Cadastre-se e tenha acesso a conteúdos exclusivos!
Quero me cadastrar!
Menu & Busca
Grupo Agô Performances Negras promove dança, teatro e contação de história sobre a cultura negra – Confira a nossa entrevista

Grupo Agô Performances Negras promove dança, teatro e contação de história sobre a cultura negra – Confira a nossa entrevista

Na matéria de hoje vamos compartilhar a entrevista que fizemos com o Grupo Agô – Performances Negras, que por meio da arte busca transmitir mensagens e estimular a reflexão sobre a cultura negra e africana em nossa sociedade.

Como a cultura negra é lembrada aqui no Brasil? E de que maneira o Brasil valoriza e se recorda da cultura africana? Confira estas e outras questões com a nossa entrevista:

FALA!: Quando e como surgiu o grupo?

AGÔ: Nascido em 2015, o Grupo Agô Performances Negras surgiu da vontade inicial dos artistas negros Rose Mara Silva, Vanessa Soares e Wil Oliveira de formar um grupo que abordasse as heranças ancestrais africanas que atravessam o tempo e a história, e que compõem parte relevante da cultura brasileira.

O grupo “Agô Performances Negras” teve sua estreia oficial no dia 26 de abril de 2015, no evento I Pittan Atunda de Contação de Histórias Africanas e Afro-brasileiras, que ocorreu no parque do Ibirapuera, organizado pela intelectual negra e contadora de histórias africanas e afro-brasileiras Kiusan Oliveira.

O grupo [AGÔ] não se via representado de maneira adequada, na sociedade de um modo geral, afinal se nós negros somos mais de 50% da população, onde está a representatividade nas empresas e nos grandes cargos, na publicidade, cinema, teatro, na política, na área da saúde, como médicos, dentistas, entre outros? Tal inquietação partiu da invisibilidade negra na sociedade brasileira.

captura_de_tela_2016-10-20_as_03-52-16

FALA!: Da onde surgiu o nome “AGÔ”? E o que seriam as performances negras?

AGÔ: A palavra “agô”, tem sua origem na língua africana chamada yorubá, e significa “pedir licença aos nossos ancestrais”, ou seja os que vieram e viveram antes da gente. Ao mesmo tempo, também pode significar “pedido de perdão ou proteção ao que se estava fazendo naquele momento”.

Performances negras, pra gente, significa a multiplicidade das artes utilizadas pelo nosso grupo, ou seja, nas apresentações nós utilizamos o silêncio, o canto, a fala, o corpo como desabafo de corpos negros e também como um corpo dançante que se movimenta de acordo com o texto ou a trilha sonora.

Exploramos também a utilização de instrumentos afro brasileiros, como berimbau, kalimba, agogô, unhas de cabra, reco reco de madeira artesanal, atabaque, caxixi e apitos com sonoridades de sons de pássaros. Assim como também é utilizado objetos que criativamente se tornam novos instrumentos. A cabaça, por exemplo, reproduz um som grave numa bacia com água, semelhante a um mini tambor, ou o conduíte de cano, que quando se gira no ar sai um som bem lúdico como se fosse um sonho, e por aí vai.

Pra gente, performance seria criar e recriar oportunidades de expressões artísticas, gerando uma arte que se aproxime da nossa realidade e liberdade de expressão, tanto artística quanto pessoal.

captura_de_tela_2016-10-20_as_03-53-02

FALA!: Vocês atuam em escolas, universidades e teatros? Onde podemos encontrar o AGÔ?

AGÔ: Temos dois movimentos de atuações. Um deles é quando estamos em um lugar fixo, como um teatro. Neste movimento o público espontâneo vem até a gente pra ver o nosso trabalho. O outro movimento é justamente quando o grupo vai até o público, possibilitando que a arte e a informação cheguem em lugares que dificilmente pudessem ser vistos, por diversas questões burocráticas, sociais e até culturais. Como exemplo deste movimento podemos citar as visitas na Fundação Casa de Santo André, diversas periferias do estado de São Paulo e do Rio de Janeiro, escolas, universidades, feiras de eventos, entre outros espaços.

captura_de_tela_2016-10-20_as_03-54-47

FALA!: Recentemente, dia 20 de novembro, foi comemorado o dia da consciência negra – uma data dedicada à discussão sobre a reinserção do negro na sociedade. Como um coletivo artístico que representa a cultura negra, de que maneira vocês enxergam essa questão? Vocês acreditam que o negro está efetivamente sendo reinserido na sociedade?

AGÔ: Iniciamos nossa fala recitando um poema de Marthin Luter King “I have a dream” – “Eu tenho um sonho, o sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele”.
Em relação ao dia 20 de novembro, reconhecemos toda a importância desta data, mas a crítica é a seguinte: a impressão que se dá é que somente existem negros e negras no mês de novembro. É como se surgissem do nada, somente neste mês, ou em muitos casos somente neste dia.

