no ministério do trabalho, então ele está apto a fazer aquilo. Sendo assim, eu acho que a gente perde, apesar de eu compreender o que foi colocado nessa ADPF293.

Mesmo com as justificativas que foram colocadas para ela, a comunidade artística perde, e muito, no sentido da burocracia que envolve o fazer artístico. Então a gente tem alguns critérios, como cachê teste para o autor, que mostra algum respeito a esse profissional que se prepara, que vai até o lugar, dispõe o seu tempo para fazer o teste. E isso cairia também. O DRT tem 40 anos, só. Nossa classe foi registrada, assumida como uma classe de artistas há muito pouco tempo. Perder isso agora é um retrocesso, apesar das justificativas até parecerem coerentes. Isso pelo que eu compreendo de países que ainda não têm a profissão artística como oficial, profissional. Que não têm isso na carteira de trabalho. As pessoas passam a ser, não sei se marginais, se é essa a palavra, mas não oficiais. Eu não vivi no tempo em que não existia DRT, então não tenho referência do que poderia ser. Como não consigo ver com olhares promissores esse tipo de ação, foi um alívio o STF ter adiado sem previsão de retomar essa pauta. Eu acredito que é necessário que a arte seja um departamento oficial do estado, das secretarias. 

Não consigo mensurar quais são as consequências disso, mas, no mínimo, a não consideração da arte como profissão. Acredito que seja muito complicado deduzir isso também, apesar da sensação de que pode não mudar nada, que só vai ficar mais amplo para aqueles que não podem pagar pela DLT, porque tem isso também. Eu tirei pela escola, mas se você é um profissional da vida, que não buscou uma formação, você tem que pagar, um preço que parece estar bem alto, apesar de eu não saber dizer quanto, mas pelo que conversei com pessoas da área. Acredito que dá essa sensação de que vai ficar mais democrático, no sentido de mais acessível, mas acredito que vai banalizar também. Em todos os aspectos, eu confesso que estou meio perdida nessa situação, mas, por via das dúvidas, eu torço para que não seja julgado, porque a minha sensação é que a gente tende a perder o pouco do direito e da oficialização que a gente conquistou nesses 40 anos, que a gente tenha o direito de ter um registro profissional dos fazedores de arte. 

Foto por Carolina Righet

Fala!: Como os artistas devem agir frente a isso?

Complicada essa pergunta, porque eu não tenho a menor ideia (risos). Suspendeu, então vida que segue. Se voltar, a gente vai ver como as pessoas vão reagir. Como a arte não é uma coisa classificatória, então não sei. Meu momento de artista agora está bem pautado na sobrevivência. Eu preciso criar estrutura para sobreviver do meu trabalho. Acredito que essa votação, sendo aprovada, tende a dificultar esse caminho, mas como ela não chegou lá, então ok, vamos continuar a conquistar como fizemos até agora.  

Fala!: Você acha que a ADPF vem do comportamento em geral que o governo tem em relação à arte, ou é um episódio isolado? 

O governo tem um olhar equivocado sobre o que é arte, então a gente teve vários episódios bem complicados ultimamente. Essa má interpretação pela nudez e os editais. A arte sempre foi marginalizada, especificamente as artes cênicas, que por muito tempo foram confundidas com prostituição, com vagabundagem, marginalidade, então principalmente tende-se a desconsiderar a importância dessa classe. Não acho que seja um caso isolado, nós estamos dentro de um movimento de governo bem estranho, e marginalizar a classe artística nesse momento, se a gente entra numa ditadura, é mamão com açúcar para poder marginalizar as pessoas que trabalham com arte, que têm opinião própria, que denunciam, que delatam.

Eu estou contando com o bom senso dos juízes do STF em desconsiderar essa ação que foi levantada, já que todos eles, ao que me parece, são muito cultos, então eles possuem a capacidade de entender a importância real da arte numa sociedade. Tudo é interesse. A gente sabe que no nosso país, nesse momento, não existe bom senso, mas sim interesses. Mesmo assim, a minha esperança é que desconsiderem essa lebre, que passe despercebida nesse vulcão de coisas que estão acontecendo porque, se não, se for aprovado, é menos um ponto de proteção para nós que vamos bater de frente com esse governo. Se cair numa ditadura, a classe artística é a primeira a ser massacrada, e a gente sabe disso. 

Fala!: Sobre quem desvaloriza a arte, mas quer espetáculos de boa qualidade

Não querem pagar para assistir um espetáculo, mas querem assistir de graça e de qualidade. Não querem patrocinar uma companhia, mas querem conteúdo interessante para exibir para os filhos. Então a arte é intrigante, porque está sempre numa linha tênue, e a partir do momento que uma coisa passa a agradar uma grande massa, vem a grande mídia para gourmetizar e massificar aquilo. Até que ponto você consegue ser íntegro na arte que se expressa, até que ponto a arte passa a ser produto de consumo e até que ponto tem a sua função transformadora. É muito complexo isso. 

