Home / Colunas / Identidade perdida – Histórias de Moradores de Rua

Identidade perdida – Histórias de Moradores de Rua

Danielle Moratte – Fala!Anhembi

 

O despertar toca. Você reluta em seguir a rotina, mas está preso a ela. O dia não vai esperar por você.  Café da manhã, roupas, afazeres e diferentes rotas. O ponteiro gira, você corre.

Nessa briga contra o tempo, encontramos diversas pessoas. Seja aquela companheira de viagem no transporte público, aquele conhecido da padaria ou simplesmente aquele moço que também estava com pressa e esbarrou em você. Nada sabemos sobre as histórias que cada um leva consigo.

Será que estamos dispostos a notar todo o tipo de gente com as quais nos deparamos?

Somos vistos pelo o que temos e, muitas vezes, a falta do que ter nos torna invisíveis. Lidar com as diferenças dos outros não é fácil. Estamos juntos, mas distantes. A chance de saber o que o outro carrega é quase nula, pois a força do andar é rápida e somos obrigados a demonstrar que estamos bem.

Mas afinal, o que somos?

A história de cada um não pode ser descoberta apenas com um olhar preconceituoso. Às vezes o destino se perde entre nossos dedos e a busca pelo desconhecido nos transforma em nossas próprias vítimas.

Apenas na cidade de São Paulo, a maior do País, segundo o senso da Fipe/USP realizado entre fevereiro e março do ano de 2016, haviam 16 mil moradores de rua.  Estima-se que hoje, na capital paulista, existam entre 20 mil a 25 mil moradores de rua. E 3% deles são crianças. Enquanto a população de São Paulo cresce, em média, 0,7% ao ano, o número de moradores de rua aumenta 4,1%.

Aproximadamente, 88% dos que vivem nas ruas são do sexo masculino. A faixa etária média é de 41 anos. Com relação à cor declarada, 72,1% se consideram ‘’não branco’’ (pretos, pardos, amarelos ou indígenas).

Conforme diz o artigo 5 da Constituição brasileira: ‘’todos são iguais perante a lei”, ou seja, nenhum morador de rua pode ser obrigado a viver em um abrigo. Entre vícios e desilusões, a rua parece a única saída ou a última opção.

Rosana reconhece a invisibilidade que adquiriu após ir morar nas ruas da cidade de São Paulo. A nossa conversa começou de maneira sucinta, mas se fosse necessário poderia começar até mesmo em outra língua. Fluente em japonês, a vida de Rosana foi próxima do que muitos querem conseguir.

As lembranças retornam à mente enquanto conversamos sobre a sua antiga vida.

Durante anos, Rosana viveu no Japão ao lado de sua família. Casou-se jovem e foi tentar a vida nas origens históricas de seu então marido. Sua vida era estável, e no oriente ela começou a crescer financeiramente. Mãe de 3 filhos, hoje cada um segue sua vida entre Japão e Brasil.

Com olhar marcante e batom vermelho, ela não imaginaria que em poucos anos a sua vida mudaria drasticamente. Ainda no Japão, ela viria a adquirir o vício das bebidas. Entre romances não esclarecidos, o seu casamento se enfraqueceu. Após alguns problemas com a justiça japonesa, o Brasil a recebeu novamente, pois o governo japonês a havia deportado.

Em meio a tantas perguntas, a vida foi tomando seu caminho e no meio das curvas, em cada pedaço, um passado de Rosana era deixado.

De volta em seu país, seus pais a receberam. Com tantas desilusões, a bebida – de novo – foi uma aparente saída psicológica, o que uma vez interferiu em seu casamento, viria interferir sua vida. Mas se ela ainda não havia desistido do amor, infelizmente não foi do jeito que ela esperava. Entre brigas, o seu novo relacionamento só a fazia mal, e em uma das discussões ela foi esfaqueada na barriga.

Hoje, ela aguarda na fila de cirurgias do Sistema Único de Saúde de São Paulo (SUS), decorrente das facadas que a deixaram com sequelas.

Seu apoio voltara a ser sua família, e foi então que decidiram colocá-la em uma clínica de reabilitação. Não foi fácil. O principal passo de aceitação era o dela. Ela não o aceitou.

Depois de tantas decepções, a rua foi o local que Rosana escolheu para viver. Hoje, com 52 anos, suas noites são em frente à escola próxima ao bairro em que ela nasceu. Seus pais, com idades entre 68 e 72 anos, ainda são presentes em sua vida, e uma vez ou outra ela ainda recorre a eles para se banhar e arranjar cobertas para passar as noites mais frias. Sua mãe também se encarrega de levá-la ao posto de saúde.

A única saudade que ela ainda carrega é a de seus filhos, conforme ela mesma diz:

‘’A mãe tá aqui no meio da rua com amigos… eu queria que vocês viessem pelo menos dar um alô pra mãe, eu amo vocês viu?! Pelo amor de Deus, ore pela sua mãe enquanto você tem ela, um dia você pode se arrepender, mas eu adoro vocês…’’

 

 

LEIA TAMBÉM:

Conheça a Coração de Bambu, a ONG que auxilia outras ONGs

Confira também

Consciência Negra, muito além do dia 20 de novembro

Por João Guilherme Lima Melo – Fala!PUC   Projeto de lei número 10.639, dia 9 ...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *