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Gordofobia: como ela reflete na sociedade

Gordofobia: como ela reflete na sociedade

Por Flávia Carolina – Fala!Anhembi

O sufixo fobia é usado para determinar o temor e/ou aversão exagerada a lugares, objetos, situações ou animais, mas hoje sabemos que se encaixa também a pessoas. Dessa forma, gordofobia é nada mais do que uma repulsa e intolerância contra pessoas gordas. É um termo recente, porém denomina diversas ações e situações desagradáveis àqueles que convivem com ela.

Frases como “seu rosto é tão bonito, por que não emagrece?”, “você tem que emagrecer, cuidar da sua saúde” ou “desse jeito não vai arranjar namorado(a)” são ditas comumente, sem nenhuma preocupação se quem vai ouvir quer mesmo que tais palavras sejam ditas. Injúria racial e violência contra a mulher são considerados crimes no Brasil, então por qual motivo o preconceito contra o corpo gordo também não entra nessa?

(Foto: Mariana Godoy, para o ensaio “Empoderarte-me”)

A normalização da intolerância contra pessoas gordas é encorajada por órgãos de saúde pública e campanhas publicitárias – especialmente no verão, quando os corpos ficam sempre à mostra. Uma sociedade que prega um padrão estético inalcançável também colabora com a repressão de quem não consegue comprar uma roupa em uma loja de departamentos popular. Se normaliza, se vela e se repreende.

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Muito mais antigo

Essa discriminação tem fundamentos medievais e religiosos. A igreja católica considerou a gula como um dos sete pecados capitais, portanto, um fracasso moral. Também nesse período a Europa passava por escassez de alimento e com isso, as pessoas gordas eram temidas, apontadas como as que acabariam com os poucos alimentos que tinham, consequentemente eram marginalizadas. Muitas vezes se submetiam a experiências – mais consideradas como torturas – para que perdessem as gorduras em excesso, mas tudo era em vão.

Entretanto nem sempre foi assim. Arqueólogos encontraram uma escultura de 11cm, chamada de Vênus de Willendorf. Acredita-se que essa imagem era usada em rituais de fertilidade e que representa o modelo corporal feminino valorizado no período pré-histórico. Porém, o tempo passa e as coisas mudam, até mesmo qual biótipo amar e qual odiar gratuitamente.

(Fonte: Google Imagens)

Muito além do padrão estético

De fato há uma grande pressão estética sobre as pessoas. Somos bombardeados a todo momento com modelos femininos e masculinos sem imperfeições em capas de revistas e campanhas publicitárias. O tão cultuado “corpo de verão” fica ainda mais evidente quando chega a estação a qual recebe o nome. Dietas malucas, sem comprovações de eficácia ou segurança são promovidas. Musas e ídolos fitness são os queridinhos das redes sociais, viram digital influencers e lucram promovendo um corpo que nem todos podem ter… O padrão é construído assim, em cada canto e mesmo quem tem o corpo aceitável socialmente vai sofrer com a pressão estética, porque alguma coisa não vai se encaixar. Por outro lado, a gordofobia não é somente se encaixar num molde de beleza. Quem presencia tal discriminação tem problemas de acessibilidade (precisa pensar muito antes de entrar no ônibus por medo de não passar pela catraca, não sabe se a cadeira vai suportar seu peso, precisa ficar com parte do quadril para fora do banco do metrô, não encontra equipamento hospitalar adequado entre outras situações); sofre exclusão social (muitas roupas da própria ala plus size não servem, fica ainda mais difícil conseguir um emprego, os atendimentos médicos são ineficientes pois profissionais da saúde pressupõem antes de um exame de sangue que os problemas estão ali pelo sobrepeso).

Esse sistema gordofóbico priva os direitos básicos de uma pessoa.

Viver com um corpo grande é ser considerado doente mesmo com os exames dizendo o contrário. A culpa será sempre da pessoa por ser assim, porque “se tivesse vergonha na cara e força de vontade emagreceria”. Gordofobia é patologização e culpabilização.

Outro fator que caracteriza a gordofobia é a ofensa disfarçada pela preocupação com a saúde. A imagem do corpo gordo é sempre associada a obesidade devido a construção negativa ao redor da gordura encontrada nos alimentos e em nossos corpos. A magreza se tornou o sinônimo para saúde, ainda que um indivíduo magro talvez esteja assim por consequência de alguma doença. Dielly Santos e Nara Almeida exemplificam esses casos.

(Imagem: Reprodução/Facebook página Empodere Duas Mulheres)

Com apenas 16 anos, a adolescente Dielly Santos se suicidou no banheiro da escola onde sofreu inúmeras ofensas a respeito do corpo que a carregava pra lá e pra cá. Ignorando sua morte, mais discursos de ódio foram feitos em uma postagem sobre seu falecimento. Nem mesmo em um momento delicado houve paz, o que ela mais queria quando ainda estava viva. Mais delicado ainda é pensar que ela é só mais uma dentro da estatística – estatística essa que não existe em pesquisas de números pelo simples fato da gordofobia não ser discutida como deveria – de mulheres que tiram a própria vida por não aguentar mais tanta humilhação.

Já Nara Almeida era uma digital influencer que ganhou mais notoriedade quando passou a compartilhar com seus seguidores todas as fases de seu tratamento contra um câncer no estômago. Infelizmente ela não resistiu e teve seu falecimento confirmado pelo namorado em uma rede social.