Fala!: Quais conselhos você dá para quem está começando agora e para quem está pensando em entrar na área? 

Força, fé e foco. Seja íntegro no seu coração, seja íntegro com o fazer teatral, que é uma profissão ancestral. A arte no geral, na verdade (risos), é que eu foco naquilo que faço. Tenha respeito pelo palco, por tudo aquilo que você representa e por todos aqueles que já passaram por ele, que abriram espaço para que você esteja ali. Vá estudar, se especializar, vá atrás da sua dignidade. Seja fiel na sua profissão, porque para você ser artista, ou você tem isso no coração, o que é vital para você, ou não tem porquê. Porque para ganhar dinheiro existem outras possibilidades, muito melhores. É muita ralação, muita dedicação, e uma pitadinha de sorte.  

Foto por Thaís Lima

Luiz Ramos

Arquivo pessoal do artista

Luiz Augusto dos Santos é bailarino e tem 33 anos de idade. É formado pela Escola Livre de Danças de Santo André. Já participou de diversas companhias de dança, entre elas a Vandance, deu aula durante 11 anos na Escola Livre de Danças de Santo André e trabalha atualmente como professor no grupo FUNSAI – Quixote e na Fábrica de Cultura do Capão Redondo.

Fala!: Por que escolheu a profissão de artista e como tem sido até agora?

Olha, eu nasci artista, né. Eu nunca trabalhei com outra coisa a não ser com arte. Comecei a desenhar quando pequeno, não tão pequeno, era criança já, fiz teatro, fiz outros vários cursos e descobri que meu caminho era mesmo com a dança. Comecei com dança afro, depois contemporânea, depois clássico, e continuando no teatro. Consegui monitoria de teatro e tudo, as coisas foram caminhando através disso, então não foi uma coisa que eu insisti muito, foram coisas que aconteceram, e eu fui muito abençoado, fluiu. Até hoje se eu vou falar da minha história, eu tenho muita coisa para contar, para chegar até hoje, onde estou agora, com 33 anos de idade. Mas eu lembro que meu primeiro trabalho como professor de dança, foi com 17 anos, no Rio Grande da Serra, num lar de mães. Eu dava aula de dança contemporânea, com influências da dança de rua, porque eram meninos bem difíceis de lidar, e trabalhar com contemporânea no chão de pátio não rolava, tive que fazer alguns passos diferentes.

Daí foi, me formei em dança, fiz três anos na Escola Livre de Dança de Santo André, que era uma faculdade não aprovada pelo MEC, mas eram ensinos acadêmicos, não davam o DRT. Eu tive que fazer prova, que fazer teste, para comprovar que sou artista, que sou bailarino. O DRT é bom por conta disso, porque em muitos trabalhos que eu fiz como bailarino, como professor, exigiam esse número. Eu tenho currículo, tenho um monte de coisas, mas para alguns trabalhos ainda exigem essa confirmação, que comprova que de fato você é um artista. Existem algumas áreas artísticas que se você tem esse DRT, você pode realizar o trabalho, de teatro, de dança, de percussão, ou qualquer outra coisa relacionada à arte. Com esse número eu consigo, não precisa ter o DRT de todas as áreas, ele é geral, mas ele determina uma área específica também, que no meu caso é a dança. Também participei de várias companhias de dança, umas seis, sete companhias, no Estado de São Paulo.

Fala!: Quais foram as facilidades e dificuldades?

Facilidades foi isso de que eu nunca tive um esforço de me matar, de ficar sem trabalhar. Eu tinha amigos, tinha professores, coordenadores, supervisores, gerentes, que me conhecem, que conhecem o meu trabalho e fazem questão de ele estar em evidência, tanto como educador quanto como bailarino. As dificuldades é de me organizar no tempo para fazer tudo que eu quero. Nesse ano, por exemplo, eu não estou dançando, só estou trabalhando com circo. Foi o que tive de oportunidades. No Quixote eu trabalhava com danças brasileiras e dança contemporânea até o ano passado, mas estou trabalhando esse ano só com circo, porque teve uma mudança de equipe e tudo, não queriam que eu saísse, mas queriam que eu trabalhasse com outras coisas, que os educadores saíssem da sua zona de conforto. Como eu também sou formado em circo, não por uma faculdade, mas tendo vários cursos, acabei pegando. Na Fábrica de Cultura eu estou como professor de aéreos, trapézio, lira, essas coisas.

