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Manifestante agredido por PM lança Candidatura pelo PT

Heitor Vilela e Marcus Vinicius Beck – SiteMetamorfose

Na manhã do dia 28 de abril de 2017, o estudante de Ciências Sociais Mateus Ferreira da Silva, então com 33 anos, acordou cedo, vestiu calça jeans vermelha escura, camiseta preta, calçou all-star cano alto e saiu para o Centro de Goiânia. Era clima de Greve Geral. Mas eis que por volta das onze horas da manhã ele acabou sendo surpreendido. Uma pancada do capitão da Polícia Militar (PM) Augusto Sampaio quase lhe tirou a vida. O militar desferiu contra a testa do rapaz seu cassetete, que se partiu ao meio com a batida. Mateus foi encaminhado para o Hospital de Urgência de Goiânia (HUGO). Permaneceu mais de 15 dias internado, seis deles em coma.

Foto: Luiz da luz


Em conversa descontraída num tradicional bar na região central de Goiânia, Mateus Ferreira da Silva contou com exclusividade ao Metamorfose quais serão suas propostas caso seja eleito deputado estadual

“O trabalhador quer saber o preço do arroz, do feijão, da gasolina. Se haverá ou não emprego. Esse debate tem de estar no plenário. Uma abordagem mais combativa é necessária”

Mateus Ferreira da Silva criticou Organizações Sociais: “É uma forma de o Estado se eximir de sua responsabilidade de garantir ensino público de qualidade”. Fotos: Júlia Lee

Como sequela da agressão, ficou com o paladar danificado. Sua visão esquerda também sofreu alterações. Filho de mecânico e mãe cabeleireira, contou que o episódio ocorrido durante sua participação na manifestação contra a Reforma da Previdência o impulsionou  a “seguir na luta com a cabeça erguida”. Mateus não alimenta raiva do policial que quase encerrou sua trajetória. Pelo contrário. Acredita que o Estado precisa acompanhar cuidadosa e humanamente os policiais, além de evitar treiná-los para o combate. Também defende a educação enquanto mecanismo para conscientização da sociedade.

22 de agosto de 2018. Estávamos aguardando o agora candidato a deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT) em um conhecido bar da capital goianiense, no Setor Central. A entrevista havia sido marcada às cinco da tarde, mas ele demorou aproximadamente trinta minutos para aparecer. Enquanto o esperávamos, cogitamos seriamente a possibilidade de o petista ter nos deixado na mão. Instantes depois, Mateus parou seu Ford Fiesta branco cansado da luta, sorrindo e dizendo “oi, oi, oi” para nós. “Vou naquela mesa conversar e cumprimentar o pessoal”, avisou. Não tivemos nenhuma objeção.

Porque candidato não importa se estão pleiteando cargos para o Poder Executivo ou Legislativo, têm suas atribuições com o eleitor. Carregando alguns panfletos de sua campanha, Mateus conversou com alguns simpatizantes e deu pequenos tapas nas costas de um ou outro, entregando o folder onde explicava detalhadamente os motivos que o levaram a participar do pleito eleitoral. “Você pode ficar conosco até que horas?”, perguntamos. Com o semblante descontraído, respondeu-nos que poderia permanecer na sabatina até às sete da noite.

Confira os principais trechos da entrevista:

 

Fotos: Júlia Lee

Como fazer essa ponte com a juventude que não se interessa pela política institucional?

Podemos fazer isso de várias maneiras. Uma das formas, por exemplo, é passar a utilizar as novas tecnologias. Existem aplicativos de celular que proporcionam à população acompanhar o que o político eleito está fazendo. Até temos uma proposta de ouvir quais são as demandas das pessoas para que possamos estabelecer um norte àquilo que vamos votar.

Você acha que isso é fazer diferente?

Já é um avanço. Mas ainda muita gente não tem acesso ao celular, à internet para poder consultar. Muitas vezes também não se tem o conhecimento necessário para conseguir fazer essa consulta. Por outro lado, precisamos atender os pedidos da população de vários lugares e tentar fugir do penduricalho de mandato. É preciso fazer com que a população traga suas demandas até o político.

Mateus, você tem uma formação política em movimento social. É possível ser combatível no meio institucional?

Bem, a assembleia deveria ser um espaço de debate, um ambiente de debates. Um ambiente para isso. Às vezes, fico olhando as discussões que acontecem e não tem nada a ver com a minha vida. Muitos não atendem aos anseios da população em geral. O trabalhador quer saber o preço do arroz, do feijão, da gasolina. Se haverá ou não emprego. Esse debate tem de estar no plenário. Uma abordagem mais combativa é necessária. Não adianta ficar discutindo feriados e nomes de rua. O que isso vai mudar em nossas vidas?

Qual debate é mais importante para gerar essa combatividade?

Tem vários, dá até para escolher. Aqui em Goiás, por exemplo, a educação é um deles. É um problema. Hoje, quase 40% dos jovens abandonam o ensino médio no meio do caminho. Às vezes, não conseguem ir à escola. Às vezes, precisam trabalhar para ajudar na renda em casa. Mas o que leva a isso? Precisamos de programas para mapear esse problema. Além disso, temos a questão das Organizações Sociais, que tentam eximir o Estado de sua responsabilidade de garantir um ensino público de qualidade.

E as escolas militares?

