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Entenda a Hiperinflação Venezuelana

Entenda a Hiperinflação Venezuelana

Por Gustavo Gazotto Serra – Fala!USP

Hiperinflação Venezuelana

Contexto e panorama geral

A Venezuela passa, hoje, pela pior crise econômica da sua história, vindo de três anos seguidos de queda do PIB – sendo que no ano de 2016 a retração foi de 18%, tratando-se da maior queda observada do PIB de um país latino-americano desde 1980-, e apresentando elevado crescimento da inflação: cerca de 250% no ano de 2016, fechando 2017 com uma inflação acumulada de 2.616% e com uma previsão pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2.350% em 2018. Além disso, os venezuelanos sofreram uma diminuição em seu índice de desenvolvimento humano, estando hoje na posição 71 em um ranking de 188 países, segundo a Organização Internacional de Migração (OIM). Mais de 2,3 milhões de pessoas já deixaram o país.

Historicamente, o território onde hoje é a Venezuela foi local de diversos conflitos, crises e revoluções que formaram a cultura e a história do povo venezuelano. O território foi colônia espanhola de meados do século XVIII até 1819, quando a independência venezuelana foi obtida, liderada por Simón Bolívar. Assim, em 1819, ocorreu a fundação da Republica da grã-Colômbia, onde hoje são os países do Equador, Venezuela, Panamá e Bolívia.

A retirada da Venezuela da federação aconteceu em 1830. Depois disso, a Venezuela passou por quase 100 anos de ditadura. A descoberta de petróleo se deu apenas no século XX. Após muita instabilidade política, em 1998, o militar anistiado Hugo Chávez foi eleito presidente. Com o passar dos anos, porém, parte da população tornava-se insatisfeita com a governança, o que resultaria em um golpe de estado que durou 2 dias. Com o retorno de Hugo ao poder, o país passou por momentos difíceis politicamente e instáveis economicamente. Em 5 de março de 2013, Nicolás Maduro anunciou a morte de Chávez, causada por um câncer na região pélvica. Maduro, seu sucessor, assume o cargo de presidência, tendo seu governo marcado pelo declínio socioeconômico, aumento da pobreza, fome, criminalidade e inflação.

Em 2017, Maduro conclamou uma Constituinte não apoiada pelo parlamento, que removeria os cargos dos seus opositores e condená-los-ia. Além disso, Nicolás foi reeleito em maio de 2018 em uma polêmica eleição não reconhecida pelos seus opositores e por diversos países.  

A Venezuela é o país que apresenta as maiores reservas de petróleo bruto no mundo, com mais de 300 bilhões de barris, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). O petróleo é responsável por cerca de um terço do PIB do país, e compõe 95% da sua receita total de exportação, mas essa extrema dependência da economia venezuelana ao petróleo foi um dos principais fatores na crise atual da nação, devido a uma queda brusca no preço do barril, resultante da crise internacional do petróleo em 2014. A crise foi motivada pelas novas alternativas de extração de petróleo sobre rochas (Fracking), iniciada pelos Estados Unidos da América, má gestão sobre a estatal petrolífera nacional, tentativas de controle artificial do preço da gasolina e diesel a fim de frear a inflação, corrupção, venda de petróleo abaixo do preço para países aliados a Venezuela e também as sanções feitas pelos EUA sobre o país foram relevantes para essa queda acentuada no preço do insumo.  

Tudo isso teve forte impacto na sociedade venezuelana. Muitos intelectuais tem deixado o país à procura de condições melhores de vida, assim como também vão embora os grandes capitais nacionais e estrangeiros, desaquecendo ainda mais a economia venezuelana.

Cidades fronteiriças à Venezuela vêm recebendo grande quantidade de refugiados que pretendem instalar-se nos países vizinhos, o que tem causado diversas disfunções econômicas nesses locais de refúgio, além de eventuais conflitos físicos. A pequena cidade de Pacaraima, em Roraima, tem sofrido radicalmente com essa realidade instável, por não ter estrutura para receber tamanho contingente populacional. Os moradores locais estão insatisfeitos com o aumento da violência e pelos roubos causados pelos migrantes, e são muitos os protestos por parte dos cidadãos locais.

Atualmente 300 imigrantes foram enviados para o estado de São Paulo, por medida do Governo Federal, em medida para transferir parte dos refugiados de Roraima para outros estados do Brasil. Centros de acolhimento temporário como o de São Matheus no estado de São Paulo são os principais polos de atração dos estrangeiros.

Um avião enviado por determinação do presidente da Venezuela partiu de Lima com cerca de 100 imigrantes venezuelanos que optaram por voltar a seu país de origem devido às dificuldades enfrentadas no Peru.