Arquivo pessoal do artista

Eu tenho um pouquinho de tudo e coloco tudo isso numa bola só. Em danças brasileiras eu trabalhei também chula de palhaços, que é uma linguagem das danças brasileiras, mas que tem uma ligação muito forte com a acrobacia e com todo palhaço que é acrobata. Uma coisa liga a outra para mim, não tenho como sair disso. Assim a minha dificuldade esse ano é que não estou dançando, e eu gosto muito de dançar, também não estou dando aula de dança, o que eu amo também. Me surgiu um convite agora para trabalhar com o Arte na Rua, que é um evento de cultura popular, para dançar alguns ritmos de dança que eu gosto muito, contudo é só em junho. É relacionado ao mês junino, às festas. É um trabalho que eu faço já há alguns anos, sempre me chamam para esse mesmo mês. Eu danço em metrôs de São Paulo, levando um pouco de arte para as pessoas que estão transitando. Eu estou contente por conta disso.

Entretanto existe essa falta de tempo, essa minha dificuldade de não conseguir fazer tudo que eu quero. Terça, quinta e sábado eu estou dando aula na Fábrica, no Quixote quarta e sexta. O único dia de folga é segunda. Domingo arrumo casa. Dessa forma, não sobra nada, não sobra tempo, então essa é a dificuldade. Eu poderia trabalhar num só lugar e ter tempo para danças, mas outra das dificuldades, é que não é muito valorizado o trabalho do educador. Ganhamos muito pouco, apesar de trabalharmos também pouco nessa questão de hora/aula, mesmo que isso esteja ligado com não quererem nos contratar para trabalhar bastante, porque vamos ganhar mais que os coordenadores. Dentro dos espaços artísticos é muito forte essa questão da hierarquia, os gerentes têm que ganhar mais, os supervisores em segundo, os educadores estão ali no meio.

A dificuldade do trabalho de educador é, dependendo do lugar, que se trabalha com contratos anuais. No Quixote, eu trabalho até dezembro, janeiro e fevereiro eu não ganho nada, e me contratam para começar a dar aula em março e receber em abril, o que é complicado. Trabalhei assim durante muito tempo da minha vida. Agora vai fazer dois anos que eu estou na Fábrica de Cultura, lá é registrado. É muito estranho eu ter que declarar imposto de renda (risos). Vou ter férias e vou receber por elas, o que é muito bom, ajuda a valorizar o trabalho do artista. Eu nunca tive isso, comecei a ter agora, eu estou fazendo 33 anos hoje, mas foi com 32 só que eu tive isso, sempre foi contrato. Na minha carteira de trabalho tem minha DRT, e a Fábrica, é só o que eu tenho. Em muitos lugares não é registrado. Na Escola Livre de Dança não foi, no Quixote não é, mesmo nas companhias não há registros, são por contrato também. Além disso, trabalho em companhia é mais difícil ainda, porque os contratos são curtos, e depende de fomentos, do Estado de São Paulo, de alguém que divulgue. Eles oferecem uma página na internet, dizem que oferecem determinado serviço, nós entregamos o projeto para ser aprovado e quem sabe conseguir trabalhar como bailarino.

Arquivo pessoal do artista

Fala!: Como funciona o teste para conseguir a DRT?

É uma coisa horrível (risos). Você tem que levar algumas documentações, para comprovar que você já fez tantos anos de dança, no meu caso, e daí você faz uma prova prática, que é fazer um solo ou uma apresentação em grupo, o que tem que estar determinado na documentação, e você paga uma taxa, que na minha época acho que foi 125 reais, que serve para você tirar ou DRT provisório, que serve de 3 meses a um ano, ou o permanente, que é esse para a vida toda. Eu cheguei a fazer esse teste em 2005, 2006, eu estava na escola ainda, mas eu não tinha muito comprovante de que era um bailarino. Peguei provisório, de um ano. Queria ter pegado permanente. Mas enfim, como eu não tinha pressa, e tinha esse DRT provisório, eu consegui trabalhar um ano. Era o mesmo número do meu definitivo, não muda, e depois de um tempo, uns dois ou três anos, eu fiz de novo.

Não preparei nada. Eu tinha figurino, tinha a música, já sabia como funcionava, então cheguei lá e improvisei, uma dança x, e passei. Claro, eu já tinha participado de duas companhias de dança, já tinha dado aula por uns quatro, cinco anos, eu era bem reconhecido, então não tinha como não me darem o DRT. Eu acho isso um pouco ruim, você ter que comprovar para quem você não conhece de que você é um artista. Mas bom por outro lado, porque este número abre caminho para outras coisas relacionadas à arte. Graças a esse DRT que eu trabalho no Quixote, que eu dei aula 11 anos na Escola de Dança depois que eu me formei, que dou aula na Fábrica, que fica lá no Capão Redondo. São lugares que eu passei, que eu passo, porque estou até hoje, e é muito importante esse tipo de documentação. Como bailarino, não é exigido que você tenha DRT. Para muitas companhias na maioria das vezes é tudo quem indica, para professor também. No Quixote foi indicação, assim como em outros lugares. Por isso eu disse que eu nunca tive que fazer um esforço enorme.

