Jorge Sampaoli: o que os técnicos brasileiros podem aprender com ele
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Jorge Sampaoli: o que os técnicos brasileiros podem aprender com ele

Jorge Sampaoli: o que os técnicos brasileiros podem aprender com ele

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O ano de 2019 marcou uma certa revolução no futebol brasileiro. Ao fim das 38 rodadas do campeonato nacional, as duas primeiras equipes na tabela de classificação eram comandadas por técnicos estrangeiros: o Flamengo, de Jorge Jesus, e o Santos, de Jorge Sampaoli.

Embora tenha tido que se contentar com o vice-campeonato, muitos consideraram o trabalho do treinador argentino o de maior valor no país no ano, tendo em vista que o elenco rubro-negro era amplamente superior do que aquele que ele comandava. Jogadores como Arrascaeta e Gabigol tinham seus salários na casa de R$ 1 milhão mensais, realidade totalmente diferente do time da baixada. Com elenco reduzido e pouco estrelado, o Santos teve na área técnica comandada por Sampaoli seu principal trunfo durante todo o ano.

Mas afinal, o que teria implementado o treinador de tão diferente para fazer uma torcida desiludida no início da temporada ter a chance de sonhar com o título brasileiro? É justamente isso que iremos explicar abaixo, destrinchando as sete principais ideias do jogo de Jorge Sampaoli, ideias essas que os técnicos brasileiros deveriam ao menos levar em consideração. 

Jorge Sampaoli
Jorge Sampaoli: o que os técnicos brasileiros podem aprender com ele. | Foto: Reprodução.

Ideias do jogo de Jorge Sampaoli

1. Marcação pressão

Não é surpresa para ninguém que o futebol moderno passa muito por um trabalho de intensa marcação pressão na saída de bola adversária. As principais equipes da Europa jogam dessa maneira, que tira o oponente de sua zona de conforto e facilita com que o time consiga exercer sua dominância na partida com mais facilidade.

Entretanto, o futebol brasileiro sempre pareceu muito atrasado nesse quesito. Situações em que se viam defensores trocando passes no campo de defesa sem serem incomodados, apenas esperando o momento certo de encontrar um lançamento, não eram raras de serem observadas por aqui.

Os times de Sampaoli, porém, têm como característica não deixar o oponente respirar. Avançando suas linhas quase no meio de campo, os jogadores da frente têm a função de sempre apertar a saída de bola, o que acarretou num alto número de gols marcados pelo Santos após erros adversários ainda na intermediária defensiva.

A imagem abaixo ilustra muito bem como se dava a pressão do time santista. No jogo em questão, um 3×0 contra o Vasco, perceba que quatro jogadores avançam a marcação sobre a equipe cruzmaltina, deixando o goleiro Sidão sem opção de passe. Assim, Rodrygo (circulado em vermelho na imagem) consegue interceptar a bola, que sobra para Pituca (em azul) que avança e chuta de fora da área para abrir o placar. 

táticas de jogo de Jorge Sampaoli
A marcação pressão pode ser vista neste jogo Santos x Vasco. | Foto: Reprodução.

2. Adaptar o time ao adversário

Em certa entrevista nos primeiros meses de 2020, quando o Santos já estava sob o comando de Jesualdo Ferreira, o zagueiro Luan Peres alegou que a principal diferença nos treinamentos do técnico português para os tempos de Sampaoli era que o primeiro tinha uma ideia mais definida, a partir da qual buscava sempre treinar, enquanto que o segundo adaptava seus conceitos a cada jogo. De fato, Sampaoli mudava suas escalações e táticas dependendo do adversário, o que, embora tenha dado errado algumas vezes, foi essencial para a ótima campanha santista.

