Leonhard Seppala e corrida do soro: A história por trás do filme 'Togo'
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Leonhard Seppala e corrida do soro: A história por trás do filme ‘Togo’

Leonhard Seppala e corrida do soro: A história por trás do filme ‘Togo’

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Leonhard Seppala (1887-1967) nasceu na Noruega, país em que viveu durante toda sua infância e adolescência, mudando-se para o Alasca aos 23 anos. O grande motivo pelo qual Seppala decidiu estabelecer-se no continente americano foi a famosa “corrida do ouro”, a qual atraiu um número considerável de imigrantes.

Em 1900, chegou ao Alasca e realizou diversos serviços como pescador, lenhador, minerador e entregador. Quando conhece o empresário Jafet Lindeberg, torna-se um de seus melhores amigos e desenvolve atividades ligadas à exploração do ouro numa região próxima à cidade de Nome.

Leonhard Seppala
Leonhard Seppala. | Foto: Reprodução.

Durante sua vivência em Nome, Seppala tomou contato com a criação de cães, atividade muitas vezes relacionada com o transporte de pequenas cargas, já que os cachorros eram treinados para puxar trenós. Em 1908, o norueguês casa-se com Constance, mulher leal e fiel com quem manteve o matrimônio até o final de sua vida. Leonhard Seppala e Constance começaram um trabalho notável com a criação de cães da raça husky siberiano, de origem russa, cuja popularidade no Alasca era recente, principalmente ligada às competições de corridas de trenós.

Em apenas 10 anos, o casal já era muito conhecido no âmbito regional pela criação de husky siberiano. Neste período, seus dois maiores cães, em termos de popularidade, nasceram: Togo e Balto. O primeiro era descrito como um cão pequeno em comparação com outros de sua raça. Sua pelugem era predominantemente preta amalgamada com marrom, com traços de cinza na cabeça, tórax e nas patas dianteiras. Contudo, suas características mais icônicas eram seu ânimo brincalhão, dinâmico, desleixado e sua indisciplina. Após um longo período de treinamento, Togo tornou-se um dos cães mais fiéis e obedientes a Seppala. Seu nome advinha de um almirante japonês, Togo Heihachiro, cujos serviços foram reconhecidos sobretudo na Guerra RussoJaponesa.

Balto já nascera para ser cão líder, pois desde pequeno demonstrava todas as características necessárias para tal posição, especialmente pela sua velocidade. Seu nome foi dado em homenagem ao explorador norueguês Samuel Johanssen Balto, conhecido pelas suas aventuras e expedições na Groelândia.

Em 1925, a cidade de Nome passou por um assustador surto de difteria. Os efeitos destrutivos do surto foram potencializados pelo rigoroso inverno que acometia a região. Ademais, o vilarejo não contava com uma quantidade suficiente de soros para pôr um fim a essa doença.  A forte nevasca dificultava todo e qualquer tipo de transporte, impossibilitando o uso de estradas, vias aéreas e de linhas férreas. Enquanto as dificuldades aumentavam, crianças começaram a sofrer com os sintomas da difteria.

Em 11 de janeiro de 1925, o médico da cidade, o Dr. Curtis Welch, e sua esposa, a enfermeira Lula Welch, diagnosticaram uma criança esquimó de seis anos, chamada Billy Barnett, estando com difteria. Doença causada pela bactéria Corynebacterium diphtheriae, a qual atinge especialmente a região da garganta, afetando amígdalas, laringe, faringe e até o nariz. Mais raramente pode se instalar em outras partes do corpo. A difteria é bastante contagiosa, sendo transmitida pelo ar através de partículas de saliva e muco nasal, em outras palavras, ser disseminada através de tosse e espirros. Dentre seus sintomas mais comuns estão febre, dores de garganta, palidez, dificuldade de respirar em alguns casos, gânglios inchados e amígdalas inchadas. Se não for tratada, a difteria pode levar a óbito através de problemas respiratórios, cardíacos e renais. [1]

Apesar das constantes insistências do governo do Alasca para o envio dos soros, os empecilhos impossibilitavam o apoio do Estado e das autoridades estaduais e federais. O máximo que pôde ser feito foi o envio de 300 mil doses da vacina para a cidade de Nennana, cuja distância de Nome era de, aproximadamente, 1.085 km. Sendo assim, a única alternativa viável era a utilização dos trenós como meios de transporte de carga.

Porém, as coisas não eram tão simples quanto se imagina. Se a forte nevasca já não fosse obstáculo suficiente para assolar o caminho, os cachorros teriam que percorrer uma distância de 1.085 quilômetros em menos de seis dias, afinal, esse seria o tempo limite em que o soro resistiria às brutais condições do inverno — vale ressaltar que, em condições normais, a rota exigiria normalmente 25 dias de viagem. Não cumpri-la a tempo poderia causar uma mortalidade de 100% da população, segundo previsão médica. [2]

Para realização dessa missão, 20 times com um número total de 150 cães foram organizados, sendo que cada equipe deveria percorrer uma parcela da distância, realizando paradas em pontos de troca para aguardar a próxima equipe encarregada do transporte da vacina. Estava iniciada a “corrida do soro”. As dificuldades eram imensas, já que o frio extremo podia muito facilmente ocasionar gangrenas; as ventanias, nevascas e nevoeiros atrapalhavam os condutores. Não bastasse esses problemas, o caminho estava repleto de montanhas, depressões, rios congelados e florestas. Contudo, a determinação dos condutores e de suas esquipes possibilitou que a corrida fosse realizada apenas em 7 dias.