Eu já fiz teste para entrar numa companhia, na de danças de Diadema, mas eu estava me formando em danças ainda, tinha vontade de participar. Só fui entrar mesmo, já em outras, depois que eu me formei. Até porque eu tive esse tempo, essa disponibilidade. O trabalho de companhia é muito rígido, e eu tinha que dar aula, tinha que participar da companhia, apresentei espetáculos, horas e horas de ensaio, de pesquisa. É muita coisa.

Arquivo pessoal do artista

Fala!: Como você faz com o INSS?

Eu sou uma pessoa esperta, desde os dezoito anos, maior de idade, que eu pago meu INSS por fora. Depois, em alguns trabalhos, começaram a descontar uma parcela do INSS, vai direto. Só que eu sou MEI (Microempreendedor Individual). Para trabalhar no Quixote eu tive que ter isso, tem que ter um CNPJ. Como eu já tinha trabalhado como MEI por alguns anos, cooperativado, pela Cooperativa Paulista de Teatro, onde eu ganhava uma parcela de dinheiro por fazer parte e depois na de Danças, eu já tenho cinco anos dele, e a única coisa que pago é o INSS. Quando chega o começo do ano eu tenho que fazer algumas declarações. Eu gasto um dinheirinho, mas não é tanto, para continuar com ele. Meu MEI está em dia, pago tudo certinho, e daí isso é bom também. Por exemplo, me contrataram para trabalhar no SESC no mês de julho, férias, com dança e circo, e eu preciso do MEI, preciso de uma empresa para fazer um cadastro, e todas as vezes que eles precisarem de mim eu já vou ter este cadastro. Há dois anos atrás eu pensei em fundar uma companhia, porque quando eu trabalhei na Vandance acabou me dando mais vontade de montar uma. Mas faltou tempo, tem que ter um trabalho de pesquisa, chamar bailarinos e tudo o mais.

Esse ano eu fui chamado para trabalhar numa companhia, produzida pelo pessoal lá da Fábrica, contudo não dá, o ensaio é em horário de aula. Oportunidades não faltam, falta tempo. Uma outra companhia, de chula gaúcha, tudo relacionado à afro de reis, também me chamou e não dá, e isso que os ensaios são de manhã. Sou muito abençoado, tenho muitas oportunidades, mas por ser solteiro agora e ter que pagar aluguel, contas, eu preciso ter algo permanente, não posso ficar autônomo, onde de tempos em tempos surge um trabalho. Muito menos em companhias, que não são estáveis. Dando aula, que é uma coisa que eu gosto também, me dá um respiro. No Quixote eu estou há um tempo, lá na Fábrica eu sou efetivado, o que é estranho, é engraçado.

Eu escuto, a cada ano que passa, que está diminuindo, ao invés de aumentar, o salário.  Aumenta tudo: conta de água, luz, alimento, mas o salário não. Então com um ano de efetivado, eu tive décimo terceiro e tudo, mas não tive aumento, o que diminui o poder de compra do salário. É uma desvalorização total. O Quixote é um ONG, católica, que é a FUNSAI, e é uma organização social que faz com que o trabalho aconteça. Eu não sei a fundo de onde vem o dinheiro, eu sei que já existe há dez anos. A Fábrica de Cultura é do governo, do Alckmin, e por incrível que pareça é bom, é um prédio muito bom, só que o dinheiro que é dado para a administração dos gastos é dado de qualquer jeito. Temos que comprar do mais baratinho, então não é suficiente. Lá no circo a gente precisava de botinhas, para usar no aparelho de escalas, não pode ser de meia nem sapato, e lá é periferia, então ninguém tem condições de comprar. A gente pediu, e além do trabalho como educador tivemos que ensinar também o cuidado com as coisas. A notinha que pegamos era de dois mil reais, cada botinha era cento e alguma coisa, e praticamente toda hora temos que falar: Cuidado, isso aqui é de vocês, os pais de vocês pagam por isso pelos impostos, tem que saber cuidar.

Eu não sou só educador de corpo, a gente se envolve um pouquinho com cada um, então não posso chegar no lugar, dar minha aula e ir embora, nem tem como. A gente acaba entrando em outros assuntos, falamos de política, do cotidiano, criamos espaço para conversa, para diálogo, não é só a dança. O Quixote tem muito isso, o participante também tem voz. Trabalhamos com criação também, os alunos criam coreografias, apresentações. Mas é pouco divulgado e não tem muita procura, até porque as pessoas não conhecem. No ano passado, no início do ano, quase cancelamos as aulas de Danças Brasileiras porque tinham dois alunos. Juntamos com percussão, que também tinha pouca gente, e com o tempo foi melhorando, conseguimos vinte para os dois grupos.