Funcionam praticamente como uma Organização Social (O´s). Estudos mostram que um estudante de escola militar custa até três vezes mais do que aluno de colégio comum.

Qual modelo de gestão você propõe para melhorar o ensino?

É preciso compreender a necessidade básica dos pais. Muitas vezes eles optam por ter tranquilidade quando estão no trabalho. Quando olham as escolas militares, eles veem a possibilidade de seus filhos se darem bem na vida, de arrumarem emprego. É preciso trazer a comunidade e os pais para dentro do ambiente escolar.

Em 2016, o site de notícias Ponte Jornalismo publicou uma reportagem em que mostrava educadores e policiais se unindo para espionar secundaristas e professores contrários à terceirização do ensino no Estado. Como você enxerga a criminalização aos movimentos sociais?

É uma tendência no Brasil. E em Goiás não poderia ser diferente. Vivemos uma criminalização contra tudo aquilo que atinge o status quo. E, além disso, uma crescente onda de ideias conservadoras que se refletem na candidatura de lideranças militares.

No ano passado, você foi alvo de agressão do capitão Augusto Sampaio durante protesto da Greve Geral. O que você pensa da polícia?

Não existe sociedade complexa sem polícia. A questão é a gente pensar o tipo de polícia que a gente quer. É necessário haver uma força policial, porém humana. Fico pensando como foi o treinamento do capitão que me agrediu. É preciso  treinamento que priorize o aspecto humano ao animalesco. O procedimento padrão de abordagem deve ser seguido à risca em todos os casos, independente da classe social ou do bairro em que estiverem. Precisam ter amparo do Estado para problemas psicológicos e coisas do tipo.

Como o dia da Greve Geral ficou marcado em sua vida?

Essa pergunta sempre volta à tona. Uma coisa que eu vejo hoje e me impressionou foi a solidariedade do povo goiano. Isso é uma das coisas que me faz amar a cidade de Goiânia e Goiás. Toda solidariedade e carinho que recebi é muito maior do que a agressão. Me motivou para a luta ainda mais. Quando o negócio acontece com você e sua vida fica em cheque, aí muda completamente sua visão das coisas.

Você ficou com alguma sequela por conta da agressão?

Não fiquei com nenhuma sequela cerebral, mas tive uma limitação no olfato e uma variação na visão do lado esquerdo. Mas já me acostumei.

Vamos te colocar na berlinda com seu partido: o que pensa sobre a estratégia do PT de brigar até o último momento pela candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva?

É uma estratégia bastante acertada mantê-lo na disputa presidencial. Um preso não perde seus direitos políticos por estar dentro do “xilindró”. Até a Organização das Nações Unidas (ONU) disse que a candidatura dele é legítima. Porém, é um ótimo candidato e, sem dúvida, caso o ex-presidente Lula não possa vir a concorrer ao pleito presidencial, tenho certeza de que ele vai representá-lo bem.

Se você não for eleito, o que pretende fazer?

Não trabalho com outra hipótese.

Se eleito, vai continuar estudando?

Creio que sim. Não pretendo abandonar os estudos. Quero seguir fazendo mestrado, doutorado. Só irei parar se não conseguir conciliar a graduação com o mandato.

Um dos maiores problemas que a gente tem sobre a violência policial é a guerra às drogas. O que você acha sobre a legalização?

É uma questão que não tenho como opinar diretamente, porque é um trabalho do Congresso. Porém, acredito que é possível ser um porta voz e levar esse assunto à sociedade. Sobre a guerra às drogas, creio que ela não tem funcionado. Se estivesse tido êxito, teríamos acabado com esse problema.

Sobre violência contra mulher, o que você acha que os deputados podem fazer para diminuir os casos de feminicídio?

A questão da violência contra a mulher vai ser sempre tratado como caso de polícia. Há incentivo em criar delegacias da mulher, o que é bom. Mas temos poucos projetos que vão ao encontro de prevenção, educação e formação da uma nova consciência nesse sentido. Inclusive, acredito que a escola poderia ser um canal de formação para uma nova cultura.

O que você pensa sobre identidade de gênero no ambiente escolar?

Eu acho que a escola tem o papel de mostrar o que é gênero, bem como conceder educação sexual, ensinar sobre violência contra mulher e prevenir casos de machismo e homofobia. Às vezes tenho a visão de que o ambiente escolar tem apenas a função de formar o aluno para o mercado de trabalho.

A delegada Adriana Accorsi (PT) já propôs tornar o crime de feminicídio hediondo. Você acredita que o caminho é por aí mesmo?

Toda vez que a gente penaliza, que a gente cria uma nova lei penal, se tem a expectativa de que aquilo irá coibir o crime. É parte do processo, mas ainda é uma parte bem pequena. Precisa-se de campanha de conscientização. Assim como se passa nos meios de comunicação campanhas de conscientização à Aids, seria importante campanhas para evitar práticas machistas. É papel do governo fazer isso. Deve ser uma política pública.

A formação dos professores ajudaria a evitar casos de lgbtfobia e machismo?

A gente tem outra questão que é a formação dos profissionais. Por exemplo, os profissionais de saúde pública têm de estar preparado para conversar com uma mulher que foi vítima de violência doméstica. A mesma coisa deveria acontecer com a formação dos professores tanto nas questões de lgbtfobia e machismo.

Confira a entrevista completa no  Site Metamorfose:

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