O volante Alison é um perfeito exemplo dessas mudanças. Sem tanta qualidade no passe, o prata da casa era utilizado principalmente em jogos difíceis e longe da Vila Belmiro, quando seus atributos defensivos eram tidos como mais úteis. Quando o Santos atuava contra equipes mais frágeis, geralmente, Diego Pituca era recuado à função de primeiro homem de meio-campo, com dois jogadores mais ofensivos à sua frente.

Outro exemplo de mudanças feitas por Jorge Sampaoli se dá em sua linha de defesa. Algumas vezes na temporada, o Santos atuou com três zagueiros, como na partida de estreia do Brasileirão, em que visitou o Grêmio e aprontou um 2×1 em Porto Alegre. Nesse dia, como exemplificado no quadro abaixo, os três zagueiros eram acompanhados de dois laterais atuando como alas, na ocasião, Victor Ferraz e Felipe Jonatan. No entanto, em outras oportunidades, o técnico santista utilizava uma “falsa” formação com três zagueiros. Isso porque ele escalava um dos beques como lateral, essencialmente em partidas em que o adversário tivesse algum extremo que trouxesse problemas à defesa.

Um exemplo disso é a primeira partida contra o Flamengo (foto abaixo), na qual Sampaoli escalou o zagueiro Luan Peres na lateral esquerda e deslocou o lateral de origem Jorge para a faixa central, fazendo uma dobradinha pelo lado direito de ataque do time carioca, por onde caía o velocista Bruno Henrique. Luan teve boa atuação defensivamente naquele jogo, impedindo jogadas do ponta adversário, mesmo com a derrota de 1×0 de sua equipe. 

futebol brasileiro
Exemplo de adaptar o time ao adversário neste quadro tático. | Foto: Reprodução.

Aqui, porém, é bom lembrar que, estatisticamente, outra frequente improvisação de Sampaoli na linha de defesa não surtiu resultado positivo. O zagueiro Lucas Veríssimo foi escalado algumas vezes como lateral direito e, em grande parte desses jogos, não conseguiu apresentar o desempenho que o colocou na seleção do campeonato em sua posição de origem. Veríssimo esteve em campo pela ala direita em jogos como a goleada sofrida para o Palmeiras, por 4×0, a vitória fora de casa contra o Botafogo, quando foi expulso, e a derrota por 3×2 para o São Paulo no Morumbi.

3. Linha de cinco no ataque

Em 2020, alguns torcedores do Santos ainda devem sonhar com a linha de cinco jogadores no ataque implementada por Sampaoli durante toda a temporada passada. O nome da tática já é bastante intuitivo. Consiste em povoar, o máximo possível, a grande área adversária nas construções ofensivas. Assim, se torna mais fácil que, em uma situação de cruzamento, haja algum jogador livre para finalizar. Dessa forma, o Santos, que não contava com jogadores altos em seu plantel, não precisava disputar bolas pelo alto para fazer gols a partir de cruzamentos. 

Mesmo assim, um em cada três gols marcados pelo alvinegro no Campeonato Brasileiro se deu a partir de cruzamentos com a bola rolando, o que demonstra a eficiência do time nesse fundamento. No entanto, dos vinte gols marcados desse modo, apenas um se deu após disputa de bola pelo alto: o gol de Eduardo Sasha, o primeiro do Santos na vitória por 2×1 contra o Ceará. Todos os outros dezenove ocorreram por méritos de posicionamento e, principalmente, pelo alto número de jogadores que pisavam na área.

Os lances abaixo ilustram justamente como era feita a chamada linha de cinco. Na foto 1, da vitória por 4×1 sobre o Cruzeiro, após o cruzamento de Sánchez (em azul), há outros quatro jogadores dentro da área. Assim, Evandro (em vermelho) tem liberdade para ajeitar para um Sasha (em verde) melhor posicionado para fazer o gol.

Na foto 2, está retratado o único tento da vitória sobre o Vasco em São Januário, quando Evandro (em vermelho), novamente, recebe cruzamento de Soteldo (em verde), e ajeita para Taílson (em azul), livre, fuzilar as redes. Havia cinco jogadores do Peixe dentro da área na jogada, o que possibilitou que se fizesse essa linha de passe com eles desmarcados.