Fala!: Quais você pensa que podem ser os motivos para essa falta de procura?

Eu acho que falta alguém de projeto, que vá nas escolas, nas casas, nos lugares mesmo. Por exemplo, o Quixote é um lugar que fica meio escondido, mas tem a ETEC Getúlio Vargas, tem Objetivo, várias escolas aqui perto, o museu onde vai um monte de gente dessa faixa etária que participa. Quando entrou a Claudinha, que coordena os projetos, melhorou bastante. É uma necessidade de ir atrás, não só telefonema e cartaz, explicar para as pessoas que isso existe. Tudo foi pela Claudinha, ela foi em cada sala da GV, conversou com cada turma, e quando as pessoas viram o que era, acabamos tendo muitos alunos. O que precisa é de alguém que faça isso, não adianta só a coordenadora artística, o pessoal da limpeza, os educadores, mas sim os participantes, e para se ter isso precisa de divulgação.

Arquivo pessoal do artista

Eu não saberia trabalhar com isso, tenho até ideias, mas não tenho afinidade. Quando eu fazia teatro, apresentávamos espetáculos, e tínhamos que ir nas escolas. Assim a gente acaba levando a arte para mais pessoas. Porque não tem essa busca, por conta da mídia, a arte parece outra coisa. Eles injetam em você, manipulam de um jeito que você ache que o mundo é daquele jeito, mas não é. Se tem coisas relacionadas à homossexuais, à trans, vira modinha. Não vai à fundo. As pessoas veem que existe. Eu sinto isso. Nesses espaços artísticos, a gente faz com que a pessoa se reconheça, não só como artista, mas como pessoa mesmo. É claro que ela tem uma veia artística ali, mas ela vai ter mais espaço para pensar como ser humano. Vendo só a televisão, ela acaba se fechando numa caixinha. Se você não for questionador… Eu mesmo não assisto, eu tenho para colocar meus filmes, já para ver canal, programas, não. Antigamente tinham algumas novelas boas, eu adorava quando era mais novo, adolescente. Com essas injeções de manipulação não.

Com relação ao campo artístico, com esse governo, o Temer e o Dória, a gente está numa situação bem delicada. Se a direita, com a presidência agora, ganhar, muitos espaços artísticos vão fechar. Porque eles não querem isso, eles querem manipular com outras coisas. A própria reforma do ensino médio, a bancada evangélica que é dominante, os homens que pregam o machismo, que criança e jovem não tem voz… É muito difícil para eles quando vem a esquerda com a democracia. Eu sou um pouco político pela minha área artística, apesar de não ser ativista ou militante, de qualquer vertente. Eu falo, eu estimulo essas coisas, para fazer com que o jovem pense. No Quixote tem muito isso. Na Fábrica nem tanto porque é outra linha de trabalho, mas principalmente aqui no Quixote tem várias pessoas com o pensamento bem claro, apesar de algumas que ainda pensam que pagam o seu salário, que pagam tudo, e então temos que fazer o que eles querem. Esses pensamentos são bem complicados, porque não é assim que as coisas funcionam. É bem triste chegar nesse ponto. A gente só conseguiu as botinhas mesmo porque é ano de eleição. Porque eles dão algo para conseguir o voto. Então é bem difícil.

Nós educadores somos plantadores de sementes. A gente encaminha para o mundo. Tem gente que está no Quixote há anos. E eu também fui aluno, ainda sou quando faço algum curso, fui de pessoas incríveis. Eu continuei na arte, trabalho até hoje, o que é muito gratificante. Você pode ter o pior dia do mundo, mas você vir para o trabalho e encontrar essas pessoas, só te dá mais vontade de trabalhar e de plantar essas sementes para o mundo. É gratificante demais.

Fala!: A ADPF 293 vem do comportamento em geral que o governo tem em relação à arte, ou é um episódio isolado? 

Quem toma frente das coisas, por exemplo se aqui muda a coordenação, as coisas acabam sendo encaminhadas de acordo com essas novas pessoas. Eu, por exemplo, vou receber um caminho, não vou ter muita força, então é fruto sim do que está dominando hoje em dia, é fato. Você vê números, vê questões do outro governo e do de agora, é gritante. Não só a parte artística, mas no geral. Estou vendo o meu lado, mas na educação, na saúde, nos ambientes de transeuntes, como as ciclovias, muitas coisas foram se modificando. As pessoas que estão à frente querem fazer do jeito delas. Mesmo que da maneira do fulano do outro partido estivesse funcionando, eu não quero, quero fazer do meu jeito agora, porque eu sou diferente. Teve um dia desses eu estava com a minha irmã em São Bernardo, quando estava ocorrendo o caso da prisão do Lula, e voltando de carro vindo para o Ipiranga, e eu vi de lá até aqui o pessoal batendo panela. Fiquei com medo de ser morto, medo mesmo. Como eu vivo do mundo artístico, esse mundo me dá uma paz no coração, mas o resto está sendo contaminado. É sobre quem está na frente. Para alguns a água bate na bunda, para outros não. Não há motivo para se preocupar se as coisas estão bem para você.

Arquivo pessoal do artista

Fala!: Quais conselhos você dá para quem está começando agora e para quem está pensando em entrar na área? 

Vou ser sincero (risos), esse ano eu indicaria para, se você quer, se você precisa de dinheiro, não faça. Porque estamos bem desvalorizados. Mesmo quem está se formando, fazendo faculdade, os que estão entrando, vão batalhar muito para conquistar espaço e viver disso. Faça por hobbie, por diversão, porque você gosta, mas tenha alguma coisa à parte disso. E se for querer para ganhar dinheiro, para se sustentar, não dá, é muito difícil, e está cada vez mais. Eu tenho muitos amigos, muito talentosos, tanto educadores como os que trabalham como bailarinos, que não estão mais na área por falta de oportunidade. Que estão no telemarketing da vida, ou que conseguiram algo melhor porque tinham uma formação ou uma indicação, ou até que estão desempregados. Não tem espaço para isso.

É bem triste. Eu estou até emocionado de falar isso. Eu sou bem abençoado, porque eu nem sei fazer outra coisa. Se – bate na madeira – acontecesse alguma coisa e eu perdesse meus empregos, eu não saberia o que fazer, não sei fazer nada. Tenho força de vontade, eu dou um jeito, tenho inteligência para outras coisas, mas não tenho formação em nada. Assim eu indico que, se você quer isso como carreira, tenha uma coisa na manga, um plano B, porque a cada ano que passa, e eu já estou 16 anos de trabalho – sem contar o tempo de aula e outras coisas, só como profissão, – e foram de luta.

Às vezes, quando eu vivia em Santo André, eu ficava meses sem receber, porque a prefeitura não tinha como pagar. Tive que me virar, pegar empréstimo, dinheiro emprestado. Eu não conseguia trabalhar porque não tinha o dinheiro da passagem. Eu já passei por muita coisa e, muitas vezes, o esforço não é nem de conseguir emprego, mas de valorizarem o seu papel de artista. Minha professora de danças brasileiras, que eu conheço até hoje e que é uma grande amiga, ela não trabalha mais como educadora. Ela foi minha mestra, dança muito, mas não teve oportunidade. Quando ela estava na Fábrica, de Cachoeirinha, ela ficou grávida e foi mandada embora. Essas coisas acontecem, nós somos só números, e é bem complicado. Principalmente vendo que a cada dia que passa está mais difícil.

Fala!: Como aumentar a valorização do trabalho do artista?

Ser mais políticos, se articular mais. Eu sou muito fraco nisso, não tenho nenhum caminho para política. Eu tenho um pensamento e tento passar isso para o outro, de como eu entendo, mas eu não tomo frente, nem faço manifestações. Também não fico colocando no Facebook, acho que ele serve para outras coisas. Mas tenho amigos que usam o Facebook para protestar e que não vão para a rua.

Eu luto por quem está ao meu redor, ao meu alcance. Mas assim, não pode ser uma coisa obrigatória, então a gente incentiva, ninguém é obrigado a nada e cada um luta pelo que quer. Sobre a votação, foi cancelada até a página dois, daqui a pouco eles virão com um argumento e volta tudo de novo, então é tentar falar com quem está perto e mudar as coisas aqui.

Daniela Martins

Daniela Martins Ferraz, atriz de19 anos, estudante de teatro na ETEC de Artes de São Paulo.

Fala!: Quando você se interessou pela área das artes e por quê?

Por mais irônico que seja, antes eu não gostava de artes. Mais porque eu não gostava da forma como eles ensinavam no ensino fundamental. O que eles ensinam não é dez por cento da arte, então eu não me interessava, eu tinha até raiva. Mas desde criança eu sempre tive uma certa inclinação. Percebo isso pelas aulas que eu tenho lá na Etec. Toda a criatividade, o sentir alguma coisa e desenhar, representar – que é ligado ao teatro, que é a minha área sempre estiveram presentes. Desde criança eu tive uma alta capacidade de criação de ambientes e de histórias. Não estou falando que sou uma boa atriz, mas sim que estou no sentido artístico que a minha profissão pede.

Me interessei e me interesso porque a arte é uma forma de você representar a vida, por mostrar para as pessoas que ela não é exatamente uma monotonia e que, se for, também pode ser uma forma de arte, também tem como ser apreciada. Tem um lado mais pessoal, que eu acho que com a arte dá para se adaptar para várias direções. Eu gosto da liberdade que a arte me dá.

Fala!: Teve alguém que te inspirou?

Eu acho muito difícil essa pergunta, porque eu nunca fui de ficar me prendendo em alguma coisa, mas por mais engraçado que possa ser, eu acho que o negócio do teatro não foi exatamente alguém que me inspirou, foi simplesmente começar a ir em peças. Eu gostava, fui em várias ano passado e pensei: nossa, acho que aqui pode ser o meu lugar! Não foi muito alguém, apesar de ter sido uma causa específica.

Se tem algo que me inspira bastante é quando eu vejo uma série que eu gosto muito, e eu penso que eu quero ser muito essa atriz, essa pessoa. Vale também colocar que alguém que me inspira bastante é o pai do meu amigo Bruno, porque a profissão dele também é um tipo de arte, que é a alfaiataria. Na época em que ele era jovem, na Itália, as pessoas falavam que não ia viver disso. Ele nunca deu ouvidos para esse tipo de pessoa, o que me dá um ar até hoje quando eu penso nessa parte chata de cobrança em relação à profissão.

Fala!: Você teve alguma preocupação quando escolheu o curso?

Acho que a maior preocupação do meu curso era no sentido de remuneração, e de reconhecimento na carreira também. Acho que são as maiores mesmo, não tem outras porque antes de começar o curso eu tinha medo de não ser aquilo, de não gostar e pensar: e agora, para onde eu vou? Mas como eu me identifico totalmente com o curso, é a questão da má remuneração, ainda mais com o que está acontecendo agora de risco de não reconhecimento como profissão.

Fala!: Você superou suas preocupações?

Para ser sincera eu não superei ainda. É muito difícil. Geralmente eu supero pensando na minha saúde mental. Também tem o fato de que, se eu não fosse fazer o que eu realmente quero, eu seria uma profissional bem ruim, porque eu não estaria gostando, então acho que acabaria pelo menos me sentindo fracassada. Engenharia, direito, eu seria uma profissional ruim nessas áreas, eu não estaria mentalmente bem, não seria uma pessoa realizada. Então eu gosto de pensar que estou fazendo algo que é bom para a minha saúde mental. Quando você gosta é apaixonada pelo que está fazendo, sempre tem uma maneira de dar um jeito na vida, de se conseguir. Principalmente porque diariamente o pessoal das artes escutam coisas que desmotivam.

Fala!: Como está sendo sua formação na área? Está suprindo suas necessidades de aprendizado e prática?

Sim, eu gosto bastante do curso, e eu acho que assim, por hora, está suprindo minhas necessidades. Apesar de eu achar que a área da arte exige que a gente sempre esteja em desenvolvimento. Sempre estaremos aprendendo técnicas, formas novas, e é relativo também falar de necessidades, porque na arte é meio que livre, apesar de ter a questão da cobrança. Eu sinto uma muito grande da minha parte, em relação à prática. Sempre fico pensando, porque é muito complexo saber se você está indo bem. Mas nós somos muito bem preparados lá na Etec em relação a essa parte de prática, o que eu penso que é bem legal.

Fala!: Sobre a ADPF 293? Você acha que traduz o pensamento do Estado em relação à arte ou é só um caso isolado?

É complicado falar disso porque eu ainda não fui na reunião da Funarte para entender exatamente o que é, mas de acordo com o que está na mídia, tem tudo a ver com o comportamento do governo em relação à arte. A partir do momento que eles anulam o registro de artista da Delegacia Regional do Trabalho, deixamos de ser considerados trabalhadores. Perdemos a nossa função no Estado. Porque na sociedade em que a gente vive, tudo é em função do trabalho. Se você não trabalha, se você não é considerado um trabalhador, acaba ficando marginalizado. A profissão de artista já não é considerada uma profissão há muito tempo. Muita gente vê a arte apenas como forma de lazer, só que o lazer de um é o trabalho de outros. Um gerente de banco que vai numa peça para descansar, o descanso dele é o trabalho de alguém.

A maioria das pessoas não pensam nisso, acham que é fácil. Não é porque nos divertirmos que seja fácil. Pelo contrário, no meu curso se exige muito do físico e do mental. Não é porque não resolvemos grandes contas ou não lemos muitos livros que não há esforço no fim do dia. A diversão que eu tenho no meu trabalho não deixa de se tornar cansaço, ou até males mentais, porque ainda é um trabalho. Ainda há exploração no meio. É importante também. Não faz sentido colocar a gente numa categoria que seja fora da regulamentação. Acaba dificultando muito. Se para mim foi difícil assumir e querer entrar, encarar a carreira, imagina no futuro, não sendo visto como algo profissional. A sua vida não vai ser profissional? O ser uma pessoa está muito ligado a você ter uma carreira, dinheiro, criar alguma coisa.

