'Hiroshima': Gente merece existir em prosa
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‘Hiroshima’: Gente merece existir em prosa

‘Hiroshima’: Gente merece existir em prosa

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O dia 6 de agosto de 1945 aparentava ser, pelo menos até às oito e quinze da manhã, apenas mais um. Entretanto, o tique e taque do relógio e o clarão silencioso assombrou os indivíduos em Hiroshima e determinou o futuro de gerações 

A impessoalidade da linguagem histórica pouco nos permite compreender o que é ter seu lar atingido por uma bomba atômica, diferentemente do que faz a obra literária Hiroshima, do célebre jornalista John Hersey. Assim, ao dar nome, rosto e espaço às vítimas, a leitura nos permite sentir total agonia, angústia, dor, tristeza e, muita, empatia e solidariedade.  

Hiroshima
Hiroshima. | Foto: Reprodução.

Resenha crítica de Hiroshima

O exemplar é dividido em cinco capítulos, além de contar, na versão brasileira, com o posfácio histórico escrito por Matinas Suzuki Jr. Inicialmente, a reportagem fora propagada pela The New Yorker, em 1946, e tomou a edição inteira da revista. Tornou-se um clássico, tanto que, quarenta anos depois, Hersey retorna à cidade bombardeada para concluir seu trabalho e produzir a obra como hoje a conhecemos, publicada no Brasil em 2002, pela Companhia das Letras.

Ainda que trabalhe somente com 172 páginas, Hiroshima nos arrebata tal como um calhamaço. Munidos de relatos apurados e uma escrita precisa, reconstruímos o dia, as semanas e os anos seguintes do bombardeio através da ótica de seis hibakushas (em japonês para a maneira como os afetados pela Enola Gay preferem ser chamados): uma viúva, um pastor, dois médicos, uma secretária e um padre – esse, inclusive, estrangeiro. Esses atingidos remontam a miséria das zonas de conflito, o que nos leva a seguinte reflexão: O que acontece quando a Guerra bate à porta de um civil?

Esmiuçando o enredo, ao decorrer das cinco partes – denominadas respectivamente, “Um clarão silencioso”, “O fogo”, “Investigam-se os detalhes”, “Flores sobre ruínas” e “Depois da catástrofe” – é eternizado na narrativa pulsante um ato de atrocidade humana que a magnitude do episódio encontra poucos paralelos historiográficos. Embora a objetividade reine e nada seja romantizado, laços inesquecíveis com os protagonistas são criados. Esse fato faz com que o último capítulo do livro-reportagem seja ainda mais emocionante, por contar o desfecho das vidas dos personagens pós-bomba. 

Descentralizando o fronte de batalha, John Hersey fez no jornalismo o que Robert Capa fez na fotografia. A sacada do escritor de humanizar o evento catastrófico foi extraordinária, trazendo a perspectiva não ocidental do ocorrido ao entrevistar os sobreviventes e não especialistas, por exemplo. Assim, também conseguiu ir além dos visores técnicos e das estatísticas de perdas. Tal construção permite fomentar uma atmosfera de proximidade entre os sujeitos representados e o leitor.  

Nenhum detalhe é poupado: a pele dos sobreviventes derretendo, os gritos de “Socorro’’ dos que não puderam ser salvos, as crianças mortas repousando nos braços das mães… Todavia, não é somente a densidade trágica que nutre a trama. Precursor do Novo Jornalismo, John Hersey alia, brilhantemente, a credibilidade factual ao rigor literário para capturar a amplitude da bomba e a essência da comunidade retratada. A frase dita pelo personagem Alvo Dumbledore, da saga Harry Potter, dialoga com o poder da obra literária resenhada: “Palavras são nossa inesgotável fonte de magia”.

Em suma, Hiroshima estrutura no imaginário de quem lê a importância de se manter uma memória coletiva global acerca da capacidade destrutiva da bomba atômica. O processo de esquecimento enterra a história, e é a principal arma para a desinformação e banalização da brutalidade.

Através da emoção, mas sem nunca ser sensacionalista, o livro-reportagem é um combate a barbaridade do conflito e suas consequências. A Arte de se sujar os sapatos feita por Hersey garante um quê a mais de genialidade a sua obra, tornando-a atemporal. Assim, também serve como inspiração para os amantes do jornalismo e nos prova como esse trabalho pode, e deve, ser criativo, humanizado, respeitoso e empático. 

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Por Vitória Prates Monteiro – Fala! Cásper

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