Literatura x pandemia: impactos da crise no mercado literário
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Literatura x pandemia: impactos da crise no mercado literário

Literatura x pandemia: impactos da crise no mercado literário

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Como a pandemia impactou o mercado literário, de acordo com as estatísticas, as pequenas livrarias e editoras

A leitura, é um hábito muito importante, pois além de servir como entretenimento, também serve como forma de aprendizado, melhora a escrita, dinamiza o raciocínio e a interpretação. Sem dúvida alguma a leitura é um hábito muito importante para qualquer ser humano, porém, no Brasil, esse hobbie é para poucos, segundo a pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, o país perdeu 4,6 milhões de leitores entre 2015 e 2019 e agora, apenas 52% dos brasileiros possuem o hábito de leitura.

É claro que, em 2019, não existia pandemia e logicamente o fator vírus mortal que obriga os brasileiros a ficarem em casa o máximo o possível, vai mudar muito o cenário da coisa. Para Leandro Almeida, responsável pelos assuntos de marketing e comunicação da editora Kelps, a pandemia deixou as pessoas mais disponíveis para a leitura e criou a oportunidade para o livro começar a fazer parte da rotina.

De fato, aqueles que têm a oportunidade de ficar em casa, têm mais tempo livre em mãos e quiseram retornar a um antigo hábito, ou criar um e viram nos livros essa oportunidade, por isso é interessante se perguntar se, já que o mercado editorial, atualmente, é formado basicamente de grandes editoras e pequenas editoras, como a pandemia afetou cada uma dessas categorias individualmente e como afetou as livrarias.

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Como a pandemia afetou o mercado literário. | Foto: Michelly Moura.

Impactos da pandemia no mercado literário

Quando se busca refletir sobre isso, o primeiro caminho costuma ser a internet, que fornece muitas estatísticas, como, por exemplo, o balanço anual do mercado editorial, divulgado pela Nielsen (empresa mundial de pesquisa em marketing) em parceria com o Sindicato Nacional de Editores de Livros, divulga que as vendas do ano passado recuperaram as perdas da pandemia e fecharam no mesmo nível de 2019. Essa mesma pesquisa mostra que ocorreu um crescimento de 6,4% nas vendas de livros entre junho e o início de julho, claro que a maioria das vendas aconteceram através de plataformas on-line, justamente por conta da quarentena e da intensificação de promoções e campanhas de marketing on-line.

Essas estatísticas se repetem em todas as pesquisas feitas sobre vendas de livros, provavelmente porque a pesquisa tem de levar em conta as grandes plataformas digitais, porque ao observar as lojas físicas, a coisa não anda bem nem para grandes livrarias, como a Saraiva, que somente em junho fechou 14 unidades com um prejuízo de R$17,2 milhões. Ao conversar com Leandro Almeida, ele relata que as vendas da Editora Kelps caíram por alguns meses e que acredita que dois dos grandes fatores que ajudaram as vendas a não caírem ainda mais foi a lei Aldir Blanc – lei federal que prorrogou o auxílio emergencial para profissionais do setor cultural, e as adaptações que a editora fez, como o trabalho remoto, lançamento de livros via YouTube e o maior investimento nas redes sociais da editora.

Esse cenário que Leandro relata, infelizmente, é muito similar ao de livrarias locais. Para Melissa Pomi, proprietária da livraria infantil Pomar em Goiânia, as vendas não apresentaram crescimento, ela acredita que pela Pomar trazer a ideia de ser um passeio, as atividades de recreação para crianças que ocorriam antes da pandemia terem acabado, a livraria perdeu muitas vendas. Além disso, Pomi acredita que a questão dos valores dos livros entra nessa conta da perda de vendas, pois na internet e em grandes livrarias é muito mais fácil achar os livros por um preço menor, enquanto a Pomar, por ser pequena não tem condição de oferecer preços tão baixos, essa situação da Pomar se repete em várias pequenas livrarias ao redor do Brasil. 

Pomi relatou que, para continuar vendendo, a livraria precisou passar por adaptações, como começar a fazer entregas de maneira organizada e de acordo com as demandas dos clientes, passou a realizar atendimentos com hora marcada na área externa e a criação de dois clubes do livro infantil, um para adultos, com encontros on-line para conversar com o autor ou editor do livro escolhido, outro para crianças, feito através de uma curadoria de faixa etária e o envio dos livros para as crianças lerem em casa, sem encontro on-line.

Adaptação na crise

A editora Kelps, a Pomar e as grandes livrarias tiveram em comum a necessidade de se adaptar para o modo on-line e digital, afinal esse é o caminho que o mundo de hoje segue: aulas, trabalho, tudo é online, de acordo com Leandro Almeida: “Comunicação digital é fundamental para alcançar o cliente”. De fato, a pandemia tornou estar no digital quase que uma obrigação, e estar no virtual é competir com grandes vendedores que têm as condições de oferecer livros a preço de banana, por exemplo a Amazon, durante o ano de 2020 realizou diversas promoções e em algumas os livros chegaram a custar R$ 1,99.

Por isso, as livrarias e editoras pequenas tiveram que, além de se adaptar, ter um diferencial que fizesse com que o público preferisse comprar deles do que de outras  grandes plataformas. No caso da Kelps, o diferencial é o fato da editora focar em publicar autores independentes que não teriam acesso ao mercado editorial através de grandes editoras; no caso da Pomar, o fato de Melissa ter conseguido se adaptar e continuar oferecendo os serviços de curadoria de livros no digital foi o diferencial. Ambos concordaram que as redes sociais são muito importante para o negócio e têm um impacto positivo nas vendas.

Além da venda on-line de livros físicos, existe a venda de e-books, esse formato tem como líder de vendas a Amazon, que tem a própria plataforma e o próprio dispositivo de leitura digital – o Kindle, publicar um livro no Kindle é algo bem tranquilo, por isso vários autores independentes recorrem à publicação totalmente independente na plataforma. Um desses autores é John Oak, autor de Em todos os lugares, ele conta que obteve mais vendas no formato digital do que no físico, e atribui isso ao fato do formato digital ser bem mais acessível. Fora a questão do valor, John Oak explicou que, ao publicar um livro no Kindle Unlimited – serviço de assinatura de livros da Amazon -, o autor ganha por página lida e pelo tempo que o leitor deixar o livro na biblioteca ao invés de ganhar somente pela aquisição do e-book.

Apesar de terem pensado muito bem na sua presença on-line, tanto a Kelps quanto a Pomar passam por dificuldades e dificilmente se encaixam nas estatísticas citadas anteriormente de crescimento durante o ano de 2020 e, infelizmente, não existem dados que englobem apenas as pequenas livrarias e editoras. Tudo que se sabe é que elas lutam contra verdadeiros gigantes das vendas.

Mesmo assim, livrarias locais como a Pomar, com essa proposta de atender o público infantil, editoras como a Kelps, que propõem publicar escritores independentes e autores como John Oak, que escrevem e publicam de modo independente, resistem de maneira magnífica, marcando a sua presença no mundo digital, publicando livros na biblioteca do mundo – apelido para a biblioteca do Kindle, onde você encontra livros de escritores pelo mundo todo.

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Por Fabiane Rebelo – Fala! UFG

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