Fala!: Que conselhos você gostaria de ter ouvido quando pensou em escolher a profissão?

Eu queria que pessoas me apoiassem. O melhor conselho seria siga, vá, porque eu sei que é isso que você gosta. Ninguém dizia que era a minha cara, mas eu queria que tivesse aparecido alguém para fazer isso, para me perguntar se eu já tinha pensado nisso. Entretanto, acho que as pessoas não faziam isso justamente por pensar que era ruim, de que seu eu estava pensando em Direito e não parecia muito minha cara, tudo bem. Não se estuda arte. O que a gente faz em casa, de se vestir com roupas divertidas e interpretar, dentro do seu quarto com dezoito anos, não é porque você tenha algum problema, mas porque você gosta disso. É uma profissão, então siga. Eu queria ter ouvido que essa criatividade minha não era para ser repreendida. Acredito que o mais importante até seria não ter ouvido para repreender a minha vontade de fazer tudo isso que eu fazia. Mas essa questão é muito ampla, porque dentro de casa eu já era repreendida, então eu acabava não fazendo fora. Não tinha como as pessoas acabarem sabendo disso também, conhecerem essa parte de mim. Também as pessoas nunca demonstravam ter isso em comum, eu acabava achando que só eu fazia essas coisas. Eu nunca ouvi pela mídia ou por outras fontes que se você gosta de recriar histórias, de mergulhar nesse universo, tudo bem, é uma profissão. Acho que se isso fosse mais espalhado teria sido bem mais fácil.

Fala!: Quais conselhos você escuta?

Eu escuto o de amigas, como: vai fundo, sempre tem um jeito de fazer as coisas. Tem a parte psicológica, que o profissional precisa ter bem. O conselho que eu mais escutei foi o de que você goste do que está fazendo e que se esforce para fazer tudo bem. Que mesmo se não sair tudo bem, está tudo bem. É normal. Não é o fim do mundo. Sempre tem como dar um jeito. Priorize sua saúde mental e seja um profissional que faça bem o que gosta. Escuto das pessoas que são próximas de mim, de que vai dar certo, que eu vou conseguir me sustentar. Que isso vai me dar mais motivos de viver.

Fala!: O que você pensa sobre a marginalização da arte?

Eu vejo que a arte é marginalizada assim como outras profissões ligadas ao físico. Tem muita valorização das profissões em que as pessoas devem pensar e estudar muito, as intelectualizadas. Claro que no teatro se exige estudo, mas não no padrão que a sociedade coloca nas pessoas que têm status por causa disso. Principalmente em profissões ligadas ao lazer. Quando você vai ao médico, por exemplo, você dá muito valor à profissão porque está ligado à sua saúde física. Mesmo os médicos ligados às doenças psicológicas são um pouco menos prestigiados, se diz que os problemas da mente são frescura. Até porque a arte faz com que você esteja em contato com este seu psicológico, o que acaba ajudando na saúde mental também. Daí acaba não sendo tão bem visto como o que faz com que as pessoas tenham o bom estado físico.

Parece algo superficial por se tratar da mente. Na medicina, na engenharia, as coisas são concretas, você se consulta, você passa pela ponte que foi construída. Algo que você assistiu, com alguém que apareceu só por alguns minutos, aquela pessoa acaba não sendo nada. Acaba não mostrando o esforço daquela pessoa. Só foi engraçado. Se está ligado ao lazer acaba por não parecer tão complexo quanto outras áreas, outras profissões. Os profissionais de limpeza, os adestradores de cães, ninguém cresce falando que tem esse sonho, porque é visto como profissão de quem não teve oportunidade, de quem não conseguiu chegar num nível alto da vida. Inclusive essa marginalização existe até entre as próprias pessoas do meio. No Tatuapé, tem um homem que toca violão. Ele deixa uma caixinha para gorjeta e uma placa onde está escrito: meu sonho não era ser músico, mas por causa da crise estou sendo obrigado a ser. Como se fosse algo ruim o que ele está fazendo, ele mesmo acaba se marginalizando.

 

Apesar dos claros problemas a serem enfrentados na profissão, existem projetos que auxiliam na continuidade dos artistas no meio, além das reivindicações contínuas realizadas pelos sindicatos ou mesmo por grupos independentes. O site do SATEDSP (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões do Estado de SP) divulga os acontecimentos recentes e ações de que os apoiadores podem participar, além de cursos de aperfeiçoamento e instruções para a realização do registro da DRT – atualmente com taxa fixa de R$600,00. Para os jovens e adultos de 12 a 29 anos e 11 meses, a unidade VII do grupo FUNSAI, conhecida como Quixote, disponibiliza oficinas gratuitas de teatro, dança, circo, entre outras no bairro do Ipiranga.

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