Cadastre-se e tenha acesso a conteúdos exclusivos!
Quero me cadastrar!
Menu & Busca
A imprensa de volta à Neverland – um contraponto a “Leaving Neverland”

A imprensa de volta à Neverland – um contraponto a “Leaving Neverland”

Por Gabriel Costa – Fala! Cásper Líbero

Em 25 de junho deste ano, completa-se exatamente uma década da morte do cantor Michael Jackson. Todos certamente se lembram de onde estavam, com quem estavam e o que sentiram quando foram informados de que o Rei do Pop e figura marcante das décadas de 1970, 1980 e 1990 havia falecido abruptamente aos 50 anos.

Aqueles que têm boa memória – fãs de Jackson ou não – deverão se lembrar de que a cobertura de sua morte e de seu legado não se limitou a um intervalo de uma semana e menções nas retrospectivas de final de ano, como viria a acontecer com outros artistas falecidos precocemente nos anos seguintes como Whitney Houston (2012, aos 48), David Bowie (2016, aos 69) e George Michael (2016, aos 53 anos).

Michael Jackson, acompanhado de seu então advogado Tom Mesaure, durante o julgamento por pedofilia, em 2005. O cantor foi absolvido de 10 acusações à época.

Este ano, no entanto, Jackson já está no noticiário antes mesmo do fatídico 25 de junho – e o clima já não é mais o de homenagens e tributos de dez anos atrás. O responsável por isso é o documentário Deixando Neverland (Leaving Neverland, no original), de Dan Reed e produzido pela HBO.

Exibido no Festival de Cinema de Sundance, dedicado aos filmes independentes, em janeiro, e lançado em março pela HBO nas televisões dos EUA, do Brasil e de outros países, o documentário de Reed passou a ser tratado como o “demolidor do legado de Michael Jackson”, ao abordar, por meio de depoimentos, duas novas denúncias de pedofilia contra o astro pop, que teriam ocorrido nos anos 1990.

Como já analisado aqui neste mesmo Fala!, os depoimentos de James Safechuck e Wade Robson são, de fato, extremamente desconfortáveis de ser ouvidos e imaginados, somado ao fato de a produção ter inacreditáveis quatro horas de duração (dividido e exibido em duas metades na televisão). No entanto, caberia à imprensa questionar: mais uma (ou duas) denúncia de pedofilia contra Michael Jackson, no ano de aniversário de sua morte, seria a prova cabal de que ele era mesmo um predador sexual e destruidor de infâncias, ou mais uma tentativa de destruir a reputação de um artista apenas pela sua excentricidade e fortuna acumulada – não necessariamente nessa ordem?

O veredicto da imprensa mundial (e, por extensão, da brasileira) tem sido o de que o documentário de Dan Reed é a pá de cal na vida e na obra do Rei do Pop. Como consequências das acusações feitas por Safechuck e Robson, várias rádios ao redor do mundo, incluindo países como Canadá, Austrália e Nova Zelândia decidiram não mais tocar músicas do repertório de Jackson, e até mesmo a animação satírica Os Simpsons deixou de exibir um episódio no qual o cantor é mencionado e aparece como dublador.

Num outro documentário, Michael Jackson – A Vida de um Ícone, produzido por David Guest (amigo de Jackson, é importante ressalvar), são narradas detalhadamente as duas outras acusações de abuso infantil que macularam a trajetória de Jackson: a de Jordan Chandler, em 1993, e a de Gavin Arvizo, em 2003.

Na primeira, Jackson, que estava em turnê mundial à época, foi aconselhado pelos advogados a encerrar o caso por meio de um acordo extrajudicial com os pais da suposta vítima, o que acabou ocorrendo, numa estimativa de US$ 20 milhões em valores da época. O biógrafo do artista J. Randy Taramborelli e outros entrevistados no documentário próximos a Jackson contam que o questionaram do porquê de ter firmado o acordo e se ele sabia como isso teria impacto na opinião pública.

Dez anos depois, uma nova acusação, decorrente de um (outro) documentário Vivendo com Michael Jackson (Living with Michael Jackson), do jornalista Martin Bashir. Nele, Jackson apareceu de mãos dadas com Gavin Arvizo, à época com 13 anos e em tratamento contra um câncer, em seu rancho Neverland. Em comum com o outro caso, além do mesmo teor da acusação, o mesmo promotor, Thomas Sneddon, que, segundo muitos, tinha uma obsessão pessoal em prender o cantor – recebendo de Jackson uma música “dedicada a ele”, D.S.

Uma das declarações de Taramborelli é marcante e merece ser refletida neste ano de novas acusações e aniversário de morte do artista. Segundo ele, na fila de credenciamento de jornalistas para entrar no tribunal, um jornalista teria dito, em tom de ironia: “Alguém aqui, além de J. Randy Taramborelli, acredita mesmo que Michael Jackson não seja culpado?”  Jackson acabaria sendo absolvido das 10 acusações no julgamento a que foi submetido em 2005. Para muitos, aquela foi sua primeira morte, precedendo a morte física, quatro anos depois. Talvez, agora, dez anos depois, seja a tentativa de matá-lo até mesmo na memória coletiva.

0 Comentários