4. Inversões, não cruzamentos

No mesmo sentido do item anterior, as inversões que ocorrem nos times de Jorge Sampaoli se dão com o objetivo de evitar que haja cruzamentos pelo alto para os atacantes disputarem, visto que, quando isso acontece, a bola deixa de estar sob o domínio de quem ataca, podendo cair para qualquer um dos lados.

Ademais, como as duas equipes comandadas pelo argentino no Brasil até então não tinham ou têm centroavantes altos de origem – o Santos jogava com Eduardo Sasha na função, ao passo que o Atlético Mineiro tem utilizado Marrony como referência -, alçar a bola para eles ganharem de zagueiros centímetros maiores não seria uma boa opção.

Tendo isso em vista, a solução encontrada pelo técnico foi implementar inversões, isto é, lançamentos encontrando alguém livre no lado oposto do que a jogada está sendo construída, geralmente nas costas do lateral adversário. Os defensores brasileiros têm a tendência de marcar a bola, e não o jogador, o que contribui para esse tipo de jogada.

No Santos, em 2019, foram muitos gols feitos a partir de inversões, utilizando principalmente os extremos Marinho e Soteldo, como na foto abaixo, quando o camisa 10 venezuelano aparece nas costas do lateral direito do Goiás para completar o cruzamento, embora tenha apenas 1,60m de altura.

jogo de Jorge Sampaoli
Inversão no jogo Santos x Goiás. | Foto: Reprodução.

5. Aproveitamento fora de casa

Mesmo com boas campanhas em Campeonatos Brasileiros recentes, o Santos esbarrava sempre na mesma fraqueza: dificilmente conseguia somar pontos longe da Vila Belmiro. Dentro de casa, o time era um. Fora, comportava-se de maneira demasiadamente defensiva e raramente vencia.

Em 2015, por exemplo, o time terminou na sétima colocação, mesmo tendo tido a segunda melhor campanha sob seus domínios, onde conquistou 48 de 57 pontos possíveis. Isso porque, fora de casa, o Santos acumulou apenas 17,5% dos pontos disputados, aproveitamento superior apenas ao do Joinville, rebaixado como último colocado naquele ano. Em dezenove partidas, o alvinegro foi capaz de vencer apenas um: contra o Cruzeiro, por 1×0.

Em 2019, um dos diferenciais da equipe da baixada passou justamente por uma melhora exponencial no desempenho fora de casa. Neste ano, o time teve um aproveitamento de 49,1% longe de seus domínios, conquistando 8 vitórias. Algumas delas bem contundentes, ainda, como o 3×0 aplicado sobre o Goiás no Serra Dourada.

É importante analisar, então, os motivos que levaram a tal aproveitamento. Além de o time ter apresentado um desempenho geral melhor que nos anos passados, houve também uma mudança na mentalidade dos jogadores. O DNA ofensivo de Sampaoli fazia com que o Santos tivesse um comportamento bastante parecido dentro e fora de casa.

Em outros anos, por exemplo, não era incomum ver o time recuando após abrir uma vantagem simples longe de seus domínios, o que fazia com que, muitas vezes, levasse ao empate ou até à virada. Entretanto, com Sampaoli, isso não se repetia. O time continuava sendo intenso e buscando sempre o gol, o que fez o alvinegro atingir sua melhor campanha fora de casa na era dos pontos corridos com vinte times. 

6. Jogadores intensos e comprometidos com a ideia de jogo

No início do trabalho de Sampaoli, circularam notícias na mídia sobre a forte intensidade de seus treinos. As sessões ocorriam em dois períodos, para acompanhar a ideia de jogo de forte pressão proposta pelo argentino. Já nos primeiros jogos do Campeonato Paulista, isso era notório. O Santos parecia muito mais preparado fisicamente, mesmo quando atuava contra equipes do interior, cujo tempo de preparação fora muito maior. Durante todo o ano, utilizando ainda a seu favor a estratégia de fazer um rodízio de jogadores, Sampaoli conseguiu manter um bom condicionamento físico no Peixe.