Leonhard Seppala e a corrida do soro

Todos são tidos como heróis e símbolos de coragem, contudo, Seppala deve ser mais reconhecido, principalmente pelas adversidades que enfrentou. Temeroso em relação à nevasca e pela necessidade de uma cura rápida para os habitantes de Nome, o norueguês percorreu 146 km em menos de 30 horas; cortou caminho através do Estreito do Norte, que se encontrava congelado, podendo o gelo se rachar devido ao atrito gerado pelos cães puxando os trenós.

Ademais, uma nevasca havia deixado o norueguês cego, sendo que, para a realização do trajeto arriscado, depositou sua confiança quase que inteiramente nos instintos do seu cão-líder: Togo. Seppala atravessou o rio e obteve êxito em seu percurso, percorrendo a maior distância da “corrida do soro”, deixando a caixa de vacinas apenas 146 km da cidade de Nome. A parte final, apenas 85 km, foi realizada pelo condutor Gunnar Kaasen e pelo cão-líder Balto.

A despeito dos esforços consideráveis de Togo e Leonhard Seppala, Kaasen e Balto recebem o louvor e a recompensa pela finalização da corrida do soro. Kaasen recebeu uma quantia considerável em dinheiro. A fama de Balto era tremenda, de tal forma que uma estátua foi levantada em sua homenagem em 1925, no Central Park. Apenas anos mais tarde, Togo e Seppala seriam reconhecidos como os verdadeiros heróis da “corrida do soro”. As aventuras de Leonhard e de seu cão-líder foram a inspiração para obra cinematográfica da Disney: Togo.

A determinação de Seppala e seu exemplo como homem de coragem e caridade

Leonhard Seppala foi certamente um exemplo de autonegação em prol do bem comum e dos valores morais de generosidade, caridade e fraternidade. A sua coragem deve representar uma inspiração para que busquemos com fervor a virtude da coragem e da esperança. Como dizia Confúcio, através dos bons exemplos os homens são influenciados e movidos para a realização de virtudes. “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.” (Mateus 5:16). Trilhar o caminho do herói, tal como fez Seppala, é uma forma de remediar o caos moral do mundo. “E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos” (Gálatas 6:9).

Como o mundo poderia ser liberto do terrível dilema do conflito, por um lado, e da dissolução psicológica e social, por outro? Eis a resposta: através da elevação e do desenvolvimento do indivíduo e da disposição de cada um para levar o Ser em seus ombros e escolher o caminho do herói. Cada um de nós deve aceitar tanta responsabilidade quanto possível pela vida individual, pela sociedade e pelo mundo. Cada um de nós deve dizer a verdade e corrigir o que está errado e quebrado e recriar o que está velho e desatualizado. É dessa forma que podemos e devemos reduzir o sofrimento que envenena o mundo. É pedir muito. É pedir tudo. Mas a alternativa – o horror da crença autoritária, o caos do estado falido, a angústia existencial e a fraqueza do indivíduo sem propósitos – é claramente pior.

Jordan Peterson em sua obra 12 regras para vida.

Conforme apontava Viktor Frankl o “sofrimento deixa de ser sofrimento quando ganha sentido”. Portanto, que o sentido para nossa existência esteja para além de nós mesmos, pois somente através das virtudes teologias e cardeais, somente por meio da caridade genuína e do desprezo de si mesmo, é possível viver plenamente e com a coragem para suportar as adversidades em prol do Sumo Bem.

Material complementar

ABOUL-EINEN, Basil H; PUDDY, William C; BOWSER, Jacquelyn E. The 1925 Diphtheria Antitoxin Run to Nome – Alaska: A Publich Health Illustration of Human-Animal Collaboration. Journal Medical Humanit, v. 40, 2019, p. 287-296. 
ANDERSON, Rebecca J. The Great Dogsled Relay: the race against diphteria. The Pharmacologist, special edition, 2014, p. 30-40. 
STOKES, E. D. The race for life. Public Health Reports, vol. 111, May/June 1996, p. 272-275. 


[1] Disponível em: http://seguindopassoshistoria.blogspot.com/2020/02/togo-e-balto-e-corrida-do-soro-no.html#:~:text=Togo%20e%20Balto%20foram%20dois,tren%C3%B3s%20e%20participar%20de%20corridas.
[2] Disponível em: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/togo-e-balto-os-cachorros-que-salvaram-uma-pequena-vila-de-ser-dizimada-por-uma-epidemia.phtml

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Por Leonardo Leite – Reaviva Mack – Universidade Presbiteriana Mackenzie

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