A luta, o respeito, a reflexão e a consciência tem que ser diariamente, como se a cada dia fosse de fato um dia 20 de novembro, um 19 de abril e por aí vai. Quanto a reinserção do negro na sociedade, nós do grupo notamos uma mudança positiva, mesmo sabendo que ainda está longe de ser a ideal. Notamos pais mais abertos ao assunto de questões raciais, notamos uma aceitação de seus traços, origens e cor de pele, notamos as crianças crescendo e se assumindo como negras, seja pela fala, postura ou vestimenta. Elas estão atingindo e conquistando um empoderamento que nossa geração anterior não tinha acesso – era negado a nós a opção de sermos aceitos e de nos aceitarmos como somos, e somos lindos, herdeiros de culturas, inteligências e sabedoria ancestral.

Estamos aos poucos reconquistando nossos espaços e ressignificando nossas histórias, que nos foram roubadas, inventadas e apagadas por poderes e pessoas racistas exploradoras.
Estamos vindo como uma onda, e esta onda é NEGRA.

captura_de_tela_2016-10-20_as_03-51-39

FALA!: Um ponto muito bacana do trabalho de vocês é a lembrança sobre a cultura africana e negra no geral. Como vocês têm observado essa questão na educação brasileira? Na opinião de vocês, falta disseminar a arte negra, a cultura e a tradição dentro das escolas e universidades do Brasil?

AGÔ: Bom, o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira sempre foram lembrados nas escolas com o tema da escravidão negra, como se nós, negros, não tivéssemos história anterior a isso, como se na África não tivesse existido reis e rainhas, grandes reinos, tecnologia avançada etc.

No ano de 2003, foi aprovada a lei de número 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares. A ideia foi ótima, o movimento negro teve fundamental importância e participação nesta ação afirmativa, porém, na prática esta lei não funciona como deveria, e muitos professores (inclusive professores negros) se recusam a falar e a pesquisar sobre essas temas.

Culturalmente, a nossa sociedade racista assimilou e assimila a cultura negra como sendo algo ruim, coisa que não presta, chamam de macumba as religiões oriundas do povo africano, e mal sabem eles que macumba é uma árvore, e que dela se faz também um instrumento utilizado pelos escravos de ganho, ou seja, os escravos responsáveis pela venda de quitutes e objetos de seus senhores. Eles tocavam este instrumento chamado “macumba” para chamar a atenção de sua clientela.

Hoje em dia se fala mais em cultura negra, mas ainda está longe de ser o ideal.

captura_de_tela_2016-10-20_as_03-54-31

FALA!: Neste último final de semana vocês foram até Ouro Preto e Belo Horizonte. Podem contar um pouco de como foi essa experiência?

AGÔ: Nós do grupo acreditamos que 50% do nosso trabalho advém de nós mesmos, no que se diz respeito a pesquisar e se aprimorar tecnicamente, enquanto os outros 50% advém do plano espiritual que está em nós e nos acompanha.

A ida até Ouro Preto foi justamente pra receber a energia daquele lugar e das pessoas que ali moram. Ouro Preto recebeu durante a escravidão milhares de negros e negras escravizados diretamente da África, e pra gente estar ali foi muito importante e emocionante.

Visitamos uma antiga mina de ouro, e naquele momento nossas vozes embargaram. Foi difícil não conter a lágrima clara sobre a pele escura. Tivemos a oportunidade de cantar uma música dentro da mina, em um estilo identificado como “vissungo”. Os vissungos eram músicas de trabalho, cantadas pelo negros escravizados durante seus momentos de trabalho, de modo a organizar as tarefas, dar ritmo ao trabalho e também se comunicar em códigos de modo que o feitor não pudesse reconhecer e nem entender os que eles estavam dizendo ou planejando.

No dia 20 de novembro estivemos em Belo Horizonte, no evento chamado “Canjerê – Festival de Cultura Quilombola de Minas Gerais”, que reuniu mais de 200 quilombolas do estado de Minas Gerais. O evento ocorreu na Praça da Liberdade e nos apresentamos no meio da tarde. Estávamos irradiados pela energia daquele lugar.

FALA!: Para fechar, querem deixar um recado pra quem ainda não conhece o trabalho de vocês?

AGÔ:

“Saber-se negro é viver a experiência de ter sido massacrado em sua identidade, confundido em suas perspectivas, submetido a exigências, compelido a expectativas alienadas. Mas também é sobretudo a experiência de comprometer-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades”.

(Neusa Santos Sousa)

SER NEGRO NO BRASIL NÃO É FÁCIL, ALIÁS….. NUNCA FOI!!

Gratidão… Axé.

15267770_1325991187433032_6800640789000971280_n
Foto: Túlio Campos.

 

Clique AQUI e acesse a página do grupo no Facebook.

Assista o teaser com ensaio aberto do AGÔ:

Contato: ago.performancesnegras@gmail.com

Tel: 11 97795.1449

Agenda: 11.12 Feira Preta – 15 anos

Por: Marcelo Gasperin – Fala! Universidades

1 Comentário

  1. Avatar

    O local historico representa a forte ligacao da cidade com as linhas ferreas que um dia cortaram o Estado de Sao Paulo e faziam com que todos os caminhos levassem a Bauru-SP. Nada mais adequado, tendo em vista que as direcoes da cidade apontam diretamente para a Cultura Negra.

Tags mais acessadas