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Machismo e Assédio nas Faculdades

Machismo e Assédio nas Faculdades

O machismo enraizado na sociedade contemporânea é o estopim para situações de assédio e abuso que mulheres sofrem todos os dias.

Apesar de terem conseguido muitos direitos durante os séculos com o feminismo, o machismo continua presente no cotidiano de muitas mulheres, afetando suas vidas de diversas formas. Diante de tanta repressão e silenciamento, ser mulher é uma batalha diária.

Nas universidades, o machismo também se vê presente de diversas formas. Na integração da faculdade, por exemplo, ainda há homens veteranos que obrigaram mulheres a passarem por situações constrangedoras no trote.

Desde lugares fora da faculdade como em festas universitárias, até na própria sala de aula por professores com discursos machistas, ou até vindo dos próprios alunos, o machismo é muito comum.

Um professor de matemática vivia dando em cima das meninas, de ficar elogiando em sala de aula até de chamar de gostosa, ele ficava abraçando elas. Um dia eu fiz uma prova de reposição e eu fui a última a sair da sala, e quando eu levantei pra ir embora ele começou a conversar na porta comigo, me deu um abraço e beijou meu rosto no canto da minha boca, com a intenção de beijar a boca mesmo.

Giuliana Schack foi apenas mais uma vítimas de assédio desse professor, que ela relata ter feito a mesma coisa com outras meninas. Nesse caso, pelo menos, o professor foi expulso tempos depois.

Diante da sociedade machista, até o curso escolhido pela mulher pode ser extremamente julgado. A porcentagem de mulheres em cursos de exatas como engenharia, por exemplo, é bem menor que a de homens.

Ainda há grande preconceito acerca de quais profissões são consideradas para homens e mulheres. Assim, as poucas presentes são frequentemente subestimadas e julgadas incapazes de exercer a profissão.  É comum que essas estudantes escutem discursos como: “mulher não serve pra engenharia” dentro das faculdades.

Nas salas de aula das universidades torna-se evidente uma majoritária presença de professores homens. Quanto maior o grau de ensino observa-se mais homens.

Em uma aula de ensino fundamental 1, por exemplo, é possível perceber que grande maioria são professoras. Enquanto isso, no ensino médio, em cursinhos pré-vestibulares, e principalmente nas universidades, a maioria dos professores são homens.

Isso pode ser observado também em cargos altos de empresas, muitas vezes pela desculpa de que mulheres podem engravidar, cargos de chefia são atribuídos a homens, além do fato que homens ganham cerca de 30% mais que as mulheres para fazer a mesma função.

Diante dessas aulas com professores homens, alguns extremamente machistas e com o pensamento ainda arcaico, muitas mulheres sentem-se intimidadas de demonstrarem sua opinião, e quando tentam, são muitas vezes silenciadas ou diminuídas.

Mariana Matsubara, estudante de turismo, conta que se sentiu extremamente constrangida e silenciada ao sofrer machismo em uma sala de aula. Seu professor afirmou que “o feminismo já estava ganho” e também que mulheres erraram em conseguir o direito de trabalho, pois elas teriam jornada dupla: os afazeres domésticos e o trabalho.

Assim, ele supôs que as mulheres teriam como obrigação cuidar da casa. Quando Mariana tentou rebater, ele debochou dando voz para outro menino falar em vez dela.

Um menino levantou a mão junto comigo, mesmo eu ainda querendo continuar meu raciocínio. Ele deu a palavra ao menino tirando meu momento de fala, priorizando o cara. Em nenhum momento ele foi interrompido, o menino falou por 5 minutos, conta ela.

A busca por voz e lugar de fala em qualquer lugar ainda é muito difícil para as mulheres. Por isso, muitas faculdades têm suas próprias frentes feministas para debater inúmeras questões e esclarecer a importância do movimento, além de fortalecer e unir as mulheres contra quaisquer situações de violência que podem ocorrer na faculdade. Tornando assim, o ambiente mais seguro e acolhedor para as meninas não se calarem diante do machismo.

Em grande parte das situações, as mulheres são ignoradas, desacreditadas e nada acontece. Letícia Garcia foi por três anos do centro acadêmico de sua faculdade e conta que não conseguiu levar adiante um grave caso de machismo e assédio que ocorreu no ambiente universitário:

Uma vez uma aluna, que é muçulmana, estava na área comum de estudos e um cara começou a se masturbar olhando pra ela. Ela ficou em choque e veio recorrer pro Centro Acadêmico. Ela sentia culpa e relacionava o tempo todo a roupa dela, por conta da religião, com o acontecido. Foi muito triste, tentamos levar a diante e não conseguimos por impedimento de outros professores”, conta Letícia, extremamente decepcionada por não ter conseguido fazer nada diante dessa situação.

Fora da sala de aula, em festas universitárias, por exemplo, ocorre muito assédio. Puxões de cabelo, do braço, insistência e beijos forçados são ainda muito comuns. Muitas faculdades tomaram a frente com projetos para protegerem, não só as mulheres, como negros e a comunidade LGBT em festas.

Casos de machismo nas faculdades.
Casos de machismo nas faculdades.

A Cásper Líbero, por exemplo, conta com pessoas com coletes escritos “Cásper sem Opressão” para auxiliar essas pessoas diante de qualquer problema durante as integrações e festas organizadas pela atlética. É uma pequena medida que pode contribuir para um futuro menos opressor e menos machista dentro da graduação.

Situações de assédio e até estupro também ocorrem dentro das universidades ou fora por professores com alunas. Júlia Rosa, estudante de direito, conta que tem aula até hoje com um professor que estuprou uma garota um tempo antes dela entrar na faculdade.

Ela fazia DP com ele e pediu ajuda com assuntos pessoais. E aí eles acabavam passando um tempo além do horário de aula juntos. Ele a chamou até o estacionamento da faculdade e mostrou o pênis pra ela. Depois ele a coagiu a ir até um motel ter relações com ele.

Julia conta que muitos professores colocaram obstáculos no processo e chamavam a menina de mentirosa e alguns até fizeram petição para o professor voltar a dar aula. Todos acreditavam que as acusações eram falsas e ninguém acreditava nela.

Ele entrou com um processo acusando a menina de injúria e difamação. E ele perdeu porque só seria injúria e difamação se ele não tivesse estuprado ela, e nunca ficou provado que ele não estuprou. Ele admitiu que transou com ela, mas disse que foi consensual”, explica Júlia.

É extremamente desanimador perceber que ainda existe tanto machismo e tantas mulheres ainda são estupradas todos os dias mesmo depois de tanta discussão acerca do feminismo. Por isso, ainda é preciso que surjam muitas novas medidas nas quais as universidades tomem partido para evitar que esses ambientes sejam tão tóxicos e repressivos para as mulheres. 

Assim como em muitos casos, nesse estupro da estudante nada aconteceu com o agressor. Ele foi inocentado pelo processo administrativo, mas a vítima foi extremamente julgada e humilhada. Acusada como mentirosa, ela acabou saindo da faculdade.

O professor voltou pra faculdade pra dar aulas normalmente, como se nada tivesse acontecido, com apoio dos alunos, professores e da coordenação. Eu tenho aula com ele e é horrível saber tudo que ele fez e não poder fazer nada porque sei que iria acontecer comigo o mesmo que aconteceu com ela.”, conta Júlia Rosa.

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Por Julia Palmieri – Fala! Cásper

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