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Liga do Funk: o projeto que lançou MC Kekel

Liga do Funk: o projeto que lançou MC Kekel

Por Elnatã Queiroz – Fala!Anhembi  

 

A forma popular da cultura vive sob mudança constante, em contato com a realidade social. Podemos citar exemplos brasileiros como o samba, que saiu das favelas e hoje é aclamado por todas as classes. Primeiro, há a contestação do valor cultural, depois a indústria cultural entende a demanda, adequa e vende um produto comercial.

Existem pessoas que se unem para defender os seus movimentos, para fortalecê-los. O Funk, por exemplo, tem representantes como a Liga do Funk, idealizadora do projeto Morada da Liga, que busca profissionalizar artistas da periferia, promovendo o debate e consolidação do espaço.

O Fala conversou com um dos articuladores, Bruno Ramos, 31, que nos recebeu no prédio da Ação Cultural, no centro de São Paulo, acompanhado da também articuladora Andressa Oliveira, ele foi líder cultural e artístico do Conselho Nacional da Juventude, por dois mandatos, até afastar-se para pleitear um cargo público nas próximas eleições.

Também produtor, se descreve como militante da causa periférica. A ideia de criar a Liga do Funk veio do e empresário Marcelo Galático, no ano de 2012, que ainda produz,  nascido na periferia de São Miguel, viu a necessidade de trazer representatividade e profissionalização ao funk paulista, ele conseguiu se consolidar no mercado, pensou que outras pessoas da periferia poderiam ter o mesmo caminho, a liga do Funk surge para promover a conexão cultural entre os jovens.

Fotos por: Thiago Dias

No ano de 2013, nas Jornadas de Junho, a organização estava presente, a participação se deu por conta veia jovem da iniciativa, acabaram tendo contato com outros movimentos sociais de pautas convergentes e chegaram até a ONG Ação cultural, que faz parcerias, cedendo espaço para debates e rodas de conversa como a “Tem que tá Vendo”, baseada no diálogo sobre as opiniões dos participantes, a  ênfase é mostrar que nenhum pensamento é absoluto e que sempre deve haver espaço para discussão e evolução das abordagens. As reuniões são semanais, a localização privilegiada do prédio acaba sendo imprescindível para o acesso das pessoas de diferentes regiões de São Paulo.

Bruno, lado direito, sendo entrevistado. Fotos por: Thiago Dias

“antigamente muitos meninos queriam ser jogadores de futebol, hoje querem ser MC’s, visando a melhoria de vida pessoal e familiar”. Bruno acredita que a mídia vende um sonho para os garotos e garotas periféricos

O projeto recebe muitos artistas de várias partes do Brasil, já passaram por lá nomes como MC João, MC Kekel, Menor da VG, MM, Bob Boladão, MC LiL, entre outros. Afirma também que todo funk é pensado de uma forma comercial e independente, o que muda são os meios utilizados dentro da indústria cultural, reconhece que há um processo de embranquecimento, talvez uma tentativa negar que o movimento funk faz parte de uma contracultura política que tem em sua essência o objetivo de mostrar a realidade das favelas de forma poética, “muitas pessoas, até consideradas intelectuais, não veem o segmento como manifestação artística, tentam desqualificar”, esse preconceito viria principalmente do pensamento conservador-elitista, mas dentro das próprias comunidades existem antipatizantes, o repúdio pode estar ligado à figura dos artistas e ao que representam.

A imposição estética e social é contraposta  também quando nomes como MC Carol, Jojô Todinho, Lacraia, MC Lin da Quebrada aparecem no cenário musical, completa. Continuando a entrevista, Bruno cita o mecanismo de retirar a sigla ‘MC’ do nome dos cantores para tentar desvinculá-los do movimento e atingir um público mais seletivo. MC significa Mestre de cerimônia, estas iniciais são associadas a artistas de periferia, a indústria cultural procura livrar-se delas.

Para entender e ter base sobre os assuntos de periferia, Bruno sentiu a necessidade de estudar mais para compreender as formas individual e coletiva, argumenta que muitas pessoas que falam em nome da periferia, mas não têm a verdadeira noção da dimensão dos problemas, como a política de repressão, de deficiência da infraestrutura.

Ao longo destes anos o movimento teve muitas vitórias, em 2017, por exemplo, o Senado Federal apreciou o projeto de lei de iniciativa pública que sugeria a criminalização do funk, uma petição feita por um cidadão de São Paulo recebeu mais de 20 mil assinaturas no portal e-cidadania, dedicado a sugestões de leis e projetos da população brasileira. A continuidade do processo foi indeferida pela Comissão de Direitos Humanos, que analisou o caso, sob a relatoria do senador Romário (PSB-RJ), Bruno esteve em Brasília neste período, acompanhou tudo de perto, diz que os fluxos de rua e os pancadões não têm a ver com a iniciativa do movimento, o que pode ter alimentado a discussão sobre a criminalização, que as festas poderiam ser organizadas, com maior aproveitamento da economia e mais segurança, não somente com a polícia, pois as forças armadas brasileiras não estão preparadas para lidar com a população.

Em 2016 houve outra grande conquista, o dia 07 de julho foi sancionado como data estadual do funk, o projeto de lei foi apresentado pela deputada Leci Brandão (PCdoB), em homenagem ao MC Daleste, morto na mesma data em 2013 num atentado na cidade de Campinas, o MC Daleste deixou muitas músicas, falando sobre diversos temas, de ostentação ao consciente, o funkeiro é considerado um dos maiores nomes da história do funk e ajudou a popularizar o estilo ostentação. Assim como Daleste, Bruno Ramos estendeu a bandeira da autoestima, o cantor não pode mais representar o seu povo, mas Bruno continua com discurso de luta e aceitação.

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