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História do Vinho em Santa Catarina

História do Vinho em Santa Catarina

Por Gil Karlos Ferri [1] – UFSC
Fotos por Vinho de Altitude Produtores e Associados. 

Este artigo apresenta a trajetória da vitivinicultura no Planalto de Santa Catarina. Embora a vitivinicultura apareça como tema recorrente em diversas áreas do conhecimento de países europeus, no Brasil as pesquisas ainda são incipientes. Nas últimas décadas, o crescimento da produção e consumo de uvas e vinhos vêm conferindo especial importância ao setor vitivinícola. Notando o dinamismo deste setor e suas implicações socioambientais, este artigo pretende compreender os processos históricos da interação entre grupos humanos, espaços geográficos e espécies viníferas no Planalto de Santa Catarina, sob a perspectiva da História Ambiental Global.

O campo de pesquisa da História Ambiental busca compreender de forma crítica a relação entre a cultura humana e o ambiente físico. De acordo com Donald Worster, um dos precursores dos estudos histórico-ambientais, a História Ambiental ajuda a “aprofundar o nosso entendimento de como os seres humanos foram, através dos tempos, afetados pelo ambiente natural e, inversamente, como eles afetaram esse ambiente e com que resultados” (WORSTER, 1991, p. 199-200). Neste sentido, os estudos socioambientais nos apresentam o ambiente como fator ativo, visto que as pessoas organizam e reorganizam suas vidas relacionando-se com o meio natural.

A História do Vinho no Mundo

Nos processos de migração, domesticação e disseminação de espécies, as videiras (plantas trepadeiras do gênero Vitis) e os seres humanos modernos (Homo sapiens sapiens) são exemplos da interação ocorrida entre seres vivos. O vinho, bebida produzida a partir da fermentação das uvas, provavelmente surgiu há cerca de 7 mil anos na região do Cáucaso, na Ásia Menor. Através das migrações e trocas comerciais entre os povos, o vinho ganhou destaque em culturas como o Antigo Egito, Fenícia, Grécia e Roma, chegando até nós, sobretudo, através da importância da bebida na mitologia judaico-cristã (JONHSON, 2001, p. 51). 

No século XX o vinho tornou-se uma commodity de estratégica relevância econômica e social. Este interesse é justificado por sua milenar importância simbólica e cultural, bem como, notadamente, seu alto valor agregado. Para muitas culturas, o vinho é considerado um alimento. Além disso, pesquisas têm demonstrado aspectos positivos do consumo moderado do vinho para a saúde, relacionando a bebida com a prevenção de doenças, a longevidade e uma melhor qualidade de vida (GUILFORD & PEZZUTO, 2011, p. 471).

A produção de Vinho no Brasil

No Brasil, a produção de uva e vinho tornou-se um negócio expressivo com a imigração italiana, pesquisas tecnocientíficas e incentivos governamentais. No século XIX, a produção vitícola teve impulso com a importação de variedades europeias, americanas e híbridas[2] introduzidas nas áreas de colonização italiana do país, como a Serra Gaúcha e o Sul de Santa Catarina. Em consequência do crescimento do mercado consumidor, a partir da década de 1970 verifica-se uma modernização da vitivinicultura brasileira. Entre as principais regiões produtoras, destacam-se a Serra e a Campanha Gaúcha, o Vale do Rio São Francisco, o Norte do Paraná, o Noroeste de São Paulo e o Norte de Minas Gerais.

Vitivinicultura em Santa Catarina

No Estado de Santa Catarina, a produção de uva e vinho se relaciona com a história dos fluxos de colonização do território. Apesar de algumas iniciativas pontuais em épocas anteriores, a viticultura em Santa Catarina só progrediu com a colonização italiana dos vales atlânticos, a partir de 1875, e com a migração de ítalo-brasileiros para o meio-oeste, a partir da década de 1910.

A mais recente fronteira vitivinícola de Santa Catarina é a região de altitude do Planalto Serrano. Em seus vinhedos predominam variedades Vitis vinifera, para produção exclusiva de vinhos finos, plantadas entre 900 e 1400 metros de altitude. Diferente das regiões tradicionais, onde a vitivinicultura se desenvolveu em função da imigração italiana, no Planalto catarinense ela foi baseada em pesquisas científicas, investimento de empreendedores e apoio técnico especializado.

Até a implantação de vinhedos no final do século XX, a região do Planalto catarinense tinha na agropecuária e no extrativismo vegetal suas principais atividades econômicas. Se compararmos com o Rio Grande do Sul, em Santa Catarina a produção de vinhos finos teve um despontar mais tardio. Percebendo o diferencial das condições edafoclimáticas do Planalto, a partir da década de 1970 o Governo de Santa Catarina passou a apoiar iniciativas para o cultivo de espécies de clima temperado, como as videiras, através do Programa de Fruticultura de Clima Temperado (PROFIT). Embora o PROFIT tenha contribuído para o interesse dos produtores no cultivo de variedades europeias, foi somente na década de 1990 e 2000 que o cultivo dessas variedades foi amplamente impulsionado pelo incentivo governamental e investimentos privados.

Um dos experimentos considerados determinantes para a vitivinicultura de Vitis vinifera nas terras altas de Santa Catarina foi iniciado em 1991, através da um projeto financiado pelo Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e executado pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (EPAGRI). Este experimento identificou a aptidão do Planalto catarinense ao cultivo de videiras para a produção de vinhos finos. Percebendo o potencial mercadológico dos vinhos finos, no final da década de 1990 alguns empresários[3] investiram nos primeiros vinhedos de elevada altitude em Santa Catarina. Até 2013, 590 vinhedos tinham sido implantados, totalizando uma área de 332,35 hectares distribuídos em 53 propriedades.

De acordo com o pesquisador Jean Pierre Rosier, as condições edafoclimáticas do Planalto permitem a elaboração de “vinhos diferenciados por sua intensa coloração, definição aromática e equilíbrio gustativo” (ROSIER, 2003, p. 137). Hoje o vinho fino de altitude produzido em Santa Catarina se consolida como um produto de credibilidade e alto valor agregado no mercado nacional. O Estado entrou para o roteiro do enoturismo, trazendo divisas para os produtores de vinho e a rede de comércio e serviços em geral, movimentando toda a economia.

Conforme pesquisa executada por Ivanira Falcade, a paisagem bucólica dos vinhedos nas encostas das serras é o principal elemento que os turistas associam ao vinho produzido na Serra Gaúcha. Deste modo, transformações espaciais que levem a descaracterização desta paisagem vitícola poderão ocasionar a perda desta representação simbólica para os moradores locais, turistas e consumidores dos seus vinhos alhures (FALCADE, 2011, p. 248-249). Considerando este dado para os vinhedos de altitude de Santa Catarina, podemos inferir a necessidade simbólica e mercadológica da preservação dos remanescentes dos campos nativos e das florestas de araucárias, bem como a harmonia espacial e ambiental entre os cultivares exóticos (videiras) e os seres vivos nativos da região (fauna e flora). Tratando-se de um terroir[4] recentíssimo no mundo do vinho, o Planalto de Santa Catarina precisa (re)conhecer seu passado de ocupação e usos da terra, para compreender a importância atual e futura de seus recursos naturais e vislumbrar a sustentabilidade através, quiçá, do enoturismo.   

A trajetória da vitivinicultura no Brasil e em Santa Catarina

(Informações para elaboração de uma linha do tempo ou infográfico. Fonte: IBRAVIN, 2019).

Vitivinicultura no Século XVI

1532 – As primeiras videiras foram trazidas para o Brasil em uma das expedições do português Martim Afonso de Souza. Brás Cubas, membro da expedição, tentou plantá-las na Capitania de São Vicente e perto de Cubatão, mas o clima da região não colaborou.

