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Era o Hotel Cambridge – a vida atrás das manchetes

Era o Hotel Cambridge – a vida atrás das manchetes

Por Layon Lazaro – Fala!USP

No cinema de hoje, talvez o que há de mais interessante quanto a experimentos e invenções esteja no campo do documentário. Os documentários modernos são terrenos ricos em criação artística e potência formal. É um ótimo momento pra se fazer documentário no Brasil, quando as fronteiras entre o documental e o cinema experimental estão cada vez mais cinzas – e filmes muito interessantes surgem desse momento.

Demorei para ver Era o Hotel Cambridge. Lançado no final de 2016, só o assisti no início de 2018. Para ser sincero, o tema ocupações/luta por moradia não me despertava o menor interesse. Não concordo com boa parte das reivindicações comuns a esses movimentos, e tinha contra eles aquela indisposição típica de quem se informa desse tema só pelas manchetes de grandes jornais.  O grande mérito de Era o Hotel Cambridge, para mim, é justamente ir além da fria distância das notícias e revelar o humano antes do invasor, a humanidade por trás das manchetes. O filme é um exercício de empatia. 

 

 

A fotografia heterogênea do filme não esconde sua estratégia de mesclar criações ficcionais e retratos documentais: a textura da imagem revela que em determinados momentos a captação foi feita em ambientes controlados, enquanto em outros a câmera age com uma visão de documentário. Mas se a percepção desse jogo entre real e roteirizado dependesse da dramaturgia ou da atuação dos personagens ficcionais, jamais saberíamos: os atores estão excelentes, soando incrivelmente autênticos naquele meio tão rico e específico.

Já nas cenas iniciais somos apresentados ao gatilho do filme: um pedido judicial de reintegração de posse que ameaça o destino das dezenas de famílias que compõem a ocupação no hotel paulistano. Sendo eu um paulista filho de migrantes nortistas, me surpreendi com a delicadeza e perspicácia que o enredo nos conduz a conhecer com mais particularidade os dilemas dos migrantes no Brasil, entre eles refugiados do Congo e da Palestina, retratando subjetividades, dores e choques culturais de cada um. A rotina, as reuniões, as tarefas e os momentos de engajamentos são retratados com fluidez. Me incomodei com a insistência nas reivindicações dos movimentos de moradia e a postura socialmente questionadora, com aquele ar de assembleia estudantil, que por vezes era mais forte que a narrativa. Mas entendo que a “propaganda” seja parte essencial do filme – e os méritos são todos da esquerda, que sabe que tudo é política, e por isso mesmo faz política de tudo – inclusive da arte mais humana.

Os personagens ficcionais são utilizados com inteligência, servindo de conexão para as muitas culturas presentes na ocupação, como Apolo, vivido por José Dumont, que inicia uma companhia de teatro em que os moradores representam suas próprias identidades culturais, trocando experiências e memórias afetivas. A narrativa é um mosaico de muitas vozes, com um grande grupo de personagens principais, secundários e figurantes orquestrados com habilidade e sem grande exclusividade em nenhum deles. É perceptível a colaboração dos não-atores com suas experiências reais nas falas de seus personagens. Em certo momento, Apolo, em uma espécie de vlog  da ocupação, pergunta “Cadê o foco narrativo?“. Respondo, Apolo: não há um foco. O protagonista é a luta, sendo cada personagem, ficcional ou náo, apenas uma faceta dela.

Há um sentimento de urgência e um suspense crescente ressaltado pela contagem regressiva para a data marcada para a reintegração de posse. Essa tensão diária pelas ameaças de despejo permeia todo o filme, e o contraste dessa urgência com os pequenos dramas, alegrias e diferentes visões do mundo dos ocupantes (tudo isso trabalhando nos limites entre o ficcional e o documental, incluindo anônimos contracenando com nomes importantes do cinema nacional) deve ter sido um trabalho extraordinariamente difícil, mas que o filme dá conta de forma impressionante, com os detalhes de algumas pequenas quedas de ritmo.

Mas apesar de todas as invenções formais e todo o seu peso político, Era o Hotel Cambridge consegue ser também um filme divertido, principalmente pelo irreverência com que trata seus personagens. Entre as cenas de política bruta e de posturas sociais combativas reside o verdadeiro tesouro do filme: o cotidiano de romances, encontros, desencontros e brincadeiras daqueles ocupantes. E são nesses momentos de intimidade que o filme completa seu exercício de empatia, encurtando distâncias e transformando o estranhamento em identificação de tal modo que um jovem reacionário como eu tenha gostado do filme e saído dele com vontade de qualquer dia visitar uma ocupação.

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