Ainda em janeiro, graças às atividades intensas promovidas pelo comandante, o experiente meia costarriquenho Bryan Ruiz pediu para treinar separadamente do restante do grupo, já que não conseguia suportar a intensidade pedida, o que demonstra muito o comprometimento requisitado por Sampaoli.

Além desse caso, o peruano Cueva, contratado também em 2019, não apresentou desempenho satisfatório e foi afastado após envolver-se em confusão em um bar na baixada santista. Mesmo no Atlético Mineiro, Jorge Sampaoli só trabalha com jogadores comprometidos com o clube e com as ideias de jogo, tanto é que recusou a volta do meia Cazares, de polêmico histórico extracampo. 

Em contrapartida, alguns atletas questionados pela torcida passaram a ganhar chances com o treinador e a apresentar bom desempenho, casos de Sasha, que terminou a temporada como o terceiro maior goleador do campeonato nacional, e Jean Mota, artilheiro e melhor jogador do Paulistão. Ambos compreenderam e compraram os conceitos do técnico, o que fez com que ganhassem mais chances no time principal.

7. Laterais construindo pelo meio

Por fim, a última ideia de jogo proposta por Sampaoli analisada neste texto será a de utilizar laterais construindo pelo meio. No Santos, ele se valia dessa estratégia principalmente com Jorge, pela esquerda, e Victor Ferraz, pela direita. Com a supracitada linha de cinco no ataque, o Peixe costumava atuar, na fase ofensiva, num 2-3-5, com os dois laterais fechando os três de meio de campo juntamente com o primeiro volante.

Dentro das quatro linhas, essa tática fazia com que a equipe conseguisse povoar a intermediária sem perder poderio ofensivo. Além disso, como os laterais construíam pelo meio, os extremos tinham liberdade para atuar bastante abertos e buscar a linha de fundo, uma das principais armas do Santos em 2019. Tanto no Peixe quanto no Atlético Mineiro, Sampaoli contava ou conta com pontas de boa qualidade no um contra um: Soteldo, Marinho, Keno, Savarino e até o talentoso jovem Rodrygo, vendido ao Real Madrid em julho do ano passado.

Contudo, é importante observar que, por vezes, a ideia de trabalhar com os laterais apenas pelo meio fazia o Santos carecer de jogadas de ultrapassagem. Muitas vezes, Soteldo, pela esquerda, e Marinho, pela direita, recebiam a bola sozinhos, sem ninguém para dar opção. Eram obrigados a tentar o drible na maioria das vezes, o que, em muitas oportunidades, trazia resultado, mas graças à qualidade individual dos jogadores. Resta saber, portanto, se as jogadas pelos lados do campo seriam tão eficientes nos times de Sampaoli caso tivesse no elenco pontas não tão bons ou com mais características de armação. 

Diante de tudo que foi exposto, a principal lição que se pode tirar é que os times de Jorge Sampaoli apresentam um padrão tático bem definido, diferente de outros clubes brasileiros. O trabalho que levou o Santos ao vice-campeonato nacional mesmo sem tantos valores individuais veio para provar que um bom técnico pode, sim, ser fator essencial para uma boa campanha.

É claro que existem estilos e estilos de treinar. Alguns técnicos preferem atuar num jogo mais reativo; outros, como Sampaoli, preferem exercer uma maior dominância sobre o adversário. Todos os esquemas têm suas vantagens e desvantagens, mas o que é inegável é que o técnico argentino conseguiu, em pouco tempo, dar padrão de jogo ao alvinegro praiano, algo que os demais treinadores do país deveriam levar em consideração.

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Por Bruno Genovesi – Fala! Cásper

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