1551 – Brás Cubas insistiu no cultivo das videiras, passando a plantá-las na região do planalto, na Vila de Piratininga, que viria a se tornar São Paulo. E assim, conseguiu elaborar o primeiro vinho brasileiro.

Vitivinicultura no Século XVII

1626 – A chegada dos jesuítas na região das Missões impulsionou a vitivinicultura no

sul do Brasil. A introdução de videiras no Rio Grande do Sul ficou por conta do Padre

Roque Gonzales de Santa Cruz, com a ajuda dos indígenas para a elaboração dos vinhos.

1640 – Foi realizada a primeira degustação orientada no Brasil, relatada na 1ª Ata da Câmara de São Paulo. A intenção era padronizar os vinhos para comercialização.

Vitivinicultura no Século XVIII

1732 – Imigrantes portugueses passaram a povoar a zona litorânea do Rio Grande do Sul, formando colônias em Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre. Eles trouxeram mudas das ilhas dos Açores e da Madeira, mas o cultivo era apenas para consumo próprio.

1789 – Percebendo a multiplicação das iniciativas em vinhos no Brasil, a corte portuguesa proibiu o cultivo de uva no país, numa tentativa de proteger a própria produção.

Vitivinicultura no Século XIX

1808 – No ano da transferência da coroa portuguesa para o Brasil, com a vinda da família real, a proibição do cultivo da uva foi derrubada e novos hábitos em torno do vinho foram inseridos no país. A bebida passou a ser consumida durante refeições e servidas em reuniões sociais para imitar os costumes dos nobres.

1875 – O grande salto na produção nacional de vinhos ocorreu com a chegada dos imigrantes italianos que trouxeram muito conhecimento técnico de elaboração, além da cultura de consumo. Isso elevou a qualidade da bebida e deu importância econômicapara a atividade. Em Santa Catarina, destaca-se a colonização italiana nos vales atlânticos, sobretudo a região Sul do Estado, com as colônias de Urussanga e Nova Veneza.

Vitivinicultura no Século XX

1910 – Década que marca a chegada dos primeiros colonos italianos no oeste e meio oeste catarinense, provenientes do Rio Grande do Sul, com a abertura da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande. 

1916 – Início da mecanização da vitivinicultura em Santa Catarina, com desengaçadeiras braçais e a ampliação das áreas de cultivo com varietais exclusivamente híbridos/americanos. 

1950 – Chegaram ao Brasil vários produtores de vinho estrangeiros, entre eles a Georges Aubert, a Casa Moët & Chandon, a Martini e a Heublein. Com eles vieram também novas tecnologias, tanto na produção dos vinhos quanto no cultivo das uvas, iniciando um novo ciclo de produção no país.

1960 – Início dos investimentos no cultivo de variedades de uvas europeias em Santa Catarina, predominantemente castas italianas, tais como Barbera, Bonarda, Canaiolo, Malvasia, Trebianno, Peverella e Moscato. 

1970 – Com o Programa de Fruticultura de Clima Temperado (PROFIT), o Governo de Santa Catarina passou a fomentar a introdução de variedades de uvas francesas como Cabernet Sauvignon, Merlot e Riesling.

1990 – A abertura econômica forçou a mudança e a renovação das vinícolas brasileiras. O acesso a diferentes estilos de vinhos e a concorrência com os importados levaram os produtores a aumentar a qualidade.

Vitivinicultura no Século XXI

2000 – Amparados por pesquisas tecnocientíficas, sobretudo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (EPAGRI), empresários com capital acumulado em diversas áreas decidem investir na produção de vinhos finos no Planalto de Santa Catarina.  

2005 – Visando o fortalecimento da marca das vinícolas e de seus produtos no mercado, em 2005 os empresários do setor fundaram a Associação Catarinense dos Produtores de Vinhos Finos de Altitude (ACAVITS), atualmente denominada Vinho de Altitude Produtores e Associados.