Ademais, a Venezuela tem passado por graves “apagões” de energia elétrica, falta de gás, de água e falhas de abastecimento de gasolina. Os motivos dos “apagões”  ainda não foram oficialmente explicados, e tais eventos vem afetando diversos estados, criando problemas nos sistemas de transporte, nos meios de trabalhos e até em necrotérios – a explosão de cadáveres pela falta de refrigeração é um problema hoje na Venezuela. A falta de eletricidade também criou um mercado de carnes estragadas no país: mostrando-se mais baratas e acessíveis, já que um quilograma de carne custa um terço do salário mínimo venezuelano, as carnes podres fazem sucesso porque custam cerca de um porcento do salário mínimo. Já a falta de água, gás, e a falhas no abastecimento de gasolina são consequências diretas da crise econômica que o país vive, devido a diminuição de investimento estatal em infraestrutura e manutenção nesses sistemas, o que resulta em problemas na distribuição de tais compostos para a população.

Um outro evento que está acontecendo na Venezuela é um tipo de doação forçada de bebes recém-nascidos a famílias mais ricas, e um crescente abandono de crianças nas ruas. Atualmente, 87% dos venezuelanos vivem na pobreza. Em 2014, eram 48%. Essa situação toda fez a população perder 11 quilos em média no ano passado.    

A saúde pública na Venezuela passa por uma crise de profissionais: segundo a organização pan-americana de saúde (Opas), um a cada três médicos foi embora do país nos últimos anos. Estima se que 22 mil médicos já deixaram o país, e pe cada vez maior o número de casos de AIDS, malária, tuberculose, sarampo, entre outros, além do aumento na taxa da mortalidade infantil. Some o êxodo médico a uma crise de abastecimento de medicamentos, equipamentos, fuga de enfermeiros, de técnicos de laboratório e uma constância de “apagões” nas cidades venezuelanas, o que dificulta tratamentos, cirurgias e internações.

Além de todo sucateamento estrutural da Venezuela, a crise econômica também atinge o psicológico da população, o que vem resultando em uma crescente taxa de suicídio no país, em um crescimento nunca antes noticiado no local. Em destaque está o estado de Mérida, que em 2017 obteve uma relação de 19 suicídios para cada 100.000 habitantes, números raros no mundo e inéditos na região.

Em 2017, no 81º aniversário da guarda nacional bolivariana, Maduro sofreu um atentado a bomba por drones quando celebrava o ato militar. Apenas alguns militares se feriram. Dias depois, um vereador líder de oposição a Maduro, Albán Fernando, que estava preso, foi encontrado morto após suposto suicídio em um prédio da polícia – sua morte é investigada como um homicídio por parte dos policiais, que teriam jogado o homem pela janela do 10º andar do prédio. Críticos afirmam que a morte foi por mando de Maduro, que aponta envolvimento do ex-vereador com a atentado na parada militar, o que reforçaria ainda mais o caráter totalitário e militarizado do governo em soma aos 121 mortos e 2000 feridos em protestos contra Maduro.

Sintetizando brevemente conceitos econômicos: existem países de economias abertas, ou seja, sem legislações restritivas a novos processos produtivos, relações entre empresas, produtos, serviços e entre outros aspectos, que inovam o mercado e as relações sociais. Existe também os países de economia fechada, que restringem certos processos e relações em sua economia e mercado. Entre esses dois modelos extremos há uma gradualidade de combinações de países que restringem em alguns aspectos e subsidiam outros. Diante de tudo isso, a Venezuela se mostra um país de economia extremamente fechada.

O processo de desvalorização de moedas e a mensuração dessas variações (inflação ou deflação) são conhecidos há anos, e já foram relatados em diversos países em diferentes períodos da história humana, com diferentes causas para a sua ocorrência. O conhecimento atual de macroeconomia já nos permite entender as causas da inflação, bem como combatê-la com algumas medidas, como trade off da inflação e desemprego representados, pela curva de Phillips.

O conceito de hiperinflação é definido como uma inflação fora de controle. No caso da Venezuela, esse fenômeno é tão acentuado que já são comuns as impressionantes imagens de grandes quantidades de Bolívares que são necessários para se comprar produtos básicos como farinha e papel higiênico.Ainda há a escassez de produtos nos mercados, pela inviabilidade de produção pelas empresas privadas e pelos crescentes casos de contrabando de produtos. Tal situação tem intensificado ainda mais as migrações dos nativos à países vizinhos, sendo a Colômbia o país que mais recebeu migrantes venezuelanos.

Um quilo de carne ao lado de 9.500.000 bolívares
Para comprar um quilo de carne, são necessários 9.500.000 bolívares.

Um exemplo histórico de hiperinflação foi a enfrentada pela Alemanha entre os anos de 1914 e 1923, período entre guerra, também conhecida como República de Weimar. O panorama era de crise econômica: com uma imensa divida causada pela Primeira Guerra Mundial, todos os bancos alemães deram assistência ao governo central para os esforços de guerra, o que durante e após a guerra representou uma dívida quase que impagável pelo governo, que tomou a impressão de dinheiro alemão como forma de sanar essas obrigações. Todo esse montante, porém, foi impresso e colocado em circulação sem qualquer tipo de lastro econômico. A inflação no começo desse processo se mostrou discreta, entretanto no fim da guerra a quantidade de dinheiro em circulação era de 4 vezes mais do que a quantidade no inicio dela, os preços já tinham aumentado 140% e a taxa mensal de inflação de preços chegou a um teto de 29.500% no mês de outubro de 1923.

Até dezembro de 1923 o banco central alemão (Reichsbank) já havia emitido 496,5 quintilhões de Marcos, sendo que nessa altura cada dólar americano valia 4,2 trilhões de Marcos. Após a morte do presidente do banco central alemão, Havenstein, Hjalmar Schacht viera a se empossar do cargo e mudar as políticas vigentes. Ele primeiro tentou estabilizar a moeda nacional sem lastro com o dólar, intervindo no mercado de câmbio, o que surtiu efeitos e normalizou a situação monetária do país. Toda aquela instabilidade foi relevante para a campanha de Adolf Hitler, que usou a experiência de Weimar para se promover como oposição e ganhar notoriedade.

A experiencia inflacionária brasileira não se mostrou tão radical como a alemã, mas teve sua relevância, sendo seu ápice na década de 80 e no início da década de 90. As causas da hiperinflação no Brasil são amplamente explicadas pelo aumento nos gastos públicos, principalmente no governo militar, e pelo aumento do endividamento externo, como o aumento no preço de petróleo. Planos de controle da inflação foram amplamente implementados no país, sendo eles o plano Cruzado, plano Cruzado II, plano Collor, mas só o plano Real em 1994 que realmente surtiu efeito sobre a inflação galopante. O período de instabilidade monetária ficaria marcado na mente do brasileiro, período das corridas aos mercados, estoques de produtos nas casas, remarcação de preço acelerada entre outros fatos foram extremamente custosos na época.

Um rolo de papel higiênico pode ser comprado por 2.600.000 bolívares.

O caso da Hungria de meados do século XX foi a maior taxa de inflação mensal já registrada, sendo 41.900.000.000.000.000% em julho de 1946, o que representa uma inflação diária de 207%. Toda essa instabilidade teve como causa a emissão de papel moeda para financiar a Segunda Guerra Mundial, motivo semelhante ao da Alemanha, mas os resultados foram muito diferentes devido à rapidez e ao volume de papel moeda emitido no período, sendo a inflação com maior taxa de crescimento de todos os tempos.

Os números exatos da inflação venezuelana são difíceis de serem obtidos devido ao extremo controle do governo sobre os dados econômicos e sociais do país. A Venezuela não disponibiliza seus dados ao FMI desde 2016, dificultando qualquer análise assertiva sobre medidas de contenção ou controle da inflação. 

Em uma tentativa de tirar a Venezuela dessa crise monetária/econômica, o presidente Maduro adotou o Petro, a criptomoeda venezuelana, como moeda oficial, custando um barril de petróleo (US$60) cada Petro. A medida foi adotada antes do lançamento do Bolívar soberano, introduzida em agosto de 2018, que substitui o Bolívar tradicional reduzindo 5 zeros da moeda como forma de controle sobre a hiperinflação. O Petro é uma outra forma de tentar a superação de crise emitida pelo estado. Essa ferramenta é aceita como forma de pagamento de impostos, taxas, contribuições e serviços públicos nacionais, tomando como referência o preço do barril venezuelano do dia anterior com um desconto. Foram emitidos mais de 100 milhões de Petros pelo governo desde seu lançamento, em fevereiro de 2018, e em dezembro de 2017 o Petro foi anunciado através de um anúncio televisivo feito pelo presidente. Além da Petro, lastreada no petróleo, foi lançada também o Petro Gold, uma outra criptomoeda estatal da Venezuela que se apoia no ouro do país.

Finalmente, observar como a escolha de um político executivo pode mudar a história de um país inteiro, sendo a forma econômica de governo a que mais influência exerce sobre todas as outras esferas. No caso da Venezuela, o erro de Chávez, e tamdém de Maduro, de depender do petróleo como fonte de renda, além de outros fatores, resultaram no colapso da economia, quando o preço do petróleo caiu, além de uma crise humanitária e social como consequência.

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