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A intimidade mais profunda dos nudes

A intimidade mais profunda dos nudes

“A nudez é libertação em muitos sentidos”, nos explica Hugo Godinho, 34 anos. Hugo é ator, modelo e fotógrafo, e em todas essas artes utiliza seu corpo nu para transmitir a mensagem desejada.

A discussão que mais atrai sua curiosidade é a tendência do ser humano em sexualizar a nudez, mesmo quando as poses, gestos e comportamentos passam mensagens completamente diferentes. Hugo diz que sua missão é inspirar as pessoas a debaterem a aceitação do corpo.

“Eu quero um ensaio que expresse você da forma mais pura” é o que o fotógrafo Vitor Augusto de 20 anos (também conhecido pelo nome artístico de Tront), afirma para suas modelos. Fotógrafo desde 2014, Vitor se interessou em entrar no universo da fotografia de nus só em 2016.

Para ele, a fotografia de nu tem a capacidade de transparecer a essência do fotografado de uma forma artística que ele nunca teria se visto antes. Seu principal desejo é proporcionar aceitação entre suas modelos – em sua maioria, pessoas que não modelam profissionalmente.

“A distinção entre nu artístico e pornografia? A grande diferença é o mistério envolvendo o que vem depois”, conta Egídio Shizuo Toda, fotógrafo profissional e professor universitário na área de fotografia, design gráfico, jornalismo e publicidade. Egídio tem uma visão bastante completa sobre todo o processo de ensaios fotográficos, desde o contato com modelos até o processo de divulgação desse conteúdo, decorrente de suas experiências pessoais.

Uma reflexão sobre nudes
Uma reflexão sobre nudes

O pudor do cru

O tabu da sexualização circunda a vida das pessoas que vivem no meio da fotografia de nu, mesmo quando o tema não retrata sexualidade. A primeira modelo de Tront nesta área foi uma amiga, que aceitou fazer as fotos para que Tront testasse suas técnicas. Depois, quando ela começou a namorar, foi proibida de continuar no processo por ciúmes do namorado.

Tront também sente uma presença muito forte da questão da sexualização quando compartilha com seus amigos suas novas experiências e a primeira pergunta que lhe fazem é se ele fica excitado ao realizar os trabalhos. Em resposta, ele explica que sua preocupação com iluminação e todos os outros fatores que um fotógrafo tem que controlar para fazer um bom trabalho não permitem que ele fique excitado.

Hugo, como modelo, vive estes tabus em outra dimensão: “estou aqui discutindo uma coisa que é bem política, na verdade, com esse corpo, e tem umas pessoas falando assim ‘nossa que delicia’”, lamenta. Mas ele também diz que não é exatamente um incômodo o que sente quando as pessoas sexualizam suas fotos – para ele, as pessoas tentam sexualizar tudo. Assim, a questão é sempre explorada em uma troca: primeiro entende-se por que as pessoas pensam assim, para então ajudá-las a entenderem o nu de uma forma diferente: “esse tipo de questão me leva, justamente, a querer continuar fazendo esse trabalho, para abrir a cabeça de quem só enxerga uma coisa quando vê uma imagem de nu”.

Já Egídio acredita que a sexualização do corpo provém da religiosidade da sociedade. “Acredito que é essa formação judaico-cristã que determina o que é, o que não é, o que pode, o que não pode, que faz essa confusão em cima das pessoas, no entendimento das pessoas”. O fotógrafo acredita que esse tabu está sendo desconstruído aos poucos, uma grande mudança para um país como o Brasil, que culturalmente sexualiza o corpo, principalmente da mulher. Egídio acredita que no futuro, embora seja provável que permaneça algum preconceito contra esse tipo de arte, o nu artístico no Brasil será como na Europa, algo mais aceito pela sociedade.

O que tanto te incomoda?

Mesmo atuando como modelo na área, Hugo afirma que tem seus complexos com o próprio corpo como qualquer pessoa, mas que tem trabalhado para acabar com estes problemas. “Estamos acostumado ao corpo como uma coisa a se esconder, então em diferentes níveis as pessoas têm dificuldade em lidar com o próprio corpo”. Hugo afirma que ao perceber a importância do que essa arte despertava – um autoconhecimento nas pessoas que obtinham visões diferentes do corpo nu -, ela tornou-se sua grande inspiração.

A fotografia do nu o ajudou a conseguir aumentar o amor próprio. “Eu tinha essa preocupação com a minha imagem, no começo. (..) Depois de um tempo eu fui relativizando isso, eu fui vendo que a proposta é justamente mostrar uma diversidade, que eu posso fazer um ensaio em que eu estou feio de propósito, e que gera uma repulsa nas pessoas. Quando comecei a fazer isso, eu pude desassociar a minha imagem, e pude ser 100 coisas diferentes”.  E até por esta proposta, Hugo não é adepto ao Photoshop – mexe em iluminação para destacar o que for preciso, mas não altera o que poderia se considerar como ‘imperfeição’, a não ser que faça parte de algum projeto para despertar um questionamento específico.