(Foto: Reprodução/Instagram)

Em uma postagem meses antes criticou os elogios que recebia por estar magra. Diversas pessoas comentavam o quanto ela estava bonita, desejavam seu corpo independente do resultado vir por meio de uma luta contra uma doença complicada. Após sua morte, houve-se uma inundação de matérias que contavam sua trajetória, gente de todo canto se solidarizando com a situação, deixavam, e ainda deixam, mensagens de apoio.

Dois casos ocorridos no mês de maio. O primeiro deixado de lado, banhado pelo ódio; o outro reportado em muitas mídias e cheio de compaixão. Isso é que se chama empatia seletiva, pessoa escolhe quem apoiar pela imagem do que é bonito que lhe foi construída. É como se você visse na rua dois cachorros, um vira-latas e outro de raça e você resolvesse fazer de tudo para ajudar o cachorro de raça porque é considerado mais bonito, único, enquanto o sem raça passa despercebido por ser muito comum, feio. O corpo gordo sofre igualmente em momentos chocantes.

O universo da moda

O mercado precisa acompanhar as mudanças, certo? Com a moda não foi diferente. Diante da procura por roupas acima do manequim 42 muitas marcas e lojas começaram a produzir modelos que atendessem a demanda, só que nem tudo é 100%. Os preços das peças ainda ultrapassam a média do salário brasileiro e o conceito de numeração não consegue aparecer em lojas populares. Uma influência para isso são as passarelas plus size que também impuseram um padrão de corpo gordo: seios grandes, cintura fina e quadris largos. Bastante remetente aos corpos femininos da Era Vitoriana.

(Foto: Reprodução/Instagram)

Fluvia Lacerda é uma modelo plus size brasileira de renome internacional. Já foi capa da revista Vogue e recentemente fez um ensaio à revista Playboy do Brasil. Ela faz jus a esse molde de corpo que normalmente representa as mulheres gordas dentro do mundo da moda. Certamente foi uma enorme revolução e serve de inspiração às mulheres de todas as idades, deixa visível que ser “grande dos lados” não caracteriza feiura ou falta de feminilidade e sensualidade. Fluvia também colabora na militância. Em 2017 lançou um livro intitulado “Gorda não é palavrão” onde conta sua trajetória, problemas enfrentados e defende o corpo gordo.

O necessário ainda é desmistificar esse ideal do corpo gordo aceitável. Do mesmo jeito que encontramos corpos magros de todos os jeitos, as pessoas gordas também serão diferentes. Quadris estreitos, seios grandes e pequenos, barrigas grandes, cintura marcada ou não e etc. Com tanta diversidade, exigir um padrão dentro do padrão é impor um mundo irreal.

Representatividade com apoio

Ainda se tem muito a evoluir quando o assunto é representatividade de pessoas gordas, seja na mídia ou no dia a dia, mas já se alcançou uma visibilidade significativa. Tiago Abravanel fez seu espaço dentro de uma grande emissora do país, e servindo de apoio aos homens gordos porque, apesar de afetar mais as mulheres, também prejudica o gênero masculino.

O YouTube vem ajudando bastante nesse processo de sororidade. Nomes como Alexandra Gurgel, do canal “Alexandrismos”; Luíza Junqueira, do canal “Tá, querida” e Maíra Medeiros, do canal “Nunca Te Pedi Nada” debatem, dão dicas, ensinam, exploram e abrem novos olhares para as mulheres gordas e para quem não é. São assumidamente gordas e quebram o tabu que a palavra gorda/gordo carrega já que, oras bolas, é apenas uma característica, não um xingamento. Bernardo Boechat, do canal “Bernardo Fala”, é homem, gay, gordo e aborda muitos temas de amor próprio para ajudar nesse aprendizado de todo dia. A jornalista e criadora do blog “Entre Topetes e Vinis”, Juliana Romano, mantém no seu blog diversas dicas de moda plus size e onde comprar, fortalecendo essa área do mercado de roupas e ajudando a crescer mais ainda.

Indo mais adiante, os quadrinhos ganharam uma forte aliada na representação. Faith é o nome da super-heroína e da HQ que coloca em suas páginas uma mulher gorda, de bem com o próprio corpo e que salva a cidade com os seus poderes psicocinéticos e telepáticos. A distribuição da HQ aqui no Brasil está por conta da Jambô Editora desde 2017 e o mais interessante é a grande possibilidade de virar um filme. Seguindo pela cultura pop a série britânica já finalizada do canal E4, “My Mad Fat Diary”, se baseia na história real de Rachel Earl, que prefere ser chamada somente por Rae. A narração navega pela adolescência nos anos 90 de uma garota gorda, alta e que acabou de sair de um hospital psiquiátrico e precisa retomar a sua vida. Apresenta uma visão muito sensível e realística do convívio da personagem com seus amigos, família, relacionamentos, sociedade e com ela mesma, além de apontar lições para a construção da auto aceitação.

A gordofobia faz parte da vida de todo mundo, mas é quem vivencia na pele que sente o quanto é preciso evoluir mais e mais para deixar de lado esse preconceito. A nutricionista Paola Altheia, cabeça por trás da página e canal “Não Sou Exposição” mantém diálogos abertos, reais sobre saúde e promove a aceitação de todos os corpos existentes. Um de seus objetivos é deixar claro que o biotipo gordo não é sinônimo de doença. “O corpo gordo incomoda porque a sociedade relaciona características morais negativas, como indisciplina, preguiça e falta de obstinação, com gordura corporal. A falta de informação colabora para isso” – ela afirma em uma matéria para o site Extra. 

 

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1 Comentário

  1. 6 meses ago

    Excelente Post! Continuarei seguindo este Blog, aproveita e dá uma passadinha no meu. Tenho certeza que irá agregar bastante valor e conhecimento também. Te aguardo lá.. Gratidão!!

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