2010 – A região de Urussanga obtém o primeiro certificado de Indicação Geográfica Protegida (IGP) do Estado de Santa Catarina, reconhecendo a peculiaridade socioambiental dos Vales da Uva Goethe para a produção desta variedade de uva.  

2019 – A vitivinicultura está se consolidando em diferentes regiões, do Sul ao Nordeste do país, fazendo com que cada região invista no desenvolvimento do enoturismo e na afirmação de uma identidade própria.  

Bibliografia

FALCADE, Ivanira. A paisagem como representação espacial: a paisagem vitícola como símbolo das indicações de procedência de vinhos das regiões Vales dos Vinhedos, Pinto Bandeira e Monte Belo (Brasil). Tese de Doutorado em Geografia. Porto Alegre, RS: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2011.

GUILFORD, Jacquelyn M.; PEZZUTO, John M. Wine and Health: A Review. American Journal of Enology and Viticulture, n. 62, vol. 04, p. 471-486, dez. 2011.

IBRAVIN – Instituto Brasileiro do Vinho. Conheça o mundo dos vinhos e faça parte dele. Bento Gonçalves: IBRAVIN, 2019.

JOHNSON, Hug. A história do vinho. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

LOSSO, Flavia Baratieri. A produção de vinhos finos de altitude na região vitivinícola de São Joaquim / SC: uma alternativa para o turismo? Dissertação de Mestrado em Turismo e Hotelaria. Itajaí, SC: Universidade do Vale do Itajaí, 2010.

ROSIER, Jean Pierre. Novas regiões: vinhos de altitude no sul do Brasil. In: Anais do X Congresso Brasileiro de Viticultura e Enologia. Bento Gonçalves: EMBRAPA Uva e Vinho, 2003. p. 137-140.

WINEPEDIA. O que é terroir? Curiosidades, 04 jul. 2018. Disponível em: <https://winepedia.com.br/curiosidades/o-que-e-terroir/>. Acesso em: 27 abr. 2019.

WORSTER, Donald. Para fazer história ambiental: temas, fontes e linhas de pesquisa. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 04, n. 08, 1991.


[1] Gil Karlos Ferri, graduado em História (UFSC) e Mestre em História Ambiental (UFFS). Pesquisa e leciona História, com ênfase em estudos ítalo-brasileiros, vitivinicultura e História Ambiental Global. Pesquisador do projeto Da terra á mesa: uma história ambiental da vitivinicultura nas Américas, coordenado pela Dra. Eunice Sueli Nodari (UFSC/CNPq) em parceria com a Stanford University.

[2] De acordo com seu uso, as uvas podem ser separadas em duas categorias: 1) comum ou de mesa, normalmente de cultivares norte-americanas e/ou híbridas Vitis labrusca, Vitis rupestris, Vitis riparia e Vitis bourquina (ex.: Niágara e Isabel); e 2) viníferas, de espécies europeias Vitis vinifera (ex.: Merlot e Cabernet). Fonte: EPAGRI, 2013, p. 44.

[3] De modo geral, são empresários bem sucedidos em outros setores que, por gostarem de vinho, optaram por este novo investimento. Além da paixão pela bebida, estes empreendedores investem na vitivinicultura observando nela uma oportunidade de bons negócios, inovação e lucratividade. Visando o fortalecimento de suas vinícolas e produtos no mercado, em 2005 os empresários do setor fundaram a Associação Catarinense dos Produtores de Vinhos Finos de Altitude (ACAVITS, atual Vinho de Altitude Produtores e Associados). Fonte: LOSSO, 2010, p. 121.

[4] Do ponto de vista enológico, terroir é uma palavra francesa que se refere ao ambiente natural e humano no qual as uvas são cultivadas, incluindo fatores como topografia, geologia, pedologia, drenagem, microclima, castas, intervenção humana, cultura, história e tradição. Fonte: WINEPEDIA, 2018.

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