Tront também enxerga nas fotografias uma possibilidade de tornar o amor próprio algo mais intenso. Para ele, é fundamental fazer a modelo confiar no fotógrafo, assim ela pode ficar descontraída, e expressar de fato o que ela deseja com aquelas fotos.

Em seu segundo ensaio, também para portfólio, ele optou por fotografar uma prostituta, pois imaginou que ela se sentiria mais confortável com a exposição, e em troca ela teria um portfólio para adotar no oferecimento de seus serviços. Tront, contudo, se surpreendeu quando se deparou com uma mulher tímida na frente da câmera. Ele explica que um ensaio fotográfico tem uma curva: no início, a modelo está tímida, mas depois que ela vê as primeiras fotos e percebe o que é possível melhorar, começa a se sentir mais confortável. Foi assim com a prostituta: ela viu a foto, exclamou um surpreso “uau”, ficou mais à vontade e tornou as fotos seguintes mais naturais.

Assim como Tront, Egídio acredita que precisa haver uma certa ligação entre o fotógrafo e a modelo, para que o ensaio ocorra de forma leve. Conta também que é comum que modelos e atrizes fotografadas escolham “viver” um roteiro no qual serão uma personagem, e assim ficam mais à vontade no ensaio. “Antigamente, quando se usava filme, o fotógrafo tirava o filme da máquina e começava a fazer o ensaio com a modelo, e quando ele via que a modelo ficava bem à vontade, recolocava o filme na câmera e começava a tirar as fotografias. A modelo não sabia o que estava acontecendo, era mais um trabalho psicológico para deixar a modelo à vontade e aí o ensaio render na imagem fotográfica”, conta Egídio.

Além de um nude

Carolina Merino, 19 anos, estudante de jornalismo, aceitou como experimentação realizar um ensaio nu.

Antes de começar o ensaio, Carolina afirmava que não conseguiria ficar nua por completo, e que estava com muita vergonha. Após algumas fotos, ela conseguiu retirar todas peças de roupa, exceto a calcinha. Quando questionada por que essa parte do corpo era mais difícil de expor, ela afirmou que as mulheres têm sobre si uma pressão muito grande para ficar de pernas fechadas, que até a imposição sob os seios é menor. Contudo, só fotografou sem sutiã fazendo poses em que o mamilo não aparecesse, pois para ela, hoje é mais comum expor as laterais dos seios.

Outra parte do corpo que lhe preocupava muito era a exposição da barriga, pois para ela existe um limite até onde ela poderia engordar, e isso é refletido nesta parte do corpo.

Carolina compartilhou conosco que sua preocupação maior com o ensaio era a sua exposição à pessoas que não a conhecem verem seu corpo, e de que certa forma se sentisse violada. Também apresentou uma preocupação com a sua reputação caso alguém de seu trabalho tenha acesso ao ensaio.

Para ela não foi difícil fazer o ensaio, por se considerar uma mulher bem resolvida com o corpo, mas isso não a exclui de se preocupar com a opinião alheia. Usuária assídua do Instagram, ela se preocupa com as curtidas, acreditando que são um reflexo de quão bonita as pessoas a acham. Isto ficou ainda mais claro quando, depois que finalizamos o ensaio e mostramos a ela as fotos, ela postou imediatamente uma em seu Instagram Stories, sempre conferindo quem havia visto.

“Meu Feed é uma construção do que eu sou. O Instagram mostra um lado meu, mas eu tenho vários lados, por isso me identifico na foto (nua), elas são um lado meu. Eu sou muitas pessoas dentro de uma só. Só mostro o que quero mostrar”, afirmou sobre sua relação com a rede social.

A irmã da Carolina, Beatriz Merino, de 15 anos, assistiu a todo o ensaio e participou da entrevista a pedido da própria Carolina. Sobre a sua opinião do que achou de ver a irmã tirar fotos nua, afirmou que foi algo especial, pois demonstra que a Carolina é segura com o próprio corpo, sendo essa uma herança passada entre as irmãs.

Carolina disse que o maior desafio para realizar o ensaio foi ter que deixar a vergonha de lado e ser ela mesma. “Era eu na frente da câmera, só isso, mostrando quem eu realmente sou, numa parte muito íntima”.

O coadjuvante dos nudes

Oii, meu nome é Thamirys Alano Costabile, mas me conhecem nas redes sociais como @tataalano, sou fotógrafa e estudante de jornalismo e tenho 19 anos. Para essa reportagem resolvi fotografar o meu primeiro ensaio de nu, e ter essa experiência foi muito marcante para mim! Uma grande vivência, principalmente por eu ter questões com o meu próprio corpo. De certa forma foi libertador, onde uma parte de mim começou a pensar diferente sobre algumas questões.

No meu ponto de vista, a parte mais importante do ensaio foi a conversa com a modelo. Saber as diferentes visões sobre o mesmo assunto entre diferentes pessoas é extremamente significativo, principalmente quando se vive em um país em que há uma indústria da moda que ainda é muito forte perante a sociedade, ditando o corpo ideal. Sem dúvida acho que todos deveriam viver algo assim, fotografando, modelando ou até mesmo só estando presente.

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Por Thamirys Alano Costabile e Vivian Gonçalves de Souza – Fala! Cásper

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