Homofobia e futebol: como o problema é encarado no Brasil e no mundo
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Homofobia e futebol: como o problema é encarado no Brasil e no mundo

Homofobia e futebol: como o problema é encarado no Brasil e no mundo

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Casos de homofobia no futebol acontecem em todos os lugares, porém a forma como são combatidos se difere dependendo do país.

Já virou tradição na Premier League. Esse ano os clubes da Terra da Rainha aderiram mais uma vez à campanha “Rainbow Laces”, realizada pela instituição de caridade Stonewall. Visando combater a homofobia nos estádios, a ação começa em 28 de novembro e vai até 8 de dezembro. Não são só os clubes mudam sua foto de perfil nas redes sociais durante o fim de ano para uma versão colorida, como também a própria Premier League muda sua identidade visual dentro e fora das quatro linhas.

Chuteira com cadarços coloridos calçada pelo meia da seleção inglesa durante partida entre Leicester e Watford.

Os primeiros clubes ingleses de maior destaque à abraçarem a campanha foram Arsenal, Manchester City e Manchester United, em novembro de 2016. De lá para cá os demais integrantes do top six (Arsenal, Chelsea, Liverpool, Man City, Man United e Tottenham) passaram a mudar sua foto de perfil no Facebook também, assim como as outras equipes da Premier League. O Man United, inclusive, faz parte desde 2017 da Team Pride, uma coalizão de grandes empresas, como a Adidas, que visa combater a homofobia e demais casos de discriminação nos esportes. O papel dos Diabos Vermelhos é fundamental em ações como essa no futebol inglês visto que são os maiores campeões da principal competição nacional e possuem o maior número de torcedores no país, acima dos quatro milhões, fora a relevância mundial e sua base de fãs pelo mundo a fora.

A homofobia, contudo, ainda é um grande tabu não só fora como, pior ainda, dentro das quatro linhas, e não só no futebol inglês. A respeito desse clima hostil em relação ao diferente, Antoine Griezmann, craque do Barcelona e campeão do mundo em 2018, disse em entrevista em maio à revista Têtu, principal revista gay de seu país, que “a homofobia não é uma opinião, é crime”. A estrela do time catalão também afirmou que “se um jogador gay deseja anunciar que é homossexual, talvez não terá todos os jogadores da seleção francesa a seu lado, mas eu estarei”. Esse posicionamento partindo espontaneamente de um jogador de tanto relevância, infelizmente, ainda se trata de algo isolado. Porém é inegável que se trata de algo extremamente necessário em meio à comunidade de jogadores que comumente se mostra a parte das questões mais relevantes que estão em pauta na sociedade atual.

Como a pauta é vista no futebol brasileiro

Em agosto deste ano, tivemos algo inédito no futebol brasileiro em relação ao tema. Pela primeira vez no país uma partida foi interrompida até que os gritos homofóbicos deixassem de ecoar no estádio de São Januário, no jogo entre Vasco e São Paulo válido pela 16ª rodada do Brasileirão. Além da necessária pausa, os clubes se organizaram para lançarem em suas redes sociais a campanha “Diga Não à Homofobia!”. Todos os 20 times que disputaram a competição nacional postaram no dia 30 de agosto uma imagem contendo um dizer “pior que prejudicar seu time é cometer um crime”.

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O Bahia, uma das equipes mais engajadas socialmente no Brasil, lançou no dia 17 de maio desse ano uma camisa temática fazendo referência à data.

Porém, desde então não foram vistos mais pronunciamentos das equipes quanto ao tema, fazendo assim parecer ter sido algo muito mais pontual do que uma causa contínua. O Campeonato Brasileiro, assim como diversos outros pelo mundo, como o próprio inglês, convive com a realidade dos cantos homofóbicos, contudo mostra ter uma disposição muito pequena para mudar esse cenário, com atletas nunca se envolvendo e utilizando o poder de sua imagem para apoiar a causa. O máximo que ocorre é o pronunciamento esporádico, apenas quando sua necessidade passa do extremo, como na ocasião citada acima. Às vezes nem isso acontece, como foi visto em maio desse ano, no Dia Mundial Contra a LGBTfobia, quando apenas alguns dos times da série A se manifestaram a favor do combate a esse problema que mata uma pessoa a cada 16 horas no Brasil, segundo relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos realizado no fim de 2018.

Esta relutância em apoiar publicamente a causa parte de um temor dos clubes que não se limita apenas à essa pauta, mas se refere à todas. Nas postagens de apoio, comentários contrários e homofóbicos são frequentes. Por isso os clubes preferem não se expor e deixar a sua força de lado, não se engajando em temas sociais muito importantes como a aceitação das pessoas LGBTQs. Dessa forma, a adesão apenas pontual e a omissão deliberada em alguns casos por parte da esmagadora maioria acabam reacendendo uma polêmica: seria isso apenas jogada de marketing? Mas para ter certeza de que não é, teremos que aguardar para ver se a postura das equipes continuará sendo apenas pontual, ignorando a questão quando lhes convém, ou se estamos em meio a um crescente engajamento por parte dessas instituições. O triste é que, enquanto isso, há milhares de torcedores silenciados e que não podem simplesmente ir ao estádio apoiar seu time em um domingo sem conviver com o medo.

Se interessou pelo tema e quer saber mais sobre? Dê uma olhada no podcast FUTEBOLÊS, que tem um episódio dedicado a falar só sobre o assunto. Também é legal dar uma lida na matéria do Observatório da Discriminação Racial sobre o St. Pauli, time que abraçou diversas pautas sociais. É só clicar nos links disponibilizados neste parágrafo!


Por Carlos Vinícius Magalhães – Fala! UFRJ

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